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MONERGISMO OU SINERGISMO?
MONERGISMO OU SINERGISMO?

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Este artigo faz parte do meu livro: "Calvinismo ou Arminianismo - Quem está com a Razão?"
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Monergismo e sinergismo tem sido outro foco de debate entre calvinistas e arminianos. Os calvinistas adotam a linha monergista, onde não existe nenhuma forma de “cooperação” entre Deus e o homem. Tudo é feito por Deus, de modo que o homem é meramente um agente passivo, como um ser em estado vegetativo, que nada pode fazer ou agir. O homem não pode, por esta visão, resistir à graça preveniente (a que vem antes da salvação) ou à graça cooperante (a quem vem depois de já ter sido salvo). Se o homem é salvo ou condenado, isso foi uma decisão unilateral da parte de Deus, que o homem não toma parte.

 

Os arminianos, por outro lado, são sinergistas. O sinergismo arminiano basicamente ensina que o homem “coopera” com Deus no sentido de não resistir à operação do Espírito Santo em sua vida, já que, como vimos no capítulo anterior, a graça não é irresistível. O homem não produz a sua própria salvação, mas ele pode intervir negativamente e resistir à graça divina. Desta forma, a resistência à graça preveniente é tão possível quanto a apostasia posterior, que é a resistência à graça cooperante.

 

 

• O que os arminianos clássicos entendem por “sinergismo”?

 

Antes de entrarmos mais a fundo naquilo que a Bíblia ensina sobre este tema, é necessário diferenciarmos o sinergismo arminiano clássico das outras formas de sinergismo, comumente chamadas de pelagianismo e semipelagianismo. Como já vimos, o pelagianismo nega o pecado original, e, portanto, não há nenhuma depravação herdada, de modo que o homem pode chegar a Deus meramente por suas obras. Este sinergismo, onde o homem produz sua própria salvação, é fortemente rejeitado pelos arminianos.

 

O semipelagianismo, embora não negue o pecado original, se opõe à ideia de que a depravação herdada tenha sido “total”, de modo que ainda sobra alguma coisa no homem que pode conduzi-lo por si mesmo a Deus. Aqui, mais uma vez, é o homem que produz a sua própria salvação. Este conceito também é repudiado pelos arminianos. No sinergismo arminiano, é Deus quem produz em nós a salvação. É ele que “opera em nós o querer e o realizar” (Fp.2:13). A parte do homem não se refere a “produzir” algo, mas a não resistir à operação do Espírito.

 

Este sinergismo arminiano, que é “quase monergista”, foi crido desde sempre por Armínio e seus seguidores. O próprio Armínio disse: “que a fé e obras cooperam juntas na justificação, tal é impossível”[1]. John Wesley também afirmou que “toda a bondade que esteja no homem ou que seja feita pelo homem, Deus é o autor e executor dela”[2]. Como Olson nos conta, “os calvinistas com frequencia acusam Wesley de desertar do protestantismo pelo fato dele salientar a santificação, mas mesmo isso, de acordo com Wesley, é uma obra de Deus dentro de uma pessoa que é recebida pela fé somente”[3].

 

A Society of Evangelical Arminians definiu bem o sinergismo arminiano:

 

“O arminianismo clássico advoga um monergismo inicial. O Espírito Santo enviado por Cristo Jesus prova o erro do mundo a respeito do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8 ). Ninguém pede para ser convencido pelo Espírito de Deus: esta obra é monergista. O poder, a graça e a ação de Deus pró-ativa pretende levar o pecador (não causa efetivamente) ao arrependimento (Rm 2:4)”[4]

 

Thomas Oden segue na mesma linha e diz que “o poder com o qual alguém coopera com a graça é da própria graça”[5]. Ele também diz que “o arminianismo é o sinergismo evangélico em oposição ao sinergismo herético e humanista”[6]. Roger Olson apresenta o sinergismo arminiano de forma mais completa. Ele escreveu:

 

“Então a soteriologia de Armínio era sinergística? Sim, mas não da forma que é comumente entendida. Os calvinistas tendem a considerar o sinergismo como uma cooperação mútua entre Deus e um ser humano na salvação; deste modo, o humano contribui com algo essencial e eficaz na salvação. Mas este não é o sinergismo de Armínio. Antes, seu sinergismo é um sinergismo evangélico que reserva todo o poder, capacidade e eficácia da salvação à graça, mas que permite aos humanos fazerem uso da capacidade concedida por Deus de resistir ou não resistir a ela. A única ‘contribuição’ da parte dos humanos é a não-resistência à graça. É o mesmo que aceitar um presente. Armínio não conseguia entender por que um presente que deve ser recebido livremente deixa de ser um presente, como contendem os calvinistas”[7]

 

Ele ainda disse:

 

“A cooperação não contribui para a salvação, como se Deus fizesse uma parte e os humanos a outra; antes, a cooperação com a graça na teologia arminiana é simplesmente a resistência à graça. É simplesmente a decisão de permitir que a graça faça a sua obra ao renunciar a todas as tentativas de autojustificação e autopurificação e admitindo que somente Cristo pode salvar. Todavia, Deus não torna esta decisão pelo indivíduo; é uma decisão que os indivíduos, sob o impulso da graça preveniente, devem tomar por si mesmos”[8]

 

Em resumo, o sinergismo crido pelos arminianos clássicos concorda plenamente com o calvinista Gresham Machen quando ele disse:

 

“A fé do ser humano, corretamente concebida, não pode nunca permanecer em oposição à plenitude com a qual a salvação depende de Deus: nunca pode significar que o ser humano faz uma parte enquanto Deus apenas faz o resto, pela simples razão de que a fé não consiste em fazer alguma coisa, mas em receber alguma coisa”[9]

 

 

• A fé como um dom de Deus

 

Então, a fé pode ser considerada um “dom de Deus”? Sim, se interpretado da maneira correta. Nenhum arminiano clássico discorda do fato de que a fé é um dom Deus, mas creem na fé como um dom oferecido (assim como a graça), e não como um dom imposto (irresistivelmente). Deus derrama a graça preveniente sobre todos, restaurando o livre-arbítrio do ser humano, que então pode escolher entre aceitar ou rejeitar a graça divina. Àqueles que aceitam, Deus lhes concede a fé como um dom, que é o meio pelo qual somos salvos e podemos continuar firmes.

 

Logicamente, assim como o homem pode resistir à graça, ele pode rejeitar a fé. Em nenhum momento o ser humano é limitado à forma de um ser passivo vegetativo, semelhante às máquinas. Deus não impõe perseverança, mas ele nos capacita pela graça cooperante para que nós possamos continuar firmes e não perder a fé (veremos mais sobre isso no capítulo sobre a perda da salvação). Assim sendo, a fé pode ser vista como um dom de Deus, no sentido de ser algo que recebemos de Deus ao não resistirmos à graça. Pedro fala sobre isso, dizendo:

 

“Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, àqueles que, mediante a justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam conosco uma fé igualmente valiosa” (2ª Pedro 1:1)

 

A fé não foi autoproduzida pelos próprios cristãos a quem Pedro escrevia a carta, mas foi “recebida” por eles. Ela é uma dádiva de Deus aos que aceitam a graça. O conceito da fé como algo que se recebe de Deus também é expressamente declarado em Romanos 12:3, que diz:

 

“Pela graça que me foi dada digo a todos vocês: Ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, ao contrário, tenha um conceito equilibrado, de acordo com a medida da fé que Deus lhe concedeu (Romanos 12:3)

 

Tudo o que nós temos, é porque Deus nos deu, de modo que é absurdo que alguém se vanglorie de algo, como se algo tivesse vindo dele mesmo:

 

“Quem torna você diferente de qualquer outra pessoa? O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu, por que se orgulha, como se assim não fosse?” (1ª Coríntios 4:7)

 

Apesar de a fé ser uma dádiva de Deus, o homem pode resistir a Deus e se “esfriar” na fé. É deste modo que alguém pode ser repreendido por ter uma fé pequena, como ocorre diversas vezes na Escritura, que diz:

 

“'Eu o trouxe aos teus discípulos, mas eles não puderam curá-lo’. Respondeu Jesus: ‘Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei com vocês? Até quando terei que suportá-los? Tragam-me o menino’. Jesus repreendeu o demônio; este saiu do menino e, desde aquele momento, ele ficou curado. Então os discípulos aproximaram-se de Jesus em particular e perguntaram: ‘Por que não conseguimos expulsá-lo?’ Ele respondeu: ‘Por que a fé que vocês têm é pequena. Eu lhes asseguro que se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: Vá daqui para lá, e ele irá. Nada lhes será impossível’” (Mateus 17:16-20)

 

“Imediatamente Jesus estendeu a mão e o segurou. E disse: ‘Homem de pequena fé, porque você duvidou?’” (Mateus 14:31)

 

“Os discípulos foram acordá-lo, clamando: ‘Senhor, salva-nos! Vamos morrer!’ Ele perguntou: ‘Por que vocês estão com tanto medo, homens de pequena fé?’ Então ele se levantou e repreendeu os ventos e o mar, e fez-se completa bonança” (Mateus 8:25-26)

 

Seria cômico senão trágico se Jesus estivesse repreendendo as pessoas pela pouca fé delas se essa fé fosse somente aquilo que monergisticamente foi implantada por Deus, sem nenhuma participação humana ou forma de aumentar ou diminuir essa fé. Neste caso, Jesus teria que estar reclamando com Deus, que lhes deu pouca fé, e não com os homens, que nada podiam fazer para terem uma fé maior ou menor.

 

Logicamente, a fé é um dom de Deus, mas o homem tem participação desde que pode resistir à operação de Deus e, consequentemente, diminuir sua fé ou desacelerar o crescimento dela. É por isso que tais homens são frequentemente repreendidos por Cristo por terem uma fé pequena, porque, se tivessem feito algo diferente, poderiam ter uma fé maior. Há um monergismo na aplicação (é Deus quem concede, e não o homem), mas um sinergismo na forma de administrar este dom (o homem pode resistir à operação de Deus, ou não resistir).

 

É também por essa razão que Pedro nos diz que podemos acrescentar algo à nossa fé:

 

“Por isso mesmo, empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude; à virtude o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a piedade; à piedade a fraternidade; e à fraternidade o amor. Porque, se essas qualidades existirem e estiverem crescendo em suas vidas, elas impedirão que vocês, no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, sejam inoperantes e improdutivos. Todavia, se alguém não as tem, está cego, só vê o que está perto, esquecendo-se da purificação dos seus antigos pecados” (2ª Pedro 1:5-9)

 

É interessante que nem todos os calvinistas creem que a fé é monergística, o que parece uma contradição em primeira mão. Sproul, por exemplo, afirmou:

 

“Quando Deus regenera uma alma humana, quando Ele nos faz espiritualmente vivos, fazemos escolhas. Nós cremos. Temos fé. Apegamo-nos a Cristo. Deus não crê por nós. A fé não é monergística[10]

 

Isso nem parece que foi dito por um dos calvinistas mais famosos dos nossos tempos, pois está de pleno acordo com a visão arminiana histórica. Infelizmente, Sproul (e os demais calvinistas que pensam como ele) não seguem a mesma lógica quando o assunto é a graça[11]. Para eles, na questão da fé há um sinergismo, mas na questão da graça há um monergismo. Isso decorre do erro já refutado da “graça irresistível”. Se o homem pode cooperar na questão da fé sem efetuar sua própria salvação, então ele também pode cooperar no mesmo sentido na questão da graça sem efetuar sua própria salvação.

 

É desta forma que Armínio via a questão da fé, fazendo questão de ressaltar que ela é um dom de Deus:

 

“A fé é dom gracioso e gratuito de Deus, concedido de acordo com a administração dos meios necessários para levar ao fim, ou seja, de acordo com tal administração como a justiça de Deus exige ou para o lado da misericórdia ou da severidade. É um dom que não é concedido de acordo com uma vontade absoluta de salvar alguns homens específicos: pois ela é uma condição exigida no objeto a ser salvo e é, na verdade, uma condição que a antecede como meio para obter a salvação”[12]

 

John Mark Hicks destaca que, “para Armínio, a fé é tanto um dom de Deus como uma condição de salvação que envolve uma resposta humana”[13]. Olson relata o pensamento de Wesley, de que, para ele, “até mesmo a fé é um dom de Deus, assim como a fé era para Armínio”[14]. Foi somente depois de Limborch que alguns arminianos se desviaram da teologia de Armínio e passaram a crer que a fé não é um dom de Deus. Como Olson diz, ele “ingressou em grave erro teológico ao dizer que a fé salvífica é um ato de nossa própria obediência e nossa própria realização”[15].

 

 

• Textos Bíblicos

 

Mas a Bíblia dá mesmo respaldo para algum tipo de cooperação humana que podemos chamar de “sinergismo”? Há diversas passagens que indicam que sim, e que dificilmente podem ser explicadas pela ótica monergista, onde o homem é um agente completamente passivo[16]. Tiago, por exemplo, nos diz:

 

“Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês” (Tiago 4:8)

 

Há uma parte nossa – “aproximem-se de Deus” – e há uma parte de Deus – “e ele se aproximará de vocês”. Se a relação entre Deus e o homem fosse completamente monergística, não haveria uma “parte do homem”. Tudo seria somente da “parte de Deus”. Quem Deus aproximasse dele, estaria aproximado dele. O versículo deixa claro que existe uma relação sinergista entre Deus e o homem. Em Jeremias, o próprio Deus também deixa este conceito evidente, ao dizer:

 

“Então me invocareis, e ireis, e orareis a mim, e eu vos ouvirei. E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração. E serei achado de vós, diz o Senhor” (Jeremias 29:12-14)

 

É por isso que podemos ser chamados de “cooperadores de Deus”:

 

“Como cooperadores de Deus, insistimos com vocês para não receberem em vão a graça de Deus” (2ª Coríntios 6:1)

 

É impossível ler um versículo que diz que nós somos cooperadores de Deus e ainda dizer que Deus opera tudo de forma unilateral, independentemente das atitudes ou escolhas humanas. Paulo repete o mesmo parecer em 1ª Coríntios 3:9, quando diz que “nós somos cooperadores de Deus” (1Co.3:9). Isso, é claro, não significa que o homem possa se orgulhar de alguma coisa, porque a nossa capacidade vem de Deus:

 

“Não que possamos reivindicar qualquer coisa com base em nossos próprios méritos, mas a nossa capacidade vem de Deus” (2ª Coríntios 3:5)

 

Tudo o que o homem faz de bom, é porque Deus o capacitou a isso. “O poder com o qual alguém coopera com a graça é da própria graça”. É como disse Paulo:

 

“Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fazia crescer; de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. O que planta e o que rega têm um só propósito, e cada um será recompensado de acordo com o seu próprio trabalho” (1ª Coríntios 3:6-8)

 

Até mesmo o versículo mais usado pelos calvinistas, que diz que “Deus opera em vós o querer e o realizar” (Fp.2:13), é claramente sinergista diante do contexto, que imediatamente antes diz: “operai a vossa salvação com temor e tremor” (Fp.2:12). Então, vemos que dentro de dois versículos Paulo diz que nós operamos a nossa salvação e que Deus opera a nossa salvação[17]. Estaria o apóstolo sendo contraditório, ou estaria ele refutando a si mesmo no verso 12?

 

É claro que não. As duas coisas são verdadeiras. É Deus que opera em nós a salvação, mas isso não ocorre de forma independente das atitudes humanas. O homem pode resistir a Deus, e, consequentemente, rejeitar a operação de Deus na sua vida, igual fizeram os fariseus, que “rejeitaram o propósito de Deus para eles” (Lc.7:30).

 

Portanto, Deus opera através do homem, e este, por sua vez, pode resistir à operação de Deus em sua vida e rejeitar o propósito para ele. É somente deste jeito que podemos entender dois versos aparentemente contraditórios, onde a operação é declarada ser tanto do homem como de Deus. É somente assim que podemos dar algum sentido à parte em que Paulo exorta os homens a operarem a própria salvação. É como disse Olson:

 

“Se as pessoas estiverem operando sua salvação, do início ao fim, é apenas porque ‘Deus está trabalhando’ nelas (...) Mas não faria sentido algum para Paulo exortar seus leitores para que operassem sua salvação com temor e tremor se Deus estivesse fazendo tudo e eles sequer tivessem de cooperar permitindo que a graça de Deus trabalhasse neles”[18]

 

Comentando o verso de Mateus 19:24, onde Cristo diz que “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mt.19:24), ele também assevera:

 

“Jesus está dizendo que é mais difícil para Deus salvar um rico do que um pobre? Como pode isso? Se todos, sem exceção, apenas entram no reino de Deus pela obra de Deus apenas sem nenhuma cooperação exigida da parte da pessoa, então a fala de Jesus não faz sentido algum”[19]

 

Lemke é outro que fez observações sobre este versículo. Ele diz:

 

“Claro, se Jesus fosse calvinista Ele jamais teria sugerido que é mais difícil para os ricos serem salvos pela graça irresistível de Deus do que os pobres. Suas vontades teriam sido mudadas imediata e invencivelmente no momento da chamada eficaz de Deus. Não seria mais difícil para um rico ser salvo pela chamada monergista e irresistível de Deus do que seria para qualquer outro pecador. Mas o Jesus real estava sugerindo que a salvação das pessoas estava, em certa medida, atrelada a sua resposta e compromisso com Sua chamada”[20]

 

Ainda há outros problemas para os proponentes da tese monergista. Sabemos que os “eleitos” continuam pecando mesmo depois de alcançarem a salvação. Se o livre-arbítrio não existe e o processo é totalmente monergista, deveríamos chegar à infeliz conclusão de que é Deus quem manda os seus “eleitos” pecarem de vez em quando. Isso é obviamente absurdo, pois macula o caráter de santidade de Deus. A relação sinergista entre Deus e o homem é necessária, ou, senão, os pecados não seriam resultado de uma operação humana, e sim de uma operação divina. O homem não seria pecador: Deus é que seria.

 

Por fim, há uma parábola que eu creio que expressa bem a relação sinergista entre Deus e o homem – a parábola dos talentos. Nela, Jesus diz:

 

“A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida partiu de viagem. O que havia recebido cinco talentos saiu imediatamente, aplicou-os, e ganhou mais cinco. Também o que tinha dois talentos ganhou mais dois. Mas o que tinha recebido um talento saiu, cavou um buraco no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor. Depois de muito tempo o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles. O que tinha recebido cinco talentos trouxe os outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco talentos; veja, eu ganhei mais cinco’. O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’ Veio também o que tinha recebido dois talentos e disse: ‘O senhor me confiou dois talentos; veja, eu ganhei mais dois’. O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’ Por fim veio o que tinha recebido um talento e disse: ‘Eu sabia que o senhor é um homem severo, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou. Por isso, tive medo, saí e escondi o seu talento no chão. Veja, aqui está o que lhe pertence’. O senhor respondeu: ‘Servo mau e negligente! Você sabia que eu colho onde não plantei e junto onde não semeei? Então você devia ter confiado o meu dinheiro aos banqueiros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com juros. ‘Tirem o talento dele e entreguem-no ao que tem dez. Pois a quem tem, mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado. E lancem fora o servo inútil, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes’” (Mateus 25:15-30)

 

Em primeiro lugar, a parábola mostra que quem distribui os talentos é Deus. Os talentos são dádivas de Deus, não são autoproduzidos pelo homem. Em segundo lugar, a parábola mostra que todos receberam pelo menos algum talento. Ela não diz que Deus escolheu alguém para não receber talento nenhum. Em terceiro, ela nos mostra a parte do homem. Deus dá o talento e a capacitação de multiplicar esse talento, mas o homem mesmo assim pode “esconder” o talento, rejeitando a vontade de Deus e a operação dEle.

 

A parábola também não teria sentido nenhum caso tudo fosse uma relação monergista. Se o talento é multiplicado ou dividido apenas de acordo com a vontade arbitrária de Deus para com cada um, então Deus estaria culpando aquele homem que escondeu os talentos sendo que foi ele mesmo que impediu que os talentos fossem multiplicados. Em outras palavras, Deus estaria condenando aquele homem ao inferno por algo que Ele próprio fez, monergisticamente, unilateralmente, sem qualquer influência de qualquer ação humana.

 

Dentro da visão sinergista, a parábola tem sentido. Todos os talentos vêm de Deus e são dádivas dele. Ninguém fica sem receber nenhum talento. Ninguém é “abandonado” por Deus, como cria Calvino. Porém, é possível que alguém resista ao Espírito Santo e, por sua própria obstinação e resistência, tornar-se culpado por ter impedido a ação de Deus, que poderia ter multiplicado aqueles talentos da mesma forma que fez com os demais. Aquele homem é culpado por algo que ele deixou de fazer e que ele poderia ter feito. Deus permanece justo, o homem permanece responsável, e o processo permanece sinergista.

 

 

• Últimas considerações

 

Muito do que vimos aqui é uma extensão do que foi abordado nos capítulos anteriores, em especial no capítulo sobre a graça irresistível. Os calvinistas são obrigados a crer em uma relação monergista entre Deus e o homem porque isso é mera consequencia da crença em uma graça irresistível onde o homem não tem qualquer poder ou influência para aceitar ou rejeitar, onde ele não passa de um autômato, beirando um espantalho. Essa visão corrompe o senso lógico e Escriturístico, e entra em choque com tudo aquilo que aprendemos na Bíblia e através da razão.

 

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

 

Por Cristo e por Seu Reino,

Lucas Banzoli.

 



[1] ARMINIUS, “The Private Disputations of James Arminius”, Works, v. 2, p. 407.

[2] WESLEY, John. “Free Grace”, Works. v. 3, Sermão 3, p. 544.

[3] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 32.

[4] Society of Evangelical Arminians.

[5] ODEN, Thomas C. Nashville: Abingdon, 1993, p. 145.

[6] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 24.

[7] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 214.

[8] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 47.

[9] J. Gresham Machen, citado em J. I. Packer, Fundamentalism and the Word of God, p. 172.

[10] SPROUL, Robert Charles. Eleitos de Deus. Editora Cultura Cristã: 1998, p. 88.

[11] Logicamente, nem todos os calvinistas pensam como Sproul. Muitos creem que a fé (e, na verdade, tudo) também é monergista.

[12] ARMINIUS, “Certain Articles to Be Diligently Examined and Weighed”, Works, v. 2, p. 723.

[13] HICKS, John Mark. The Theology of Grace in the Thought of Jacobus Arminius and Philip van Limborch. Filadélfia ou Londres, Westminster Theological Seminary, 1985, p. 97.

[14] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 275.

[15] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 271.

[16] Passarei aqui apenas citações que ainda não foram mostradas no livro, porque muitas delas que falam do livre-arbítrio e da graça resistível também se aplicam perfeitamente aqui, as quais já foram abordadas em capítulos anteriores.

[17] É realmente impressionante a quantidade de vezes que Calvino citou o verso 13 (que fala de Deus operando a salvação), sempre omitindo o verso 12 (que fala do homem operando a salvação). De longe, asseguro que o verso 13 foi citado, pelo menos, uma cem vezes, enquanto o verso 12 não foi citado nem uma única vez, como se não existisse. Ou na Bíblia de Calvino inexistia o verso 12, ou ele era extremamente tendencioso em suas interpretações.

[18] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 268.

[19] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 258.

[20] Lemke, "A Biblical and Theological Critique of Irresistible Grace”, in Whosoever Will: A Biblical-Theological Critique of Five-Point Calvinism, ed. David L. Allen and Steve W. Lemke (Nashville, TN: Broadman & Holman, 2010), p. 121.

 

 

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