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A BÍBLIA E A ESCRAVIDÃO
A BÍBLIA E A ESCRAVIDÃO

a

 

 

CAP. 1 – A ESCRAVIDÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

 

1.1 Definições

 

A escravidão tem sido um dos piores males e uma das páginas mais sombrias da história humana na terra. Dificilmente um dia olharemos para trás e retiraremos a culpa de nossos antepassados em perpetuar tanta maldade, crueldade e desumanidade para com o próximo. Os neo-ateus sabem disso, e veem nisso uma ótima oportunidade para fazer aquilo que eles mais sabem fazer: atacar o Cristianismo, custe o que custar. O problema é que a maioria esmagadora dos neo-ateus jamais leu a Bíblia toda na vida. Sua militância se baseia inteiramente em versos isolados, grosseiramente tirados do contexto, sem nenhum tipo de exegese ou hermenêutica, e se resumindo meramente àquilo que é divulgado através de livros e blogs neo-ateístas. Seria como se um cristão quisesse criticar a evolução de Darwin apenas lendo o blog criacionista Answers in Genesis[1].

 

Quando os neo-ateus veem a palavra “escravo” em alguma tradução da Bíblia em língua portuguesa, e aparentemente em um contexto onde aprova tal escravidão, ele imediatamente acusa a Bíblia de ser a favor do tipo de escravidão que ele está acostumado a ver nos filmes, a ler nos livros e a estudar na escola. O problema, para começar, é que este tipo de escravidão sequer está presente nas páginas do Antigo Testamento – o mais usado pelos neo-ateus. Há uma diferença colossal e monumental entre a escravidão clássica que ele tem em mente, e a “escravidão” presente nos tempos do Antigo Testamento.

 

A escravidão clássica é aquela coisa brutal instigada pelo racismo, onde homens brancos escravizavam homens negros por crerem que estes últimos eram seres inferiores ou “sem alma”. Os escravos africanos eram conduzidos desumanamente em navios negreiros com péssimas condições de vida, onde muitos deles morriam e eram lançados ao mar[2]; e por fim chegavam às mãos de capatazes que os açoitavam no tronco o quanto quisessem – muitas vezes até a morte ou à perda dos sentidos – pois os negros não eram tratados como algo mais do que mera mercadoria. Gary DeMar assim se refere à escravidão presente nos Estados Unidos:

 

“A escravidão praticada neste país [EUA] antes de 1860 era ‘roubar homens’ (sequestro). Africanos ocidentais eram sequestrados, postos em navios, trazidos para as costas da América, vendidos em leilões, e colocados em trabalhos forçados. Reconhece-se que muitos escravos eram tratados com decência em sua chegada e durante o seu cativeiro. Mas não é isso o que se está em questão. Eles ainda eram escravos, em cativeiro contra sua vontade”[3]

 

Essa escravidão sanguinária e monstruosa jamais fez parte da lei de Moisés, nem foi incentivada em parte nenhuma da Bíblia. Comparar este conceito popular sobre escravidão com a “escravidão” entre os judeus do Antigo Testamento é uma jogada leviana e desonesta.

 

Mas, então, como entender os versos bíblicos que falam sobre escravidão na lei de Moisés? Em primeiro lugar é necessário entender a amplitude das palavras geralmente traduzidas por “escravo” no Antigo Testamento. Uma das palavras mais utilizadas, com 289 ocorrências na Bíblia, é עָבַד (transliterado como `abad), que sequer significa “escravo” propriamente dito, mas apenas um “servo” ou “empregado”. A maior e mais respeitada concordância do mundo, a famosa Concordância de Strong, dá os seguintes significados para`abad:

 

05647 abad

uma raiz primitiva; DITAT - 1553; v

1) trabalhar, servir.

1a) (Qal).

1a1) labutar, trabalhar, fazer trabalhos.

1a2) trabalhar para outro, servir a outro com trabalho.

1a3) servir como subordinado.

1a4) servir (Deus).

1a5) servir (com tarefa levítica).

1b) (Nifal).

1b1) ser trabalhado, ser cultivado (referindo-se ao solo).

1b2) tornar-se servo.

1c) (Pual) ser trabalhado.

1d) (Hifil).

1d1) compelir ao trabalho, fazer trabalhar, fazer servir.

1d2) fazer servir como subordinado.

1e) (Hofal) ser levado ou induzido a servir.

 

Como vemos, nenhum dos significados de`abad é de “escravo”, embora esta seja a palavra utilizada em muitos dos textos usados fora de contexto pelos neo-ateus quando acusam a Bíblia de ser a favor da “escravidão” (ex: Lv.25:39-40; 25:46). Ela é usada em diversos contextos onde claramente não tem nada a ver com escravidão. Por exemplo, Deus diz para toda a comunidade israelita que “seis dias trabalharás, mas no sétimo descansarás” (Êx.34:21). A palavra aqui traduzida como “trabalharás” é justamente `abad. Se ela significa “escravo”, teríamos que concluir que todos os israelitas eram escravos, pois esta é uma ordenança geral e nenhum deles poderia trabalhar (`abad) no sábado. O fato de todos os israelitas trabalharem (`abad) durante seis dias da semana mostra que `abad não era uma palavra que tinha uma conotação “escravista”.

 

Há outros contextos que mostram que `abad não tinha uma conotação de “escravidão” necessariamente, como, por exemplo, as várias ocasiões onde `abad aparece no sentido de “servir ao Senhor” (Êx.7:16; 8:1,20; 9:1; 10:3,7,8,11,24,26; 12:31, etc), que nada mais era do que prestar um culto religioso a Deus. Há também a proibição bíblica a servir (`abad) a outros deuses (Dt.5:9; 11:16; 12:2; 13:6), embora claramente os pagãos não fossem “escravos” destes ídolos, mas adoradores.

 

Outra ocorrência bastante interessante de `abad está em Números 4:24, ocasião na qual o clã gersonita (que fazia parte da tribo de Levi) tinha o serviço (`abad) no templo de “levar as cortinas internas do tabernáculo, a Tenda do Encontro, a sua cobertura, a cobertura exterior de couro, as cortinas da entrada da Tenda do Encontro” (Nm.4:25). É evidente que este não era um trabalho escravo, mas uma simples divisão de tarefas entre as várias tribos de Israel.

 

Em Gênesis 3:23, Adão “cultiva (`abad) o solo”, e em Gênesis 4:2 Caim é descrito como sendo um “lavrador (`abad) da terra”. Nestes casos, torna-se ainda mais óbvio que `abad não tem qualquer conotação de “escravidão”, mas se aplicava indiscriminadamente a qualquer tipo de trabalho realizado. Até mesmo quando o contexto é sobre o povo de Israel “plantar vinhas” (Dt.28:39), é `abad que aparece.

 

Jacó se tornou `abad de Labão por sete anos (Gn.29:20), sem jamais ter sido “escravo” dele. Um trabalhador assalariado também era considerado um `abad (Gn.31:6,41). A conclusão lógica que podemos tirar é que um `abad não era mais do que um servo ou trabalhador comum. Ser `abad nos dias de hoje não seria mais do que trabalhar como um médico, advogado, secretário, empregada doméstica, etc.

 

Há também outra palavra frequentemente associada na Bíblia com a “escravidão”, com 800 ocorrências, a qual é עבד (transliterado como `ebed). A Concordância de Strong dá a esta palavra os significados:

 

05650 ebed

procedente de 5647; DITAT - 1553a; n m

1) escravo, servo.

1a) escravo, servo, servidor.

1b) súditos.

1c) servos, adoradores (referindo-se a Deus).

1d) servo (em sentido especial como profetas, levitas, etc.).

1e) servo (referindo-se a Israel).

1f) servo (como forma de dirigir-se entre iguais).

 

No entanto, esta palavra não é mais do que um sinônimo de `abad. Os servos de Abraão, que não eram escravos, mas apenas trabalhadores, também eram `ebed (Gn.12:16; 14:15; 24:10), assim como Ló era `ebed dos anjos (Gn.19:19) e Abraão era `ebed do Senhor (Gn.18:5). Um `ebed podia ser alguém em uma posição inferior na escala social, mas não um “escravo” no sentido usual do termo. Assim sendo, Jacó era “servo” (`ebed) de Esaú (Gn.32:4,18,20; 33:5), embora fosse irmão dele e nunca o tenha “servido” de fato. Da mesma forma, os onze irmãos de José eram “servos” (`ebed) dele (Gn.44:16), mas nunca foram “escravos”. Até o pai de José era chamado de `ebed dele (Gn.44:27).

 

Os servos (`ebed) do Faraó chegavam inclusive a comer um banquete na presente deste (Gn.40:20). Quando a família de José, o governador do Egito, chegou à presença do Faraó, este lhes recepcionou muito bem e lhes deu de presente toda a terra de Gósen (Gn.47:6), e mesmo assim eram considerados `ebed do Faraó (Gn.46:34). Jacó, mesmo sendo `ebed do Faraó, o abençoou (Gn.47:7), um gesto geralmente presente do maior para o menor. Em um momento, todos os egípcios passaram a ser “servos (`ebed) do Faraó” (Gn.47:5), embora não fossem escravizados.

 

Assim como `abad, a palavra `ebed também é usada no contexto de servir a Deus. Assim, Moisés era servo (`ebed) de Deus (Nm.12:8; Js.1:13,15; 8:33), embora fosse o chefe de todo o povo. Assim como Moisés, Calebe também era servo (`ebed) do Senhor (Nm.14:24). Os chefes das tribos de Gade e de Rúben vieram pedir terra a Moisés, reconhecendo-se como servos (`ebed) dele (Nm.32:4), embora os chefes das tribos de Israel obviamente não fossem “escravos” de ninguém. Os israelitas como um todo eram considerados “servos (`ebed) de Saul” (1Sm.17:8), pelo simples fato de estarem sob a liderança deste rei. Assim também, Davi se considerava “servo” (`ebed) de Saul (1Sm.17:36).

 

Após analisar algumas ocorrências de `ebed no Antigo Testamento, Kyle Butt comenta:

 

“Nosso uso moderno da palavra “escravo” geralmente evoca imagens metais de crueldade, injustiça e escravidão contra a vontade de uma pessoa. Embora tais ideias possam estar incluídas no uso bíblico, elas não necessariamente se encaixam a cada vez que as palavras são usadas. Em vez disso, a imagem que vemos muitas vezes quando as palavras bíblicas para “escravo” são empregadas é um arranjo mutuamente benéfico semelhante a uma relação empregador/empregado”[4]

 

A única vez em que `ebed parece ter claramente o sentido de “escravo” é em relação ao trabalho escravo dos israelitas no Egito (Êx.5:16; 13:3; 20:2), ocasião na qual os israelitas prestavam serviços forçados ao Faraó sem qualquer direito, e sendo severamente açoitados para que cumprissem sua cota diária de trabalho (Êx.5:6-14).

 

Diante disso tudo, a King James Version, considerada por muitos estudiosos como a melhor tradução já feita em língua inglesa, decidiu traduzir a palavra slave (escravo) em somente uma única ocasião no Antigo Testamento (Jr.2:14). O estudioso bíblico John Goldingay também concorda com esta análise preliminar sobre os vocábulos `abad e `ebed. Ele assinalou que “não há nada de intrinsecamente humilde ou indigno em ser um `ebed. Em vez disso, era um termo honroso e digno”[5]. Nosso próximo passo é ver se os `abad e `ebed em Israel, sob a sanção da lei de Moisés, tinham uma conotação pejorativa escravocrata, ou se era uma mera referência a um trabalhador ou servo, de acordo com o sentido geral destes termos na Escritura.

 

 

1.2 A “escravidão” entre os hebreus

 

Ao lermos as páginas da lei do Antigo Testamento no que diz respeito aos “escravos”, temos ainda mais segurança em afirmar que `abad e `ebed não tinham qualquer conotação pejorativa que os associasse à escravidão clássica ou antiga. Ao contrário, a lei de Moisés rompe os padrões da época e estabelece dignidade e cidadania aos servos que, de outra forma, estariam sofrendo muito mais em outros países, sob as mesmas condições. O “escravo” em Israel não era um escravo propriamente dito, mas alguém que voluntariamente se vendeu como servo de outra pessoa a fim de pagar uma dívida que contraiu por algum meio. Por essa razão, ele trabalhava para a pessoa a quem devia, pelo tanto de tempo correspondente à sua dívida.

 

Isso não é mais do que se eu estivesse endividado com você e não tivesse dinheiro para pagá-lo no momento, e por essa razão me voluntariasse a trabalhar para você na sua empresa (ou na sua casa) até que pagasse a dívida com os meus serviços prestados. Isso obviamente não tem absolutamente nada a ver com a “escravidão” que estamos acostumados a ler, ou aquela que os ateus usam para falsamente acusar os cristãos. A lei era clara em dizer que esse servo não trabalharia como “escravo”, mas como trabalhador contratado, pois de fato o que ele trabalhava era descontado da dívida até que a mesma fosse totalmente paga:

 

“Se alguém do seu povo empobrecer e se vender a algum de vocês, não o façam trabalhar como escravo. Ele deverá ser tratado como trabalhador contratado ou como residente temporário; trabalhará para quem o comprou até o ano do jubileu. Então ele e os seus filhos estarão livres, e ele poderá voltar para o seu próprio clã e para a propriedade dos seus antepassados. Pois os israelitas são meus servos, a quem tirei da terra do Egito; não poderão ser vendidos como escravos (Levítico 25:39-42)

 

O conceito básico da “escravidão” entre os hebreus, portanto, não era de um trabalhador forçado que tinha que trabalhar até o fim da vida sendo tratado como mera mercadoria nas mãos de um capataz que tem o poder de fazer o que quiser com ele. Ao contrário: era de trabalhadores devidamente assalariados, porque tudo o que trabalhavam era descontado diariamente da dívida contraída até que a mesma fosse quitada, e então o trabalhador era liberado de seu serviço. Por isso, o “escravo” israelita era corretamente equiparado ao “trabalhador contratado ou residente temporário” (v.40).

 

Levítico 25:53 diz explicitamente:

 

“Ele [o escravo] deverá ser tratado como um empregado contratado anualmente; não permitam que o seu senhor domine impiedosamente sobre ele” (Levítico 25:53)

 

Um texto que lança mais luz sobre a escravidão entre os hebreus é o de Gálatas 4:1, onde Paulo, um judeu, afirma que “enquanto o herdeiro é menor de idade, em nada difere de um escravo, embora seja dono de tudo” (Gl.4:1). Paulo jamais assemelharia o estado de um herdeiro livre ao estado de um escravo, se o escravo em Israel fosse uma “mula de carga” como era nas outras nações. Se o escravo estava no mesmo nível do herdeiro enquanto este é menor de idade, é porque ele tinha dignidade e respeito, não porque fosse uma propriedade ou mercadoria. O “escravo” hebreu era apenas um servo trabalhando pelo tempo correspondente à quitação de uma dívida por ele mesmo contraída.

 

Keith Thompson ressaltou que “isso é semelhante ao que ocorreu no século XVII na América colonial, onde os imigrantes europeus não podiam pagar a passagem para a América e por isso trabalharam para uma família a fim de pagá-los pelo preço da passagem”[6]. Gary DeMar também sublinhou que “muitos dos primeiros colonos dessa nação [EUA] pagaram sua passagem como trabalhadores compulsórios”[7]. Isso, claramente, não é “escravidão”, mas apenas um pagamento justo e devidamente correspondente a uma dívida contraída por alguma razão.

 

Comentando o texto de Levítico 25:39-42 (que acabamos de conferir), James M. Rochford observa três coisas:

 

“Em primeiro lugar, não havia tal coisa como ‘declaração de falência’ na cultura antiga. Falência é um fenômeno moderno. Se você caía em dívida, precisava trabalhar fora. Em segundo lugar, este serviço era voluntário ('ele se vender a vocês' – v.39). Em terceiro lugar, este serviço não foi para o lucro de comerciantes de escravos”[8]

 

Em geral, o “escravo” trabalhava para seu senhor por um período muito breve, porque era raro alguém contrair dívidas tão grandes no sistema vigente em Israel, que regulamentava rigorosamente o tanto de riquezas e consequentemente evitava que alguém empobrecesse muito. Por isso, os casos em que alguém ficava muito tempo como servo eram geralmente quando um criminoso roubava algo de alguém, era descoberto e tinha que devolver aquilo que roubou, acrescentando mais um quinto do valor roubado (Lv.6:5). Em alguns casos excepcionais, o ladrão tinha que restituir o dobro (Êx.22:7), ou até mesmo quatro ou cinco vezes mais daquilo que foi roubado (Êx.22:1). Se alguém roubasse muitas vezes, ou algo de muito valor, iria contrair uma dívida muito grande e consequentemente passaria muito tempo em servidão. Êxodo 22:3 diz:

 

“Um ladrão terá que restituir o que roubou, mas se não tiver nada, será vendido para pagar o roubo” (Êxodo 22:3)

 

Além do servo israelita não ser nem perto de um “escravo” na concepção popular do termo, ele ainda era dotado de uma série de privilégios e benefícios que nunca, em momento nenhum da história, algum escravo de outra nação jamais possuiu. Por exemplo, independentemente do tamanho da dívida contraída, o tempo limite de trabalho era de seis anos. Depois disso, não importa o quanto ainda faltasse para quitar a dívida, ele tinha que ser liberado e voltar para sua casa sem dever mais nada, e sem ter que trabalhar mais para seu antigo senhor:

 

“Se seu concidadão hebreu, homem ou mulher, vender-se a você e servi-lo seis anos, no sétimo ano dê-lhe a liberdade. E, quando o fizer, não o mande embora de mãos vazias. Dê-lhe com generosidade dos animais do seu rebanho, do produto da sua eira e do seu lagar. Dê-lhe conforme a bênção que o Senhor, o seu Deus, lhe tem dado. Lembre-se de que você foi escravo no Egito e que o Senhor, o seu Deus, o redimiu. É por isso que hoje lhe dou essa ordem” (Deuteronômio 15:12-15)

 

Observe que além da servidão ter um limite fixo de tempo, o “escravo” ainda recebia o benefício de sair com provisões dadas pela pessoa a quem trabalhava. Ele não saía de “mãos vazias” (v.13). O “proprietário” tinha a obrigação pela lei de lhe prover com alimentos e outros recursos, a fim de evitar que ele caísse novamente em pobreza e tivesse que se vender a alguém novamente. Mais uma vez, seria desnecessário dizer que algo assim não existe em lugar nenhum além de Israel. Só em Israel o servo era tão beneficiado assim.

 

Como se isso não bastasse, ainda existia em Israel o chamado “ano do jubileu”. O ano do jubileu era um ano em específico que acontecia a cada cinquenta anos. Quando este ano chegava, todos os escravos tinham que ser libertos, não importa o tamanho da dívida nem o tanto de tempo que ainda levaria para pagá-la:

 

“Consagrem o quinquagésimo ano e proclamem libertação por toda a terra a todos os seus moradores. Este lhes será um ano de jubileu, quando cada um de vocês voltará para a propriedade da sua família e para o seu próprio clã” (Levítico 25:10)

 

“Nesse ano do jubileu cada um de vocês voltará para a sua propriedade” (Levítico 25:13)

 

Essa lei, além de beneficiar o servo, ainda servia de ajuste social para evitar a extrema pobreza em Israel, já que neste ano do jubileu as propriedades sempre tinham que voltar aos seus donos originais, e de graça:

 

“[A propriedade] será devolvida no jubileu, e ele então poderá voltar para a sua propriedade” (Levítico 25:28)

 

Isso evitava duas coisas: (a) que houvesse famílias extremamente ricas, monopolizando os recursos e se tornando “senhores” de escravos; (b) que houvesse famílias extremamente pobres, que tivessem sempre que se vender para pagar uma dívida e depois se vender novamente em função de sua irrevogável pobreza. Essa lei servia para equilibrar as coisas. Alguém podia enriquecer durante alguns anos, adquirindo propriedades, mas ao chegar o ano do jubileu tinha que voltar à sua posse original e devolver aos donos originais aquilo que lhes foi adquirido. Da mesma forma, alguém podia ficar muito pobre e ter que vender sua propriedade para pagar a dívida, mas ele mesmo (ou pelo menos seus filhos) não ficaria pobre para sempre (formando gerações de pobres), mas teria sua propriedade de volta, e com ela uma nova chance de recomeçar tudo do zero. Não tenho ideia de outra lei fora de Israel que beneficiasse tanto os servos e os pobres quanto essa.

 

Além disso, a lei proibia que se cobrassem juros de pessoas pobres, impedindo que os ricos lucrassem em cima deles:

 

“Se fizerem empréstimo a alguém do meu povo, a algum necessitado que viva entre vocês, não cobrem juros dele; não emprestem visando lucro” (Êxodo 22:25)

 

Ela também incentivava as doações aos necessitados, de forma liberal e generosa, sem “relutância no coração”:

 

“Se houver algum israelita pobre em qualquer das cidades da terra que o Senhor, o seu Deus, lhe está dando, não endureçam o coração, nem fechem a mão para com o seu irmão pobre. Ao contrário, tenham mão aberta e emprestem-lhe liberalmente o que ele precisar. Cuidado! Que nenhum de vocês alimente este pensamento ímpio: ‘O sétimo ano, o ano do cancelamento das dívidas, está se aproximando, e não quero ajudar o meu irmão pobre’. Ele poderá apelar para o Senhor contra você, e você será culpado pelo pecado. Dê-lhe generosamente, e sem relutância no coração; pois, por isso, o Senhor, o seu Deus, o abençoará em todo o seu trabalho e em tudo o que você fizer” (Deuteronômio 15:7-10)

 

Até a finalidade do dízimo era para o sustento dos levitas, dos estrangeiros, dos órfãos, das viúvas e dos mais necessitados:

 

“Ao final de cada três anos, tragam todos os dízimos da colheita do terceiro ano e armazene-os em sua própria cidade, para que os levitas, que não possuem propriedade nem herança, e os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade venham comer e saciar-se, e para que o Senhor, o seu Deus, o abençoe em todo o trabalho das suas mãos” (Deuteronômio 14:28-29)

 

Essas leis de regulamentação e benefício social existiam justamente “para que não haja nenhum pobre no meio de vós” (Dt.15:4), e funcionavam muito melhor do que qualquer programa social atual. Tais provisões, como ressalta Rochford, faziam com que “não houvesse necessidade de alguém se voluntariar como servo”[9]. Fica a questão: quem iria se preocupar em fazer leis beneficiando os mais pobres e servos, contra a vontade dos mais ricos e soberanos da terra, se o servo era apenas uma mercadoria ou propriedade? A verdade é que estas leis que visavam beneficiar os menos favorecidos existiam justamente porque a ideia de escravidão entre os hebreus era totalmente inexistente, tendo em vista que o servo hebreu não era nem de longe considerado um “escravo”, como nos moldes modernos.

 

A lei também proibia o sequestro e venda de servos sob pena de morte:

 

“Se um homem for pego sequestrando um dos seus irmãos israelitas, tratando-o como escravo ou vendendo-o, o sequestrador terá que morrer. Eliminem o mal do meio de vocês” (Deuteronômio 24:7)

 

Outra lei que favorecia grandemente os escravos era a que permitia que o escravo fugitivo vivesse em liberdade entre os israelitas, em qualquer cidade que ele escolhesse:

 

“Se um escravo refugiar-se entre vocês, não o entreguem nas mãos do seu senhor. Deixem-no viver no meio de vocês pelo tempo que ele desejar e em qualquer cidade que ele escolher. Não o oprimam” (Deuteronômio 23:15-16)

 

Enquanto as leis antigas puniam o escravo fugitivo com a morte, a lei de Moisés não apenas não prescrevia punição nenhuma, como também permitia que o fugitivo vivesse em paz em qualquer cidade que escolhesse, e aquele que o encontrasse era proibido de entregá-lo de volta a seu patrão! Essa lei, além de ser mais um grande benefício aos “escravos”, ainda servia para evitar que um senhor tratasse mal seu servo. A lógica era a seguinte: se um patrão tratasse mal seu escravo, este poderia fugir e o patrão não poderia fazer nada para impedir isso. Por esta razão, eles eram incentivados a tratar bem os que trabalhavam para eles, para que não tivessem nenhuma razão ou motivação para fugir (o que seria relativamente fácil).

 

Enquanto as leis das outras nações deixavam o dono livre para tratar o escravo da forma que quisesse, a lei de Moisés fazia justamente o contrário: beneficiava o “escravo” em detrimento de seu “dono”, forçando os donos a tratar bem seus servos, sob o risco de eles se magoarem pela forma com que são tratados e fugissem para outro lugar. Talvez seja isso o que explique o texto de Deuteronômio 15:16-17, o qual diz que um “escravo” poderia voluntariamente recusar ser “liberto”:

 

“Mas se o seu escravo lhe disser que não quer deixá-lo, porque ama você e sua família e não tem falta de nada, então apanhe um furador e fure a orelha dele contra a porta, e ele se tornará seu escravo para o resto da vida. Faça o mesmo com a sua escrava” (Deuteronômio 15:16-17)

 

Se o servo em Israel fosse tratado como uma mera mercadoria, este texto não teria sentido nenhum, pois é óbvio que um escravo no sentido clássico do termo não iria perder nenhuma oportunidade de ser liberto, quando pudesse. O fato é que o `ebed em Israel era geralmente tão bem tratado que ele poderia inclusive recusar ser “livre”! Como o texto deixa claro, a relação geral entre um `ebed e a família para a qual ele trabalha era de amor, e o servo não tinha falta de nada (v.16). Comentando este texto, Keith Thompson observa:

 

“Isso mostra que os servos estavam sendo tratados muito bem, tanto que muitos optaram por permanecer com a família de seu patrão para sempre por causa do bom tratamento e cuidados realizados por eles”[10]

 

O “American Tract Society Bible Dictionary” também corretamente assinala que:

 

“Os escravos dos hebreus não eram para servir com rigor, nem transferidos para um mais cativeiro mais pesado, ele tinha um recurso para os tribunais, o direito de todos os privilégios religiosos, o poder de exigir a libertação de uma prestação equivalente pecuniária, e uma doação de seu mestre em sua libertação”[11]

 

Em acréscimo a isso, deve ser observado que Levítico 25:48-49 diz que os escravos podiam ser resgatados através de algum parente rico que pagasse pela dívida contraída, de modo a evitar que ele ficasse em servidão; Deuteronômio 25:43 proíbe que os patrões “dominem impiedosamente sobre os servos”; Êxodo 21:8 proíbe que uma escrava seja vendida a estrangeiros e prescreve o resgate dela caso ela não agrade a seu senhor, saindo assim livre; Êxodo 20:17 proíbe cobiçar o escravo do próximo; Levítico 25:44 proíbe a compra de escravos israelitas por outro israelita[12]; além disso, os escravos tinham direitos trabalhistas e podiam descansar nos dias solenes em que as pessoas livres também descansavam, como é o caso do sétimo dia:

 

“Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus trabalhos, mas o sétimo dia é um sábado para o Senhor, o teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu nem teu filho ou filha, nem o teu servo ou serva, nem o teu boi, teu jumento ou qualquer dos teus animais, nem o estrangeiro que estiver em tua propriedade; para que o teu servo e a tua serva descansem como tu” (Deuteronômio 5:13-14)

 

Até o servo tinha descanso no sábado, bem como todo o resto do povo, o que indica que os “escravos” tinham certos direitos iguais aos homens livres. Nas outras sociedades, o escravo não tinha direito nenhum, e era obrigado a trabalhar a qualquer momento que seu dono assim desejasse (ou seja, sempre!). O propósito maior da guarda do sábado era justamente para que os servos e os estrangeiros renovassem suas forças:

 

“Em seis dias façam os seus trabalhos, mas no sétimo não trabalhem, para que o seu boi e o seu jumento possam descansar, e o seu escravo e o estrangeiro renovem as forças (Êxodo 23:12)

 

Mas não era só no sétimo dia que o escravo tinha direito de descanso. Havia também diversos outros descansos periódicos, nas chamadas “festas” e solenidades israelitas (veja, por exemplo, Levítico 23:7-39). Entre essas datas de descanso inclui-se o pentecoste, o dia da expiação, a páscoa, a festa dos tabernáculos e outras solenidades civis e religiosas que Paulo resumiu como sendo os “dias de festa, de lua nova e sábados” (Cl.2:16). Algumas destas datas festivas de descanso eram relativamente longas, como é o caso da festa dos tabernáculos, que durava uma semana inteira (Dt.16:13).

 

Somando todos estes dias festivos de folga e o sábado, Willard Swartley concluiu que “em um período de 50 anos, os servos tinham 23 anos e 54 dias de folga”[13]. Isso é praticamente a metade do tempo! Isso é mais tempo de folga do que o tempo que um trabalhador comum assalariado tem nos dias de hoje, sim, em pleno século XXI. Isso significa que você trabalha mais do que um “escravo” trabalhava em Israel! E se isso já é impactante se aplicado aos dias de hoje, imagine o quão gritante fica o contraste com os outros povos da época, que não davam folga nenhuma aos seus escravos em dia nenhum do ano!

 

O detalhe mais interessante por trás de tudo isso é que nestes dias os escravos não apenas tinham folga, mas eles próprios participavam da celebração das solenidades, da mesma forma que as pessoas livres, o que indica a igualmente em moral e dignidade entre ambos:

 

“E alegrem-se perante o Senhor, o seu Deus, no local que ele escolher para habitação do seu Nome, junto com os seus filhos e as suas filhas, os seus servos e as suas servas, os levitas que vivem na sua cidade, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem com vocês. Lembrem-se de que vocês foram escravos no Egito e obedeçam fielmente a estes decretos. Celebrem também a festa das cabanas durante sete dias, depois que ajuntarem o produto da eira e do lagar. Alegrem-se nessa festa com os seus filhos e as suas filhas, os seus servos e as suas servas, os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade” (Deuteronômio 16:11-14)

 

Êxodo 12:44-45 é particularmente ainda mais interessante, uma vez que prescreve que o escravo poderia comer da páscoa, enquanto o residente temporário e o trabalhador contratado (ou seja, pessoas livres) não:

 

“O escravo comprado poderá comer da Páscoa, depois de circuncidado, mas o residente temporário e o trabalhador contratado dela não comerão” (Êxodo 12:44-45)

 

Isso jamais ocorreria em outra lei antiga sobre escravidão, onde os escravos eram vistos como a escória do mundo, e não tinham direito nenhum a não ser o de trabalhar arduamente até morrer. Contrariando tudo isso, o livro de Jó ensina a igualdade entre senhores e servos:

 

“Se neguei justiça aos meus servos e servas, quando reclamaram contra mim, que farei quando Deus me confrontar? Que responderei quando chamado a prestar contas? Aquele que me fez no ventre materno não fez também a eles? Não foi ele quem formou a mim e a eles no interior de nossas mães? (Jó 31:13-15)

 

E em Joel, Deus profetiza o derramar do Espírito indistintamente, sobre os homens livres e também sobre os “servos e servas”, sem fazer acepção de pessoas:

 

“E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito” (Joel 2:28-29)

 

Uma das maiores características do Deus judaico-cristão, que marca presença ao longo de toda a Escritura, é justamente de não fazer acepção de pessoas, mas tratar todos igualmente (cf. Dt.1:7; 10:17; 16:19; 2Cr.19:7; Ml.2:9; Lv.19:15; Rm.2:11; At.10:34; Tg.2:1,9; Cl.3:25; Ef.6:9; 1Pe.1:17; Lc.20:21).

 

Todos os servos e servas também tinham o direito de comer o dízimo em Jerusalém, da mesma forma que a família para a qual eles trabalhavam:

 

“Vocês não poderão comer em suas próprias cidades o dízimo do cereal, do vinho novo e do azeite, nem a primeira cria dos rebanhos, nem o que, em voto, tiverem prometido, nem as suas ofertas voluntárias ou dádivas especiais. Ao invés disso, vocês os comerão na presença do Senhor, do seu Deus, no local que o Senhor, o seu Deus, escolher; vocês, os seus filhos e filhas, os seus servos e servas, e os levitas das suas cidades. Alegrem-se perante o Senhor, o seu Deus, em tudo o que fizerem” (Deuteronômio 12:17-18)

 

Se alguém ferisse um escravo no olho ou nos dentes, o escravo era automaticamente liberto e a dívida era na mesma hora quitada (Êx.21:26-27)[14], o que demonstra, mais uma vez, que os escravos não eram vistos como propriedades de um dono (se fossem, o dono poderia fazer com eles o que bem entendesse). Comentando este trecho da lei, W. C. Kaiser diz que ela é “sem precedentes no mundo antigo, onde um mestre podia tratar seu escravo como quisesse”[15]. Rochford adiciona que “se este princípio tivesse sido aplicado na escravidão do Sul [dos EUA], este sistema cruel e desumano teria sido em grande parte destruído[16].

 

Também a escrava que se casasse com o filho do patrão teria que ter todos os mesmos direitos de uma filha, e não poderia deixar de provê-la de mantimento e de todos os direitos conjugais:

 

“Se o seu senhor a escolher para seu filho, lhe dará os direitos de uma filha. Se o senhor tomar uma segunda mulher, não poderá privar a primeira de alimento, de roupas e dos direitos conjugais. Se não lhe garantir essas três coisas, ela poderá ir embora sem precisar pagar nada (Êxodo 21:9-11)

 

De fato, eram tantos os direitos dos “escravos” em Israel que John Wenham escreveu que “a forma de escravidão que era tolerada no Antigo Testamento era tão estritamente regulamentada que havia pouca diferença prática entre um escravo e um trabalhador contratado”[17].

 

É digno de nota ressaltar ainda que nos séculos que se seguiram, a escravidão em Israel foi se tornando cada vez mais incomum, e todos aqueles que insistiam em ter escravos eram repudiados pelos profetas e exortados a parar com a prática. Em 2ª Crônicas 28:10-11, por exemplo, lemos:

 

“Mas um profeta do Senhor, chamado Odede, estava em Samaria e saiu ao encontro do exército. Ele lhes disse: Estando irado contra Judá, o Senhor, o Deus dos seus antepassados, entregou-os nas mãos de vocês. Mas a fúria com que vocês os mataram chegou aos céus. E agora ainda pretendem escravizar homens e mulheres de Judá e de Jerusalém. Vocês também não são culpados de pecados contra o Senhor, o seu Deus? Agora, ouçam-me! Mandem de volta seus irmãos que vocês fizeram prisioneiros, pois o fogo da ira do Senhor está sobre vocês" (2ª Crônicas 28:9-11)

 

Como resultado, os israelitas do norte atenderam a exortação e libertaram os escravos (v.14).

 

Outra ocorrência do tipo encontra-se em Neemias 5:1-13, onde o profeta relata o encontro que teve com as autoridades judaicas, e como os repreendeu por terem escravos israelitas:

 

“Ora, o povo, homens e mulheres, começou a reclamar muito de seus irmãos judeus. Alguns diziam: ‘Nós e nossos filhos e filhas somos numerosos; precisamos de trigo para comer e continuar vivos’. Outros diziam: ‘Tivemos que penhorar nossas terras, nossas vinhas e nossas casas para conseguir trigo para matar a fome’. E havia ainda outros que diziam: ‘Tivemos que tomar dinheiro emprestado para pagar o imposto cobrado sobre as nossas terras e as vinhas. Apesar de sermos do mesmo sangue dos nossos compatriotas e dos nossos filhos serem tão bons quanto os deles, ainda assim temos que sujeitar os nossos filhos e as nossas filhas à escravidão. E, de fato, algumas de nossas filhas já foram entregues como escravas e não podemos fazer nada, pois as nossas terras e as nossas vinhas pertencem a outros’. Quando ouvi a reclamação e essas acusações, fiquei furioso. Fiz uma avaliação de tudo e então repreendi os nobres e os oficiais, dizendo-lhes: ‘Vocês estão cobrando juros dos seus compatriotas!’ Por isso convoquei uma grande reunião contra eles e disse: ‘Na medida do possível nós compramos de volta nossos irmãos judeus que haviam sido vendidos aos outros povos. Agora vocês estão até vendendo os seus irmãos! E assim eles terão que ser vendidos a nós de novo!’ Eles ficaram em silêncio, pois ficaram sem resposta. Por isso prossegui: ‘O que vocês estão fazendo não está certo. Vocês devem andar no temor do Senhor para evitar a zombaria dos outros povos, os nossos inimigos. Eu, os meus irmãos e os meus homens de confiança também estamos emprestando dinheiro e trigo ao povo. Mas vamos acabar com a cobrança de juros! Devolvam-lhes imediatamente suas terras, suas vinhas, suas oliveiras e suas casas, e também o juro que cobraram deles, a centésima parte do dinheiro, do trigo, do vinho e do azeite’. E eles responderam: ‘Nós devolveremos tudo o que você citou, e não exigiremos mais nada deles. Vamos fazer o que você está pedindo’. Então convoquei os sacerdotes e os fiz prometer sob juramento cumprirem o que haviam prometido. Também sacudi a dobra do meu manto e disse: ‘Deus assim sacuda de sua casa e de seus bens todo aquele que não mantiver a sua promessa. Tal homem seja sacudido e esvaziado!’ Diante disso, toda a assembléia disse ‘Amém’ e louvou o Senhor. E o povo cumpriu o que prometeu” (Neemias 5:1-13)

 

Em Amós 8:6, Deus repreende severamente aqueles que estavam “comprando o pobre com prata e o necessitado por um par de sandálias” (Am.8:6), e considera essa uma das principais razões pelas quais o castigo de Israel não seria anulado (Am.2:6). Finalmente, em Jeremias 34:8-10, o profeta convence o rei Zedequias a libertar os escravos:

 

“O Senhor dirigiu a palavra a Jeremias depois do acordo que o rei Zedequias fez com todo o povo de Jerusalém de proclamar a libertação dos escravos. Todos teriam que libertar seus escravos e escravas hebreus; ninguém poderia escravizar um compatriota judeu. Assim, todos os líderes e o povo que firmaram esse acordo de libertação dos escravos, concordaram em deixá-los livres e não mais os escravizaram; o povo obedeceu e libertou os escravos” (Jeremias 34:8-10)

 

Claramente, a “escravidão” em Israel não tinha nenhum traço ou semelhança com o conceito popular que temos sobre escravidão, a qual existia nos outros povos da época. Levítico 25:42 é o texto que mais nitidamente diferencia os “escravos” hebreus do tipo de escravidão real que existia nas outras nações:

 

“Pois os israelitas são meus servos, a quem tirei da terra do Egito; não poderão ser vendidos como escravos (Levítico 25:42)

 

O `ebed em Israel não poderia ser vendido “como escravo”, o que significa que o próprio `ebed não era visto como um escravo propriamente dito, no mesmo sentido que as outras nações tinham seus escravos. Como vimos, a “escravidão” entre os hebreus era absolutamente distinta de qualquer tipo de escravidão clássica ou antiga, e não tem qualquer traço ou ligação com elas. A lei de Moisés é, de fato, um grande passo e progresso histórico não apenas em relação à época, mas também em comparação com as épocas posteriores.

 

Há um texto em especial que é particularmente mais difícil e que parece confrontar este estudo, a uma primeira vista. No entanto, se analisado dentro de seu devido contexto, ele reforça o que foi dito até aqui, ao invés de derrubar. O texto em questão se encontra em Êxodo 21:20-21, que diz:

 

“Se alguém ferir seu escravo ou escrava com um pedaço de pau, e como resultado o escravo morrer, será punido; mas se o escravo sobreviver um ou dois dias, não será punido, visto que é sua propriedade” (Êxodo 21:20-21)

 

O texto deixa a entender que o escravo poderia apanhar o quanto quisesse que não haveria problema algum, desde que não causasse a morte. Em caso de morte do escravo, a punição (embora não especificada aqui) é presumivelmente a pena capital, uma vez que ela é a pena atribuída ao assassinato ao longo de todo o capítulo, tornando implícito neste texto a punição capital (não seria necessário repetir que a pena seria a morte, uma vez que esta é a punição-padrão para este tipo de ação).

 

Isso, por si só, é suficiente para mostrar que o escravo não era visto como “mercadoria”, pois neste caso não haveria qualquer problema em matá-lo, pois ninguém pune alguém por destruir algo que é dele mesmo (neste caso, a morte do escravo seria um direito legal, e não algo que fosse punido com morte!). É por isso que as leis das outras nações não previam qualquer tipo de punição para quem matasse um escravo que é seu, já que, como é seu, você poderia fazer o que quisesse com ele. A lei de Moisés era a única que não via o escravo como uma simples propriedade, e por isso punia com morte aquele que matasse algum `ebed.

 

Mas ainda há o problema da segunda metade (o v.21), que diz que se o escravo permanecesse vivo por dois dias não haveria punição. A razão para isso não era porque o escravo era visto como mercadoria (o que é fortemente rejeitado no v.20), mas sim porque era dado ao patrão o benefício da dúvida, ou seja, de que ele não tinha tido a intenção de matar o servo, mas apenas discipliná-lo por algum mal que ele possa ter feito, ou então por causa de um ferimento não-intencional. Keith Thompson afirmou:

 

“Neste caso, o chefe não iria ser condenado à morte, uma vez que o assassinado teria sido acidental. Isso não significa que patrões devessem tentar fazer com que seus servos morressem depois de dois dias, nem que isto tenha sido de alguma forma moral ou bom. O texto não diz isso. Ele está simplesmente dizendo que se uma morte acidental ocorresse após uma punição disciplinar, o patrão não merecia a morte. Vida por vida era aplicada somente quando havia uma intenção consciente de assassinato”[18]

 

Para mostrar que esta era uma regra que valia até mesmo para os homens livres, basta recorrer aos vários trechos da lei onde um israelita matava outro israelita sem intenção, e nestes casos a punição pela morte nunca era a pena capital para quem não teve a intenção de matar, mas sim a ida a uma das “cidades de refúgio”, onde estaria protegido do “vingador do sangue” (Nm.35:10-28). Portanto, nem mesmo a morte não-intencional de homens livres era punida com a morte. A forma de punição era apenas a preservação do indivíduo em uma cidade isolada, e no caso de quem matasse um escravo acidentalmente era de perder o próprio escravo (e, consequentemente, de não ter a retribuição financeira que teria, caso o servo continuasse trabalhando até pagar a dívida contraída). Portanto, o texto não se trata de discriminação contra escravos.

 

O que mais lança luz ao caso é justamente o seu contexto, pois os versos imediatamente anteriores tratam de uma situação hipotética semelhante, só que na relação entre homens livres e não entre homem livre e escravo. Vejamos:

 

“Se dois homens brigarem e um deles ferir o outro com uma pedra ou com o punho e o outro não morrer, mas cair de cama, aquele que o feriu será absolvido, se o outro se levantar e caminhar com o auxílio de uma bengala; todavia ele terá que indenizar o homem ferido pelo tempo que este perdeu e responsabilizar-se por sua completa recuperação” (Êxodo 21:18-19)

 

A mesma coisa que vale para o caso do escravo ferido também serve para o homem livre ferido. Em nenhum dos dois casos há a pena de morte quando não há a morte da outra pessoa, porque lhe é dado o benefício da dúvida. A diferença é que quem fere um homem livre tem que pagar o tratamento dele, enquanto aquele que feriu um escravo tem que libertá-lo (Êx.21:26-27), o que em ambos os casos geram prejuízo financeiro para o indivíduo que feriu alguém. Como o trabalho realizado pelo servo já era em si mesmo uma fonte de renda para o patrão, o fato de o escravo sair livre já era em si mesmo uma perda para o mesmo, proporcionalmente equivalente ao dano que ele teria caso tivesse agredido um homem livre ao invés de um escravo.

 

Um caso semelhante a este, que também nos ajuda a entender a situação, se encontra em Deuteronômio 22:25-29, embora o tema ali não seja a escravidão, mas o estupro. No verso 25 é dito que o homem que estuprasse uma mulher tinha que morrer, e a mulher sairia livre. Mas o verso 28 fala de uma outra moça que teria sido “estuprada” e a punição era somente um pagamento em dinheiro. Como entender isso? A diferença é simples: no primeiro caso, é dito que a moça gritou pedindo socorro (v.27), o que significa que ela não consentiu no ato. Mas no segundo caso não é dito que ela gritou, o que significa que ela estava consentindo. Note que a punição varia entre um crime sem consentimento (estupro) e uma relação sexual consensual, ainda que considerada pecaminosa na época (uma vez que o sexo era só para pessoas casadas)[19]. Em todo caso, a mulher tinha o benefício da dúvida; se ela alega que foi estuprada, somos instigados a acreditar no depoimento dela.

 

Voltando a Êxodo 21:20-21, aqui é dado o mesmo benefício da dúvida, só que ao patrão. O texto não está inferindo que o patrão pode bater no escravo à vontade contanto que não cause a morte instantânea, porque isso entraria em direto conflito com o texto de Êxodo 21:26-27, que diz claramente que maltratar um escravo era o suficiente para que este tivesse a liberdade. Se o maltrato a um escravo era punido desta forma, quanto mais a morte dele. O que está implícito nestes versos, então, não é um passe-livre para patrões agredirem seus servos, mas sim o benefício da dúvida que é concedido caso a agressão não tivesse sido intencional.

 

Podemos até conjecturar sobre as razões que levavam a isso. Em caso de morte imediata, a simples palavra do patrão não seria o bastante, pois faltaria o depoimento do escravo (já morto), e ele seria condenado. Mas em caso de sobrevivência do escravo, o próprio escravo poderia testemunhar sobre não ter sido intencional, e neste caso o patrão estaria isento, tendo que arcar somente com as despesas e, é claro, com a perda do próprio servo que viria a falecer mais tarde.

 

Sobre a parte final do verso, que diz que “o escravo é sua propriedade”, isso não deve ser entendido como sendo “apenas” propriedade (no sentido escravocrata clássico do termo). Paul Copan faz uma importante observação sobre isso ao dizer:

 

“Mesmo quando os termos comprar, vender ou adquirir são usados para os funcionários/empregados, eles não implicam que a pessoa em questão seja ‘apenas propriedade’. Pense em um jogador de futebol nos dias de hoje, que é ‘negociado’ para outra equipe, para a qual ele ‘pertence’. Sim, as equipes têm ‘donos’, mas nem de longe estamos falando de escravidão aqui! Em vez disso, estes são acordos contratuais formais”[20]

 

Portanto, embora o texto de Êxodo 21:20-21 seja de difícil interpretação e possa aparentemente levar a equívocos se analisado apenas superficialmente, não há nada nele que comprometa o sentido real e verdadeiro de `ebed à luz da Bíblia, se examinado mais cuidadosamente.

 

Outro texto geralmente utilizado por neo-ateus e críticos da Bíblia em geral é esse:

 

“Se um homem deitar-se com uma escrava prometida a outro homem, mas que não tenha sido resgatada nem recebido sua liberdade, aplique-se a devida punição. Contudo não serão mortos, porquanto ela não havia sido libertada. O homem, porém, trará ao Senhor, à entrada da Tenda do Encontro, um carneiro como oferta pela culpa” (Levítico 19:20-21)

 

Não haveria nenhum problema com este texto (assim traduzido pela NVI) se não fosse pelo fato da King James ter cometido um erro de tradução imperdoável, vertendo por “aplique a ela a devida punição”, ao invés de “aplique-se a devida punição”. Com este equívoco, passou-se a ideia de que apenas a mulher era punida pelo adultério, e o homem saía ileso e tinha apenas que trazer ao Senhor um carneiro como oferta pelo pecado. É importante ressaltar que o pronome “ela” (no hebraico, היא) não consta no texto bíblico original, e que atualmente quase nenhuma tradução segue o erro da King James (nem mesmo aquelas que traduziram a partir da KJV). As versões Almeida em geral vertem o texto no plural (“serão castigados”)[21], e as versões católicas também não sugerem que a punição é válida somente à mulher[22].

 

 

1.3 Os escravos prisioneiros de guerra

 

O segundo tipo de escravidão presente na lei de Moisés era referente aos estrangeiros que eram derrotados em uma batalha e, por um ato de misericórdia, tinham suas vidas poupadas e passavam a servir o povo que os venceu. Em primeiro lugar, é fundamentalmente importante distinguir esses estrangeiros dos estrangeiros em geral. A lei de Moisés era em disparado a lei que mais beneficiava estrangeiros dentre todas as leis da época. Esses estrangeiros, uma vez circuncidados, passavam a integrar a sociedade judaica e tinham os mesmos direitos de um cidadão nascido na terra:

 

“Vocês terão a mesma lei para o estrangeiro e para o natural. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 24:22)

 

“A assembleia deverá ter as mesmas leis, que valerão tanto para vocês como para o estrangeiro que vive entre vocês; este é um decreto perpétuo pelas suas gerações, que, perante o Senhor, valerá tanto para vocês quanto para o estrangeiro residente” (Números 15:15)

 

O tratamento para com o estrangeiro em Israel também tinha que ser o mesmo tratamento devido aos próprios israelitas:

 

“O estrangeiro residente que viver com vocês será tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 19:34)

 

Há inúmeras passagens na lei que prescrevem o amor, cuidado e caridade para com esses estrangeiros. Por exemplo, um israelita não poderia exigir juros de um estrangeiro, nem lucrar em cima dele:

 

“Se alguém do seu povo empobrecer e não puder sustentar-se, ajudem-no como se faz ao estrangeiro e ao residente temporário, para que possa continuar a viver entre vocês. Não cobrem dele juro algum, mas temam o seu Deus, para que o seu próximo continue a viver entre vocês. Vocês não poderão exigir dele juros nem emprestar-lhe mantimento visando lucro (Levítico 25:35-37)

 

Havia também uma lei que proibia a colheita em toda a extremidade da propriedade de um israelita livre, justamente com a finalidade de que os pobres e os estrangeiros fossem beneficiados com parte da colheita:

 

“Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até às extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha, nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 19:9-10)

 

Em qual outro lugar do mundo alguém era proibido de colher parte da sua própria colheita, para dá-la necessariamente a um estrangeiro? Em lugar nenhum! A lei de Moisés foi certamente um marco histórico na ajuda e amparo aos indivíduos de outras nações, ao invés de tratá-los com desdém ou explorá-los:

 

“Não se aproveitem do pobre e necessitado, seja ele um irmão israelita ou um estrangeiro que viva numa das suas cidades. Paguem-lhe o seu salário diariamente, antes do pôr-do-sol, pois ele é necessitado e depende disso. Se não, ele poderá clamar ao Senhor contra você, e você será culpado de pecado” (Deuteronômio 24:14-15)

 

“Pois o Senhor, o seu Deus, é o Deus dos deuses e o Soberano dos soberanos, o grande Deus, poderoso e temível, que não age com parcialidade nem aceita suborno. Ele defende a causa do órfão e da viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e roupa. Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito (Deuteronômio 10:17-19)

 

“Não oprimam a viúva e o órfão, nem o estrangeiro e o necessitado. Nem tramem maldades uns contra os outros” (Zacarias 7:10)

 

Não maltratem nem oprimam o estrangeiro, pois vocês foram estrangeiros no Egito” (Êxodo 22:21)

 

Maldito quem negar justiça ao estrangeiro, ao órfão ou à viúva” (Deuteronômio 27:19)

 

Não neguem justiça ao estrangeiro e ao órfão, nem tomem como penhor o manto de uma viúva” (Deuteronômio 24:17)

 

"’Eu virei a vocês trazendo juízo. Sem demora vou testemunhar contra os feiticeiros, contra os adúlteros, contra os que juram falsamente e contra aqueles que exploram os trabalhadores em seus salários, que oprimem os órfãos e as viúvas e privam os estrangeiros dos seus direitos, e não têm respeito por mim’, diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 3:5)

 

A conclusão óbvia que chegamos é que os estrangeiros em Israel eram extremamente favorecidos, em um nível muito maior do que qualquer israelita seria recebido em outra nação. Isso bate frontalmente com a mentira descarada de alguns neo-ateus militantes, de que a moralidade em Israel valia somente para os membros do mesmo grupo, com hostilidade aos estrangeiros. Richard Dawkins, por exemplo, chegou a afirmar isso em seu livro mais famoso, onde ataca o Cristianismo com falácias, distorções e espantalhos em um nível nunca antes visto pelo homem:

 

“Jesus foi um devoto da mesma moralidade entre membros do mesmo grupo – associada à hostilidade a forasteiros – que era tida como certa no Antigo Testamento. Jesus era um judeu leal. Foi Paulo quem inventou a idéia de levar o Deus judeu aos gentios. Hartung usa um tom mais duro do que eu me atreveria: ‘Jesus teria se revirado no túmulo se soubesse que Paulo estava levando seu plano para os porcos’”[23]

 

Mas se o estrangeiro era tratado com amabilidade sem igual, de que forma podemos entender os textos que prescrevem a escravidão de não-israelitas? A resposta é que eles não se aplicam ao estrangeiro comum, nem aos não-israelitas como um todo, mas somente para com os soldados de outras nações que entravam em guerra contra os israelitas, perdiam e eram levados cativos (presos). Isso não se difere em absolutamente nada do que ocorre, por exemplo, nas prisões norte-americanas, onde alguém que faz algum mal é preso, e na prisão é forçado a trabalhar, a fim de impulsionar o desenvolvimento da nação ao invés de ser um parasita social. O problema é que no mundo antigo não havia um sistema prisional tão avançado como temos hoje. Isso era totalmente inviável para os padrões da época. Por essa razão, esses prisioneiros eram enviados para trabalhar nas lavouras das famílias israelitas, onde faziam a mesma coisa que um prisioneiro americano faz: trabalhar.

 

É importante ressaltar que este tipo de “escravidão” também não tinha qualquer relação com a escravidão clássica, que estamos acostumados a ter em mente. Excetuando o benefício do limite de seis anos de trabalho e do ano do jubileu, o prisioneiro que trabalhava para alguém tinha exatamente os mesmos direitos legais que um servo israelita tinha (e listamos vários deles no tópico anterior, de modo que não é necessário repetirmos aqui). A lei de Moisés em momento nenhum faz separação entre os “tipos de escravos” ao tratar sobre a benevolência necessária para com eles, ou sobre os direitos legais dos mesmos. Ao contrário, as leis sobre escravidão eram leis gerais que deviam ser aplicadas a qualquer escravo em Israel, fosse ele um prisioneiro de guerra ou um israelita endividado.

 

Portanto, aqui não estamos tratando de pessoas andando por aí com correntes em torno do pescoço, sendo açoitadas em um tronco e trabalhando até a exaustão, sob uma escravidão baseada em preconceito racial. Ao contrário: esse tipo de “escravidão” não era mais do que um preso nos dias de hoje, com a diferença de que havia muito mais liberdade, direitos e dignidade para o servo estrangeiro em Israel do que para um preso nos dias atuais.

 

É necessário sempre ressaltar que este tipo de “escravidão”, longe de ser aquela coisa monstruosa que os neo-ateus pintam, era justamente uma medida de misericórdia para com os “escravizados”, uma vez que o mais comum em uma batalha antiga era a morte de todos os soldados inimigos. Eles só eram poupados e mantidos em vida quando se rendiam, se entregando para o exército adversário, admitindo e concordando com sua própria sujeição. Em outras palavras, eram aquelas próprias pessoas que decidiam servir os israelitas, ao invés de preferir a morte. O fato de que no mundo antigo este tipo de servidão era visto como uma saída de misericórdia ao invés de algo degradante pode ser visto no caso dos gibeonitas, que enganaram Josué e que de livre vontade se entregaram para servir os israelitas ao invés de preferirem a morte:

 

“...‘Agora vocês estão debaixo de maldição: Nunca deixarão de ser escravos, rachando lenha e carregando água para a casa do meu Deus’. Eles responderam a Josué: ‘Os seus servos ficaram sabendo como o Senhor, o seu Deus, ordenou que o seu servo Moisés lhes desse toda esta terra e que destruísse todos os seus habitantes da presença de vocês. Tivemos medo do que poderia acontecer conosco por causa de vocês. Por isso agimos assim. Estamos agora nas suas mãos. Faça conosco o que lhe parecer bom e justo’. Josué então os protegeu e não permitiu que os matassem (Josué 9:23-27)

 

Colocar algum povo inimigo derrotado em uma guerra em servidão era, como vemos, um modo de protegê-los, poupando-lhes a vida, e não era visto como um ato cruel ou imoral.

 

Mas ainda parece que há um problema. Por que, ao invés de colocar alguém em servidão no contexto da guerra, eles simplesmente não permitiam que continuassem vivendo em liberdade no mesmo lugar e da mesma forma que antes? Para responder a esta questão, é necessário entrar no contexto da guerra. Se o exército israelita (ou qualquer outro inserido numa guerra) os deixasse viver em total liberdade, seria mera questão de tempo para que eles se reerguessem e entrassem em guerra novamente, resultando em mais milhares de mortes e destruição de peso incalculável. Em meu livro “Deus é um Delírio?”, escrevi:

 

“Se uma nação inimiga tentasse invadir Israel e destruir todos os seres humanos naquela terra e Israel vencesse a batalha e os deixasse vivos e com liberdade, seria mera questão de tempo para que estes soldados inimigos se reunissem e atacassem de novo o país, resultando em mais mortes, mais vidas inocentes perdidas e até na possibilidade de genocídio. De fato, nenhuma guerra poderia ser vencida se os ganhadores deixassem o adversário vivo, forte e livre. A situação pioraria ainda mais se este inimigo se aliasse a outro inimigo, e eles não teriam a mesma misericórdia. Deixá-los todos vivos e com liberdade seria, portanto, um suicídio, e colocaria em risco a vida de toda a nação”[24]

 

A sujeição de um exército derrotado e potencialmente perigoso não é errado sob a perspectiva moral ou histórica, exceto se esta sujeição fosse violenta ou opressiva – o que, como vimos, não era o caso em Israel. Da mesma forma que hoje em dia não consideramos “errado” prender um criminoso na cadeia, mas somente se este criminoso for abusado ou agredido ali dentro, igualmente na época prender um soldado inimigo perigoso (de uma nação que costumava assassinar suas próprias crianças, é bom lembrar) não era em si mesmo imoral, exceto caso o mesmo fosse oprimido – e quando era, a lei obrigava soltá-lo (Êx.21:26-27).

 

 

1.4 Os escravos comprados de outros povos

 

O terceiro tipo de “escravidão” presente em Israel nos dias do Antigo Testamento refere-se aos escravos comprados dos povos ao redor (Lv.25:45-46). Isso, a uma primeira vista, pode parecer uma contradição com os tópicos que vimos até aqui, mas o mesmo se torna mais claro quando vemos o tipo de lei vigente nestas outras nações, de onde os escravos eram comprados. O que imperava nestes lugares era uma total e absoluta crueldade para com o escravo. Uma leitura rápida no famoso Código de Hamurabi (1700 a.C) é suficiente para perceber o quão aberrante e monstruoso ele era para com os escravos[25]. Bastava que o escravo dissesse “tu não és meu senhor”, que o seu senhor já tinha que cortar-lhe a orelha (lei 282)[26].

 

Enquanto a lei de Moisés punia com a morte quem matasse um escravo, o Código de Hamurabi punia apenas com o pagamento de “um terço de mina” (lei 116), um quantitativo relativamente pequeno. Enquanto a lei de Moisés proibia que alguém entregasse um escravo de volta a seu patrão e ainda permitia que o escravo vivesse livremente onde quisesse (Dt.23:15-16), o Código de Hamurabi punia com a morte quem não entregasse o escravo:

 

"15º Se alguém tomar um escravo homem ou mulher da corte para fora dos limites da cidade, e se tal escravo homem ou mulher, pertencer a um homem liberto, este alguém deve ser condenado à morte. 16º Se alguém receber em sua casa um escravo fugitivo da corte, homem ou mulher, e não trazê-lo à proclamação pública na casa do governante local ou de um homem livre, o mestre da casa deve condenado à morte"

 

Os outros códigos de leis antigas sobre os escravos não eram melhores. Na época de Jesus, estima-se que 85 a 90% da população no império romano consistiam de escravos[27]. O império grego não passava muito longe: ¾ eram escravos. Ainda mais lastimável é saber que a vida do escravo podia ser legalmente tirada pelo seu senhor, quando ele bem entendesse. Como o escravo era propriedade, era comum entregá-los a um hóspede para ter relações sexuais com ele. Simplesmente não existiam leis em benefícios dos escravos. Ivan Saraiva afirmou:

 

“Entre os romanos, se um chefe de família fosse assassinado, todos os seus escravos domésticos eram levados à morte sem inquérito legal. Quatrocentos escravos pertencentes a um cidadão romano foram levados à morte porque tiveram o azar de estarem no mesmo teto do seu senhor quando este foi assassinado”[28]

 

O Dr. Walter Kaiser resume isso tudo sob as palavras de que, “no mundo antigo, um mestre poderia tratar seu escravo como quisesse”[29]. Provavelmente seja isso o que explique a famosa revolta dos escravos romanos sob a liderança de Espártaco (73-71 a.C), fato este que nunca ocorreu entre os hebreus, já que os servos em Israel eram muito bem tratados. Paul Copan, após comparar a lei dos hebreus com as leis dos outros povos da época, concluiu que “o tratamento de servos (escravos) em Israel não tem paralelo no antigo Oriente Médio”[30].

 

É por isso que Deus permitia que os israelitas comprassem escravos de outras nações: para salvar estes escravos dos maus-tratos e desumanidade que eles sofriam nos outros lugares. Se a escravidão ainda não podia ser abolida, dada a dureza do coração dos homens (Mt.19:8), ela pelo menos foi humanizada em Israel. Muhammad Dandamayev escreveu que “temos na Bíblia os primeiros apelos da literatura mundial para tratar os escravos como seres humanos para seu próprio bem, e não apenas para o interesse dos seus donos”[31].

 

Desta forma, o escravo que em outro lugar trabalharia cruelmente sob péssimas condições até a morte, em Israel seria tratado como um servo com direitos civis e diversos benefícios, que ele nunca teria se permanecesse em sua terra de origem. Como bem ressaltou Keith Thompson, “isso serviu como uma forma de resgatar aqueles que estavam presos no tráfico de escravos e que de outra forma acabariam em uma terra selvagem sendo mutilados”[32].

 

 

1.5 Quando uma nação inteira estava em “servidão”

 

Era costume de todas as nações que venciam suas guerras que o povo vencido fosse levado cativo – mantido vivo, mas com liberdade levemente restringida. Eles não tinham todos os mesmos direitos que um cidadão israelita comum, mas seus serviços prestados estavam absolutamente longe de ser equiparados à escravidão clássica. O próprio povo de Israel foi levado cativo para a Assíria (em 721 a.C) e para a Babilônia (em 587 a.C) quando foi derrotado em suas guerras, mas não há nada que indique que eles eram maltratados nestes lugares. Muito pelo contrário: muitos dos israelitas deportados (ou das gerações que se seguiram) alcançaram alta posição e status social no Estado, o que seria impossível se eles fossem tratados como “escravos”.

 

Daniel, por exemplo, se tornou o terceiro maior de toda a Babilônia e governador de 127 províncias (Dn.5:29), e seus três amigos (Sadraque, Mesaque e Abede-Nego) eram os mais importantes conselheiros do rei e ocupavam “as melhores posições na província da Babilônia” (Dn.3:30). Neemias era copeiro e amigo do rei (Ne.1:11), para quem pôde abrir seu coração sobre seus sentimentos em relação ao seu povo judeu e teve do rei a autorização para ir a Jerusalém e agir conforme bem entendesse (Ne.2:1-8). Semelhantemente, Mardoqueu “era influente no palácio; sua fama espalhou-se pelas províncias, e ele se tornava cada vez mais poderoso” (Et.9:4), sendo ele “o segundo na hierarquia, depois do rei Xerxes” (Et.10:3). E Ester, também judia, era “somente” a rainha (Et.7:1).

 

Os judeus, mesmo sob a condição de servos do império babilônico, medo-persa, grego ou romano, sempre tiveram seus próprios governadores, e basta uma leitura simples nos evangelhos para perceber que os judeus da época, mesmo sob a autoridade de Roma, viviam em plena liberdade de ir e vir, sem serem “escravos” de ninguém (Jo.8:33).

 

Portanto, é simplesmente incorreto inferir que estes povos conquistados, por estarem sob a condição legal de “servos” de um império dominante, eram por conseguinte “escravos” no sentido clássico da palavra. Essa “escravidão”, se é que pode ser chamada assim, se resumia a obedecer as leis civis do povo dominante e a pagar-lhe tributo (imposto). Neste sentido, os cidadãos do Brasil Colônia eram “escravos” de Portugal (para quem tinham que pagar “o quinto”), e até hoje no Brasil trabalhamos cinco meses apenas para pagar os impostos[33], e mesmo assim não nos consideramos “escravos” do Estado.

 

 

1.6 Considerações Adicionais

 

Quando discorremos sobre a escravidão no Antigo Testamento, é sempre necessário entendermos dois contextos. Primeiro, o contexto do próprio texto bíblico em si, analisando cuidadosamente os versos anteriores e posteriores, o que a Bíblia como um todo diz sobre o assunto e, quando necessário, o que os termos significam nos originais. Isso porque, como vimos, a maioria das vezes em que um neo-ateu arremete contra o Cristianismo usando a questão da escravidão é tirando textos do contexto, aplicando uma escravidão clássica monstruosa para dentro de textos bíblicos que nem de longe estão tratando disso.

 

O segundo contexto que sempre temos que ter em mente é o contexto histórico. Deus não estava escrevendo aquelas páginas da lei para os brasileiros do século XXI, mas para os judeus dos tempos de Moisés (por volta de 1500 a.C). Há certas coisas que claramente não se aplicam a nós em nossos dias. Uma das leis mosaicas dizia que o homem devia enterrar suas fezes (Dt.23:13). Naquela época, isso fazia sentido para evitar a contaminação. Mas hoje temos uma moderna rede de esgotos e aparelhos sanitários que fazem isso de forma muito mais eficiente.

 

A lei de Moisés, como um todo, serviu para uma época específica, a qual era a “sombra dos bens vindouros” (Hb.10:1). Uma vez que estes bens vindouros já chegaram (na nova aliança), já não precisamos mais seguir a sombra (lei do Antigo Testamento), pois já temos a realidade, que é Jesus. É por isso que os apóstolos no Novo Testamento sempre fizeram questão de ressaltar que a antiga aliança (preceitos do Antigo Testamento) já havia dado lugar a uma “nova aliança”, de modo que nós em nossos dias já não estamos debaixo da antiga lei.

 

Paulo disse que “antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor” (Gl.3:23-25). Ele também disse que a justiça de Deus é “independente da lei” (Rm.3:21), que “se os que vivem pela lei são herdeiros, a fé não tem valor, e a promessa é inútil” (Rm.4:14), que nós “não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Rm.6:14), que nós “morremos para a lei” (Rm.7:4), que “o fim da lei é Cristo, para a justificação de todo o que crê” (Rm.10:4), que “fomos libertados da lei, para que sirvamos conforme o novo modo do Espírito, e não segundo a velha forma da lei escrita” (Rm.7:6), que “eu mesmo não estou debaixo da lei” (1Co.9:20), que “por meio da lei eu morri para a lei, a fim de viver para Deus” (Gl.2:19), que “os que são pela prática da lei estão debaixo de maldição” (Gl.3:10), que “se vocês são guiados pelo Espírito, não estão debaixo da lei” (Gl.5:18) e que Cristo “anulou em seu corpo a lei dos mandamentos expressa em ordenanças” (Ef.2:15).

 

Analisarmos a questão da escravidão sob uma perspectiva moral é fácil: ela é errada, e ponto final. Mas analisarmos esta mesma questão sob uma perspectiva histórico-cultural é algo muito mais complexo. A escravidão era uma triste realidade em todos os povos, com a diferença de que nos outros povos o escravo não era mais do que uma mercadoria da qual o dono podia agir conforme bem entendesse, torturando o escravo, o fazendo trabalhar até a exaustão sem nenhum descanso e até mesmo o matando, sem receber qualquer punição por isso.

 

Em Israel, por contraste, Deus humanizou a escravidão, que ainda era a única forma de sobrevivência possível para certas pessoas naquele contexto social e histórico. A maioria esmagadora dos servos em Israel acabaria morrendo na pobreza e não teria onde viver ou morar se não fosse pelo sistema de trabalho que envolvia a submissão a um patrão que tinha sempre a obrigação de suprir todas as necessidades de seus servos, que comiam da mesma comida dele, que eram tratados como um trabalhador pago, que tinham direitos civis e dias de descanso, e que não sofriam qualquer preconceito por questão de raça, etnia ou cor de pele.

 

Deus não “acabou” com a escravidão em Israel, porque isso era impossível e inviável para as circunstâncias da época. Mas ele pelo menos a humanizou, dando a dignidade, honra e respeito que todo ser humano merece, uma vez que na concepção judaico-cristã todos são igualmente criados à imagem e semelhança de Deus (Gn.1:27). Hoje em dia, nós não temos ainda condições de acabar com o problema da extrema-pobreza, dos sem-teto e dos mendigos, mas podemos nos esforçar em tratá-los da melhor forma possível, criando abrigos para desabrigados ou dando esmolas. Este não é o ideal, mas infelizmente é a nossa realidade. Não é o ideal que está em jogo, mas a realidade, e o que pode ser feito em meio a ela.

 

 

CAP. 2 – A ESCRAVIDÃO NO NOVO TESTAMENTO

 

1.1 Introdução

 

No capítulo anterior, vimos que a “escravidão” em Israel não tinha qualquer relação com o conceito popular de escravidão (associado à escravidão clássica) e era muito menos cruel do que, por exemplo, se deixasse os pobres morrerem de fome, como deixamos hoje, em pleno século XXI. Comparativamente, é indiscutível que o sistema de trabalho “escravo” em Israel era muito menos ruim do que, por exemplo, alguém mendigando nos dias de hoje. O mendigo não tem casa pra morar nem teto para se abrigar, mas o servo em Israel tinha tudo isso. O mendigo não tem o que comer, exceto se conseguir algumas moedinhas ao longo do dia, enquanto o servo em Israel comia do bom e do melhor da casa do patrão a quem servia.

 

O mendigo não tem expectativa na vida, pois a chance de voltar a viver dignamente é virtualmente zero, enquanto o servo em Israel trabalhava seis anos, quitava todas as suas dívidas e tinha sua propriedade de volta. O mendigo vive exposto à chuva e ao frio, mas o servo em Israel encontrava abrigo e amparo. O mendigo está exposto à violência de vândalos na rua, mas o servo em Israel era bem tratado. O mendigo não tem para onde fugir, mas se o servo em Israel fugisse para qualquer lugar que fosse, teria que ser acolhido.

 

É absolutamente indiscutível que ser um servo em Israel era infinitamente melhor do que ser um mendigo nos dias atuais (ou um mendigo nos tempos antigos). O sistema de trabalho forçado em Israel servia justamente para que aquelas pessoas que de outra forma passariam a vida toda mendigando pudessem trabalhar, gerar desenvolvimento à nação e viver dignamente. Se isso era de alguma forma cruel ou imoral da parte dos israelitas, o que fazemos hoje é indiscutivelmente pior e mais grave. Isso nenhum neo-ateu considera, por razões óbvias. O que vale é criticar a Bíblia.

 

Mas ao chegarmos ao Novo Testamento, não estamos lidando mais com a escravidão entre os hebreus, que vimos no capítulo anterior. Na época em que o Novo Testamento foi escrito (no século I d.C), os judeus já haviam deixado a condição de “senhores” para a condição de “servos”, passando a estar sob a autoridade e jurisdição do império romano, que era quem realmente mandava. Neste contexto, a escravidão que os evangelistas e apóstolos abordaram não era mais o tipo de escravidão judaica, que já estava definhando, mas a escravidão romana. E o problema é que os romanos, diferentemente dos hebreus, eram extremamente severos e cruéis com seus escravos, os quais não tinham qualquer direito, e eram constantemente oprimidos.

 

É neste novo contexto que surge Jesus e Paulo. Os neo-ateus acusam ambos por não terem levantado voz contra a cruel escravidão vigente na época. Sam Harris, por exemplo, declarou que “em nenhum ponto do Novo Testamento Jesus faz objeção à prática da escravidão”[34]. Isso é falso. Veremos o que Jesus e Paulo nos tem a dizer.

 

 

1.2 Jesus e a Escravidão

 

Uma das afirmações mais memoráveis de Jesus enquanto esteve entre nós foi, certamente, esta aqui:

 

“Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas” (Mateus 7:12)

 

“Fazer aos outros o que você quer que os outros façam a você” pode ser considerado o cerne moral do evangelho cristão. É evidente que ninguém quer ser escravizado – muito menos no tipo de escravidão cruel impregnado pelos romanos da época de Jesus. Se isso é verdade, então a consequencia lógica e irredutível da aplicação deste princípio bíblico é o fim da escravidão: da mesma forma que nós não queremos ser escravos de ninguém, também não vamos escravizar ninguém. Este era, aliás, o principal argumento bíblico dos abolicionistas cristãos do século XIX, que é fortemente estabelecido por Jesus.

 

Há pelo menos dois textos onde Jesus condena mais expressamente a escravidão. O primeiro se encontra em Lucas 4:18-19, que diz:

 

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:18-19)

 

Aqui vemos claramente que Jesus era a favor da “liberdade aos cativos” e queria que os oprimidos fossem “postos em liberdade”. Embora este texto se entenda também de forma espiritual (i.e, liberdade das cadeias do pecado), é inevitável que a aplicação espiritual tenha um fundo de verdade natural, a qual é aqui concebida. Em outras palavras, pôr em liberdade os oprimidos espiritualmente só é algo positivo porque em sentido natural também o é. De outra forma, a aplicação espiritual perderia o sentido. O texto, portanto, claramente coloca Jesus contra o sistema de opressão e cativeiro em que aquelas pessoas estavam inseridas.

 

O segundo texto em que Jesus condena a escravidão está em Marcos 10:42-45:

 

“Mas Jesus chamou-os para junto de si, e disse: Sabeis que os que são reconhecidos como governadores dos gentios, dominam sobre os seus vassalos, e sobre eles os seus grandes exercem autoridade. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos’ (Marcos 10:42-45)

 

As autoridades das nações seculares da época dominavam sobre seus vassalos, mas entre os cristãos não seria assim. Este sistema, em uma comunidade governada por cristãos, teria que ser invertido: ao invés dos governantes e pessoas que exercem autoridade escravizarem as demais que estão abaixo delas em poder, são elas que deveriam se humilhar e se tornar “servas” de todos! Esta não é apenas uma enfática negação ao sistema escravocrata, mas muito mais do que isso: é a inversão radical do sistema. Jesus é visto como o modelo. Ele, como o Deus encarnado, estava na maior posição de autoridade possível, mas ao invés de fazer escravos, ele próprio se tornou servo de todos os outros, e morreu por eles.

 

Da mesma forma, as autoridades e poderosos entre os cristãos são instigados a seguir o exemplo e, ao invés de fazer escravos, se humilhar e servir a todos em amor, como Jesus fez. Jesus precedeu Lincoln e Wilberforce em dezoito séculos!  O Cristianismo não é apenas a religião da negação à escravidão, mas também da inversão dos valores corrompidos no mundo antigo: para Jesus, os “primeiros” serão os “últimos”, e os “últimos” serão os “primeiros” (Mt.20:16). Jesus sempre fez questão de colocar os primeiros por último, e os últimos por primeiro; ele abalou o poder dos poderosos, e se colocou a favor dos pobres e oprimidos. Ele personificou perfeitamente a oração de Maria:

 

“Ele realizou poderosos feitos com seu braço; dispersou os que são soberbos no mais íntimo do coração. Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. Encheu de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos” (Lucas 1:51-53)

 

Jesus também nunca deixou de curar os servos ou pobres – ao contrário, parece que ele tinha uma missão específica voltada ao amparo deles. Ele curou o servo do centurião, definindo-o como o homem de maior fé em Israel (Mt.8:5-10). Na parábola do bom samaritano, ele rejeitou o levita e o sacerdote (altamente considerados pelos judeus) para conceder a um simples samaritano – o povo mais rejeitado e execrado por eles – a honra de ser o único bem representado na parábola, que ajudou o próximo (Lc.10:30-37). Ele elogiou a oferta de uma moedinha da viúva pobre, e rejeitou as grandes ofertas dos ricos (Lc.21:4). Ele “sentia compaixão das multidões, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (Mt.9:36), e multiplicou-lhes os pães e peixes (Mc.6:41-44). Ele também pedia que se vendesse tudo e desse aos pobres (Lc.18:22-23), e tinha um fundo de onde tirava recursos para ajudá-los (Jo.13:29).

 

Uma das principais tônicas da missão de Jesus era justamente o fato de ele pregar as boas novas aos pobres, ao invés de renegá-los e pregar somente às autoridades e aos ricos, como era de costume. Este fato incomum foi registrado nas seguintes palavras:

 

“Ide e anunciai as coisas que ouvis e vedes: Os cegos vêm, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho (Mateus 11:3-5)

 

Até quando falava de salvação, Jesus se colocava a favor dos “pequeninos” e menos favorecidos, quando disse que “o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram” (Mt.25:40). Junto a isso, Jesus costumava ser rigoroso para com os altamente favorecidos naquela sociedade. Os fariseus, que eram os mais respeitados pelo povo, eram repetidamente criticados pela sua hipocrisia (Mt.23:29), e chamados de “serpentes” (Mt.23:33), “raça de víboras” (Mt.23:33) e “sepulcros caiados” (Mt.23:27). Sobre eles recaía o “sangue de todo justo derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, até o de Zacarias” (Mt.23:35).

 

Mais do que isso, ele próprio deu o exemplo e viveu de forma simples e humilde enquanto esteve entre nós. Ele nasceu no lugar mais insignificante e desprezível que aos olhos humanos alguém poderia nascer: uma manjedoura (Lc.2:16). Cresceu como um mero carpinteiro (Mc.6:3), uma das profissões mais baixas na Palestina. Viveu “pobre, por amor a nós” (2Co.8:9). Não tinha nem onde reclinar a cabeça (Lc.9:58). Não veio para ser servido, mas “para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc.10:45). Lavou os pés dos seus próprios discípulos, em um sinal de submissão e baixeza naquela cultura, e nos admoestou a fazermos o mesmo uns com os outros (Jo.13:4-15). Inverteu o paradigma de servo/senhor. Foi zombado, perseguido, açoitado, torturado, pregado numa cruz, morto. “Humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp.2:8). Foi, em todas as coisas, um perfeito exemplo de humildade, servidão e submissão, em um contraste gritante com a pregação neo-ateísta que quer colocá-lo do lado do sistema opressor da época e contra os menos favorecidos.

 

 

1.3 Os Apóstolos e a Escravidão

 

Como meros transmissores da mensagem de Jesus, é óbvio que os apóstolos também rejeitaram moralmente a escravidão vigente no império romano. A escravidão era repetidamente retratada como algo pejorativo do qual temos que buscar a liberdade, e por essa razão servia bem para o propósito de justificar a necessidade da liberdade da escravidão ao pecado, como vemos em textos como Romanos 6:6-22. Paulo diz que “nós não recebemos um espírito que nos escravize para novamente temermos, mas um Espírito que nos torna filhos por adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai’” (Rm.8:15). Assim, o Espírito Santo é visto como um agente de libertação.

 

Cristo também é visto como um agente de liberdade da escravidão. Aos gálatas, Paulo condena severamente aqueles “falsos irmãos que se infiltraram em nosso meio para espionar a liberdade que temos em Cristo Jesus e nos reduzir à escravidão” (Gl.2:4). Ele diz que “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl.5:1), a fim de que “permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão” (Gl.5:1). Alguns gálatas, antes de conhecerem a Deus, “eram escravos daqueles que, por natureza, não são deuses” (Gl.4:8), ou seja, eram escravos de homens. Quando passaram a crer, Jesus os libertou. Mas agora estavam “voltando novamente àqueles mesmos princípios elementares e sem poder, querendo ser escravizados por eles outra vez” (Gl.4:9) – o que, para Paulo, era absurdo.

 

Aos colossenses, o apóstolo também insistiu para terem “cuidado, para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo” (Cl.2:8). Ele ensina que chegará o dia em que “a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm.8:21). Em todo o tempo, vemos a escravidão sendo aplicada em sentido espiritual como sendo algo negativo, do qual os crentes têm que buscar liberdade através de Cristo e do Espírito Santo. Os apóstolos não viam a escravidão como um olhar impassivo!

 

Paulo diz que “aquele que, sendo escravo, foi chamado pelo Senhor, é liberto e pertence ao Senhor; semelhantemente, aquele que era livre quando foi chamado, é escravo de Cristo” (1Co.7:22). “Liberdade” e “escravidão” atuam juntas, mas em sentidos distintos. Quem é escravo (em sentido natural) é liberto (em sentido espiritual), e quem é livre (em sentido natural) é escravo (em sentido espiritual). Nota-se aqui o tom de igualdade espiritual entre o escravo e o livre: ambos são um em Cristo, fazem parte do mesmo Corpo místico (1Co.12:27), o que é tornado ainda mais claro nas seguintes passagens:

 

“Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito” (1ª Coríntios 12:13)

 

“Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus (Gálatas 3:28)

 

“Nessa nova vida já não há diferença entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro e cita, escravo e livre, mas Cristo é tudo e está em todos” (Colossenses 3:11)

 

Essa unidade espiritual e igualdade entre o livre e o escravo é sem igual no mundo antigo. Aristóteles dizia que “o escravo é um objeto de propriedade animado”, só um pouco mais valioso do que os “objetos de propriedade inanimados”[35], como o timão de um navio. Basicamente, excetuando o fato de um escravo ter uma psiquê, ele era visto como equivalente aos objetos utilizados para o benefício do homem. O filósofo grego definia “escravo” da seguinte maneira:

 

“Um ser que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, mesmo sendo homem, este é, por natureza, um escravo. Pertence a um outro que, mesmo sendo homem, é objeto de propriedade e instrumento ordenado à ação e separado”[36]

 

Ou então veja o valor dado ao escravo nesta outra citação de Aristóteles:

 

“Escravos e homens livres são tão diferentes entre si quanto a alma é do corpo, ou o homem é dos animais. Se seu trabalho é o uso do corpo, e isso é o melhor que pode vir deles, são escravos por natureza”[37]

 

Dinesh D’Souza assim se refere ao valor da vida humana em geral na Grécia antiga e em Roma:

 

“Na era pré-cristã de Grécia e Roma, na era Clássica antiga, a vida humana não era nem um pouco dignificada. Os espartanos pegavam seu sexto filho e o deixavam nas colinas, para achá-lo morto na manhã seguinte. No inverno. E esse nem era um grande escândalo. Os grandes filósofos da Grécia antiga, Platão, Aristóteles, Sócrates, sabiam disso mas não davam importância. Para eles não era relevante. Por quê? Porque a ideia de que a vida humana é especial, preciosa ou ‘sagrada’ veio com Jesus, com o Cristianismo”[38]

 

Os únicos que chegavam mais próximo do conceito cristão sobre a igualdade entre o homem livre e o escravo eram os estóicos, mas mesmo assim eles não faziam a mínima questão de levá-lo à prática na vida política, mesmo tendo poder e possibilidade para tal. O Cristianismo foi, verdadeiramente, um marco histórico, e isso não poderia ter acontecido sem o fundamento da igualdade e fraternidade entre todos os seres humanos, tão respaldado por Paulo. Por isso não é sem razão que P. T. O'Brien diz que “a exortação de Paulo era ultrajante para os seus dias”[39].

 

O apóstolo levava a sério o conceito cristão de igualdade entre livres e escravos, de tal forma que, mesmo sendo livre, se dispunha a se fazer “escravo” de todos, para o bem deles:

 

“Porque, embora seja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número possível de pessoas” (1ª Coríntios 9:19)

 

“Mas não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor, e a nós como escravos de vocês, por causa de Jesus” (2ª Coríntios 4:5)

 

Há textos onde Paulo combate mais diretamente a escravidão. Em 1ª Coríntios 7:21-22, ele diz aos escravos:

 

“Foi você chamado sendo escravo? Não se incomode com isso. Mas, se você puder conseguir a liberdade, consiga-a. Vocês foram comprados por alto preço; não se tornem escravos de homens (1ª Coríntios 7:21-22)

 

Aqui fica claro o conceito tão negativo que Paulo tinha sobre se tornar escravo de homens – algo que ele pregava em contrário. Em 2ª Coríntios 11:20, o apóstolo novamente se coloca contra a exploração e escravidão, repreendendo aqueles que permitam a escravidão no meio cristão:

 

“Vocês, por serem tão sábios, suportam de boa vontade os insensatos! De fato, vocês suportam até quem os escraviza ou os explora, ou quem se exalta ou lhes fere a face!” (2ª Coríntios 11:19-20)

 

A Bíblia é tão revolucionária na questão da escravidão que é o único livro antigo que possui uma carta inteira dedicada a interceder por um escravo. Paulo, um homem livre, poderia muito bem não se importar com os escravos caso ele não quisesse (algo que soaria tão natural para aquele tempo), mas fez questão de escrever uma carta inteira a Filemom, cujo único objetivo e propósito era interceder pela vida de um escravo fugitivo, chamado Onésimo. Este escravo corria sério risco de vida, pois a lei romana previa pena de morte para um escravo que incorresse em tamanho ato de desobediência. Bastaria a Filemom exigir o cumprimento da lei, e Onésimo estaria morto. Mas Paulo interveio entre as partes e rogou pela vida do escravo:

 

“Mesmo tendo em Cristo plena liberdade para mandar que você cumpra o seu dever, prefiro fazer um apelo com base no amor. Eu, Paulo, já velho, e agora também prisioneiro de Cristo Jesus, apelo em favor de meu filho Onésimo, que gerei enquanto estava preso. Ele antes lhe era inútil, mas agora é útil, tanto para você quanto para mim. Mando-o de volta a você, como se fosse o meu próprio coração. Gostaria de mantê-lo comigo para que me ajudasse em seu lugar enquanto estou preso por causa do evangelho. Mas não quis fazer nada sem a sua permissão, para que qualquer favor que você fizer seja espontâneo, e não forçado. Talvez ele tenha sido separado de você por algum tempo, para que você o tivesse de volta para sempre, não mais como escravo, mas, acima de escravo, como irmão amado. Para mim ele é um irmão muito amado, e ainda mais para você, tanto como pessoa quanto como cristão. Assim, se você me considera companheiro na fé, receba-o como se estivesse recebendo a mim. Se ele o prejudicou em algo ou lhe deve alguma coisa, ponha na minha conta. Eu, Paulo, escrevo de próprio punho: Eu pagarei – para não dizer que você me deve a sua própria pessoa” (Filemom 1:8-19)

 

Escrever uma carta inteira intercedendo por alguém que era tão pouco estimado naquela época é algo sem paralelo na história antiga. E Paulo não apenas intercedeu pela vida de Filemom, como foi além e se prontificou a pagar do seu próprio bolso por todas as perdas financeiras causadas pela fuga do escravo! Em meu livro “Deus é um Delírio?”, eu comentei este evento nestas palavras:

 

“Pense nisso: quem, em uma época onde o escravo não era tratado nem como gente, iria escrever uma carta inteira rogando pela vida de um escravo, iria correr o risco de ser condenado como cúmplice do crime por ter ajudado o escravo que de alguma forma o encontrou e foi ajudado por ele, e ainda por cima iria arcar do seu próprio bolso com todos os prejuízos financeiros causados pelo escravo pelo tempo em que estava foragido? Quem iria perder seu tempo, arriscar sua vida e perder seu dinheiro por alguém, a não ser que este alguém (o escravo) fosse valorizado por ele?”[40]

 

É de se destacar ainda que o tráfico de escravos estava incluído na lista de pecados mortais citados por Paulo em 1ª Timóteo 1:9-10:

 

“Também sabemos que ela não é feita para os justos, mas para os transgressores e insubordinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreverentes, para os que matam pai e mãe, para os homicidas, para os que praticam imoralidade sexual e os homossexuais, para os sequestradores, para os mentirosos e os que juram falsamente; e para todo aquele que se opõe à sã doutrina” (1ª Timóteo 1:9-10)

 

A palavra aqui traduzida por “sequestradores” é no grego ανδραποδιστης (transliterado como andrapodistes), que, de acordo com a Concordância de Strong, significa:

 

405 ανδραποδιστης andrapodistes

de um derivado de um composto de 435 e 4228; n m

1) traficante de escravos, seqüestrador, ladrão.

1a) de alguém que injustamente reduz homens livres à escravidão.

1b) de alguém que rouba os escravos de outros e vende-os.

 

O léxico da mesma concordância define como sendo “um escravizador”[41], ao passo em que William Arndt e F.W. Gingrich, em seu léxico do Novo Testamento, definem como sendo um “comerciante de escravos”[42].

 

Vale lembrar também que uma das razões para a condenação da “Babilônia” no Apocalipse era precisamente o fato de ela vender “corpos e almas de seres humanos”:

 

“Amedrontados por causa do tormento dela, ficarão de longe e gritarão: ‘Ai! A grande cidade! Babilônia, cidade poderosa! Em apenas uma hora chegou a sua condenação!’ ‘Os negociantes da terra chorarão e se lamentarão por causa dela, porque ninguém mais compra a sua mercadoria: artigos como ouro, prata, pedras preciosas e pérolas; linho fino, púrpura, seda e tecido vermelho; todo tipo de madeira de cedro e peças de marfim, madeira preciosa, bronze, ferro e mármore; canela e outras especiarias, incenso, mirra e perfumes, vinho e azeite de oliva; farinha fina e trigo, bois e ovelhas, cavalos e carruagens, e corpos e almas de seres humanos (Apocalipse 18:10-13)

 

Como vemos, a Babilônia é julgada e condenada em função do fato de ter tratado seres humanos como carga, praticando o tráfico de escravos e lucrando com isso.

 

Por fim, cabe ressaltar que a própria moral cristã expressa por meio de princípios eternos refutava a escravidão, mesmo quando isso não era feito de forma mais direta ou enfática. Herb Vander Lugt discorreu muito bem sobre isso quando disse:

 

“Jesus e os apóstolos não se lançaram a uma cruzada anti-escravidão, porque isso teria sido inútil e um empecilho à sua missão principal. A prioridade de Jesus foi a oferta de salvação. Para os apóstolos, foi a proclamação do evangelho. Mas ambos, Jesus e os apóstolos, minaram as bases da escravidão, tornando claro que Deus ama igualmente ricos e pobres, livres e escravos, homens e mulheres. Os apóstolos também acolheram na Igreja e deram status igual a todos os que creram, independentemente de raça, sexo, nacionalidade ou posição social”[43]

 

Assim, Jesus e os apóstolos condenaram a escravidão mesmo quando não trataram deste assunto mais especificamente, pois a própria mensagem central do evangelho destrói as bases nas quais a escravidão histórica está estabelecida, ou seja, o racismo, o trato desigual e a suposta inferioridade de certos seres humanos.

 

 

1.4 Textos sobre boa conduta dos escravos

 

Alguns neo-ateus tiram do contexto certos textos que não tratam da natureza (moral ou imoral) da escravidão em si, mas sim sobre a conduta que um escravo deveria ter em meio a esta condição, para tentar passar a noção deturpada de que os apóstolos eram favoráveis à escravidão. Acompanhe os seguintes textos que tem todos a mesma mensagem central:

 

“Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor, com sinceridade de coração, como a Cristo. Obedeçam-lhes, não apenas para agradá-los quando eles os observam, mas como escravos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus. Sirvam aos seus senhores de boa vontade, como ao Senhor, e não aos homens, porque vocês sabem que o Senhor recompensará a cada um pelo bem que praticar, seja escravo, seja livre. Vocês, senhores, tratem seus escravos da mesma forma. Não os ameacem, uma vez que vocês sabem que o Senhor deles e de vocês está nos céus, e ele não faz diferença entre as pessoas” (Efésios 6:5-9)

 

“Escravos, obedeçam em tudo a seus senhores terrenos, não somente para agradá-los quando eles estão observando, mas com sinceridade de coração, pelo fato de vocês temerem o Senhor” (Colossenses 3:22)

 

“Senhores, dêem aos seus escravos o que é justo e direito, sabendo que vocês também têm um Senhor nos céus” (Colossenses 4:1)

 

“Todos os que estão sob o jugo da escravidão devem considerar seus senhores como dignos de todo o respeito, para que o nome de Deus e o nosso ensino não sejam blasfemados” (1ª Timóteo 6:1)

 

“Ensine os escravos a se submeterem em tudo a seus senhores, a procurarem agradá-los, a não serem respondões e a não roubá-los, mas a mostrarem que são inteiramente dignos de confiança, para que assim tornem atraente, em tudo, o ensino de Deus, nosso Salvador” (Tito 2:9-10)

 

“Escravos, sujeitem-se a seus senhores com todo o respeito, não apenas aos bons e amáveis, mas também aos maus” (1ª Pedro 2:18)

 

Após citar algumas dessas passagens, Sam Harris conclui:

 

“Deve ficar bem claro a partir dessas passagens que, embora os abolicionistas do século XIX estivessem moralmente certos, estavam do lado perdedor da discussão teológica”[44]

 

Ainda que Harris tente demonstrar habilidades teológicas, ele falha em concluir a partir destes textos que Paulo era a favor da escravidão. Como Thompson corretamente observou:

 

“A Igreja nasceu em um mundo social secular já existente. Então, quando Paulo exorta os escravos dentro do sistema romano a se comportar, ele não está promovendo ou defendendo a situação em que estavam, mas estava promovendo uma boa conduta enquanto esta situação existia (...) Os incrédulos simplesmente assumem que Paulo apoiou a escravidão, quando na verdade ele estava incentivando a boa conduta no contexto de um sistema social já existente”[45]

 

Os conselhos que os apóstolos davam aos escravos não tinham qualquer relação com uma suposta apologia à escravidão, mas eram simplesmente sugestões sobre como eles poderiam lidar em meio àquela realidade, ou seja, como poderiam viver de uma forma cristã e moral, mesmo em meio às adversidades que enfrentavam a cada dia. Como os apóstolos não tinham absolutamente nenhum poder político para poder mudar algo na prática em relação ao sistema escravocrata, pelo menos podiam apelar à boa conduta de ambas as partes envolvidas naquele sistema vigente.

 

Fazendo uma analogia, seria como se eu dissesse que “se beber, não dirija”. Isso não significa que eu seja a favor da bebedeira, mas sim que eu sou a favor de não dirigir se já bebeu. Semelhantemente, quando os apóstolos insistiam para que os escravos honrassem seus senhores, eles não estavam sendo a favor da escravidão em si, mas, como ela já existia e não tinha como mudar isso, então que pelo menos eles tratassem bem seus senhores, pois desta forma estariam cumprindo a moral cristã, agradando a Deus e evitando punições do próprio senhor a quem serve.

 

Dizer para os senhores de escravos libertarem seus escravos seria inútil dada as circunstâncias do mundo na época. Os escravos libertos simplesmente não teriam lugar nenhum para onde ir. Acabariam abandonados na rua, onde ficariam mendigando ou morrendo de fome. Isso seria muito pior para o próprio escravo. Eles não teriam propriedade para morar, nem condições básicas de sobrevivência. Todo o mundo da época funcionava na base do sistema de senhores e escravos. Por isso, a recomendação era para que os senhores tratassem os escravos da melhor forma possível, não como um escravo, mas como um irmão em Cristo; não como um inferior, mas como um igual; não como a cruel escravidão romana, mas aos moldes dos bons tratos da lei mosaica; não através de castigos físicos, mas praticando o amor.

 

Da mesma forma, pregar uma “revolução” aos escravos seria uma total insanidade e irresponsabilidade da parte de Paulo, se ele fizesse isso. Menos de um século antes das cartas de Paulo, os escravos envolvidos na revolta de Espártaco (73-71 a.C) foram massacrados pelas forças romanas, muito mais bem treinadas e preparadas. Pipe Desertor fez uma excelente sátira de como Paulo deveria ter feito caso quisesse levar a ideia neo-ateísta em diante. Ele teria dito:

 

“Rebelem-se! Não os sirvam! Não se sujeitem! Não esperem ser livres pela lei romana. Libertem-se por si mesmos! Se forem obrigados a servir, sirvam com amargura e ódio aos seus senhores! Os odeiem! Não os honrem de maneira nenhuma!”[46]

 

O que ocorreria caso os escravos seguissem tal conselho? Pipe conclui que seriam todos executados ou presos. É por isso que Paulo, mesmo sendo moralmente contra a escravidão e crendo na igualdade espiritual de todos os homens, tinha que pensar e agir com sabedoria em um contexto que lhe era totalmente desfavorável, e onde cada palavra errada poderia redundar em acontecimentos trágicos – como um banho de sangue que resultaria de uma revolta de escravos rebelados que não teriam a mínima chance contra as poderosas legiões romanas. E Paulo seria o responsável direto por essas mortes, o que se choca claramente com a moral cristã.

 

 

1.5 Conclusão

 

O Novo Testamento é claramente contrário à escravidão, o que não significa ir para o outro extremo e pregar a “revolução” pela espada, o que naquelas circunstâncias serviria apenas para provocar carnificina e um verdadeiro massacre de todos os escravos. A fé cristã é contra a escravidão, mas não é a favor da loucura e nem do genocídio. A verdadeira revolução viria quando os cristãos regenerados e bem intencionados tivessem poder político suficiente para reverter esta condição por meios viáveis, após refletirem consigo mesmos sobre a doutrina e a moral das Escrituras.

 

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

 

Por Cristo e por Seu Reino,

Lucas Banzoli.

 

 



[2] REDIKER, Marcus. O Navio Negreiro. Ed. Companhia das Letras: 201.1

[3] DEMAR, Gary. A Bíblia apoia a escravidão? Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/etica_crista/biblia-defende-escravidao_GaryMar.pdf>. Acesso em: 03/07/2015.

[4] BUTT, Kyle. The Bible and Slavery. Disponível em: <http://www.apologeticspress.org/apcontent.aspx?category=11&article=1587>. Acesso em: 12/07/2015.

[5] John Goldingay, Old Testament Theology, Vol. 3, [Intervarsity, 2009], p. 460.

[6] THOMPSON, Keith. The Bible and Slavery: Answering “Atheists”. Disponível em: <http://www.reformedapologeticsministries.com/2015/01/the-bible-and-slavery-answering-atheists.html>. Acesso em 20/06/2015.

[7] DEMAR, Gary. A Bíblia apoia a escravidão? Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/etica_crista/biblia-defende-escravidao_GaryMar.pdf>. Acesso em: 03/07/2015.

[8] ROCHFORD, James M. The Bible and Slavery. Disponível em: <http://www.evidenceunseen.com/articles/the-goodness-of-god/the-bible-and-slavery/>. Acesso em: 12/07/2015.

[9] ROCHFORD, James M. The Bible and Slavery. Disponível em: <http://www.evidenceunseen.com/articles/the-goodness-of-god/the-bible-and-slavery/>. Acesso em: 12/07/2015.

[10] THOMPSON, Keith. The Bible and Slavery: Answering “Atheists”. Disponível em: <http://www.reformedapologeticsministries.com/2015/01/the-bible-and-slavery-answering-atheists.html>. Acesso em 20/06/2015.

[11] American Tract Society Bible Dictionary, disponível online em: <http://www.cacp.org.br/o-que-diz-a-biblia-sobre-a-escravidao/>. Acesso em: 04/07/2015.

[12] A escravidão por dívida difere-se deste outro tipo de escravidão (que é aqui proibida), uma vez que ela não implica em “comprar” alguém, mas o próprio servo é que voluntariamente trabalha para o seu senhor a fim de quitar a dívida contraída.

[13] SWARTLEY, Willard, M. Slavery, Sabbath, War, and Women. Scottdale, PA: Herald Press, 1983, p. 42.

[14] Nota-se que em nenhuma outra nação além de Israel havia uma lei assim. Ao contrário: quando os filisteus capturaram Sansão, lhes furaram os olhos (Jz.16:21), assim como os babilônicos fizeram com Zedequias (2Rs.25:7). Somente os hebreus proibiam atitudes como essa e ordenavam libertar um escravo quando o mesmo era ferido pelo patrão.

[15] KAISER, W. C., Jr. The Expositor’s Bible Commentary, Vol. 2: Genesis, Exodus, Leviticus, Numbers (F. E. Gaebelein, Ed.). Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House: 1990, p. 433.

[16]ROCHFORD, James M. The Bible and Slavery. Disponível em: <http://www.evidenceunseen.com/articles/the-goodness-of-god/the-bible-and-slavery/>. Acesso em: 12/07/2015.

[17] WENHAM, John William. The Goodness of God. Downers Grove, IL: InterVarsity, 1974, p. 96.

[18] THOMPSON, Keith. The Bible and Slavery: Answering “Atheists”. Disponível em: <http://www.reformedapologeticsministries.com/2015/01/the-bible-and-slavery-answering-atheists.html>. Acesso em 20/06/2015.

[19] Há um texto análogo a este tratando do mesmo assunto em Êxodo 22:16-17, que não fala de “tomar” a moça, mas de “seduzi-la”, o que mostra que na ocasião específica de Deuteronômio 22:28-29 não está em jogo um estupro propriamente dito, mas sim um ato sexual consentido por uma moça que foi seduzida e levada ao mau caminho. O próprio texto de Deuteronômio 22:28 deixa isso implícito ao dizer que “eles foram apanhados” (em flagrante), e não que apenas o homem foi “apanhado” (o que implica que a mulher também estava sob peso de culpa no caso).

[20] COPAN, Paul. Is God a Moral Monster? Baker Books: 2011, p. 125.

[21] A “Almeida Corrigida, Revisada e Fiel” traduz por: “então serão açoitados”, assim como a “Almeida Revista e Atualizada”. Já a “Almeida Revisada Imprensa Bíblica” traduz por: “ambos serão açoitados”, assim como faz a “Almeida Atualizada” e também a versão original de João Ferreira de Almeida.

[22] A versão “Ave Maria” traduz por: “serão ambos castigados”. A versão da CNBB diz somente que “haverá indenização”. A Bíblia de Jerusalém, de modo mais interessante, traduz assim: “o primeiro está sujeito a uma multa, mas não serão mortos” (dando a entender, portanto, que somente o homem é punido!).

[23] DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. Companhia das Letras: 2007.

[24] BANZOLI, Lucas. Deus é um Delírio? Vol. 2. Clube dos Autores: 2015, p. 172.

[25] Em meu livro “Deus é um Delírio?”, eu citei vários trechos do Código de Hamurabi em comparação com a lei de Moisés, sob os mais diversos pontos morais, demonstrando que a lei de Moisés era enormemente mais flexível e tênue. Aqui eu não citarei todos os pontos, uma vez que o propósito desta obra é focar no tema da escravidão, e não em todos os termos morais da lei. Para quem quiser uma consulta mais aprofundada, portanto, veja em: BANZOLI, Lucas. Deus é um Delírio? Vol. 2. Clube dos Autores: 2015, p. 139-148.

[26] O Código de Hamurabi pode ser conferido em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/hamurabi.htm> . Acesso em: 15/01/2015.

[27] COPAN, Paul. Is God a Moral Monster? Baker Books: 2011, p. 151.

[28] SARAIVA, Ivan. Está Escrito Série: E se Jesus não tivesse nascido? - Jesus e os Escravos. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ZDAEnUu_57g>. Acesso em: 05/01/2015.

[29] Walter Kaiser, Exodus, ed. Frank E. Gaebelein, The Expositor’s Bible Commentary, Vol. 2. Zondervan: 1990, p. 433.

[30] COPAN, Paul. Is God a Moral Monster? Baker Books: 2011, p. 134

[31] Muhammad A. Dandamayev, Anchor Bible Dictionary, vol. 6, ed. David Noel Freedman. Doubleday: 1992, p. 65.

[32] THOMPSON, Keith. The Bible and Slavery: Answering “Atheists”. Disponível em: <http://www.reformedapologeticsministries.com/2015/01/the-bible-and-slavery-answering-atheists.html>. Acesso em 20/06/2015.

[33] “Brasileiro trabalha 151 dias para pagar imposto, que come 41,4% do salário”. Disponível em: <http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/05/21/brasileiro-trabalha-151-dias-para-pagar-imposto-que-come-414-do-salario.htm>. Acesso em: 20/12/2014.

[34] HARRIS, Sam. Carta a uma nação cristã. Companhia das Letras: 2007.

[35] Aristóteles, Política, Livro I, 4.

[36] Aristóteles, Política, Livro I, 5.

[37] ibid.

[38] D’SOUZA, Dinesh. Em palestra sobre o neo-ateísmo. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-Z4Bq2t4tx0>. Acesso em: 21/01/2015.

[39] P. T. O’Brien, The Letter to the Ephesians, Pillar Commentary. Grand Rapids: Eerdmans, 1999, p. 454.

[40] BANZOLI, Lucas. Deus é um Delírio? Vol. 2. Clube dos Autores: 2015, p. 202.

[41] Léxico da Concordância de Strong, 405.

[42] Arndt, William and F.W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. University of Chicago Press: 1967, p. 63.

[43] Vander Lugt, Herb (1999), What Does the Bible Really Say about Slavery? Grand Rapids, MI: RBC Ministries: 1999, p. 26.

[44] HARRIS, Sam. Carta a uma nação cristã. Companhia das Letras: 2007

[45] THOMPSON, Keith. The Bible and Slavery: Answering “Atheists”. Disponível em: <http://www.reformedapologeticsministries.com/2015/01/the-bible-and-slavery-answering-atheists.html>. Acesso em 20/06/2015.

[46] DESERTOR, Pipe. Deus aprova a escravidão? Disponível em: <http://www.dc.golgota.org/contradicoes/genesis/genesis35.html>. Acesso em: 12/12/2014.

 

 

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