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DESMASCARANDO OS LIVROS APÓCRIFOS (P2)
DESMASCARANDO OS LIVROS APÓCRIFOS (P2)

DESMASCARANDO OS LIVROS APÓCRIFOS (PARTE 2)  
 
 
Em meu último artigo sobre a rejeição dos Pais da Igreja em relação aos apócrifos (Desmascarando os Livros Apócrifos – P1), eu provei por documentos históricos e detalhados como que pelo menos onze dos mais influentes Pais da Igreja rejeitavam explicitamente tais livros de fazerem parte do cânon bíblico.  
 
Neste presente artigo, continuarei a matéria anterior, desfazendo os sonhos e as ilusões romanistas também em torno dos outros Pais da Igreja que trataram do assunto do cânon bíblico. Assim como no anterior, buscarei organizar por ordem cronológica os autores. As polêmicas maiores acerca de Jerônimo e de outros autores estará reservada para o quinto artigo da série, que será dedicado inteiramente a refutações.  
 
Ressalto, finalmente, que o terceiro e o quarto artigo da série serão sobre outros Doutores da Igreja Católica que por séculos rejeitaram os apócrifos, para depois terminar com o artigo das refutações de alegações romanistas dos mais variados tipos (você pode colaborar enviando uma carta a mim com algum argumento deles que você queira ver sendo refutado aqui).   
 
Vamos, então, aos próximos Pais da Igreja que disseram não aos livros apócrifos, assim como há muito tempo fizeram os Judeus, os Pais e Doutores da Igreja, os Reformadores Protestantes, os Anglicanos e todo e qualquer cristão que segue a Verdade de Cristo, e não uma bula papal qualquer.  
 
 
-Gregório Nazianzeno (329 – 389 d.C)  
 
Gregório Nazianzeno foi um patriarca de Constantinopla, nascido em Arianzo, no sudoeste da Capadócia. A sua influência foi tamanha, que ficou conhecido como sendo “o mais talentoso retórico da era patrística”, cabendo a ele um impacto significativo na defesa do trinitarianismo e sendo responsável pela propagação do helenismo na Igreja Cristã.  
 
Na sua obra “Carmina Dogmática” ele discorre sobre o assunto do cânon bíblico veterotestamentário e, como os demais Pais da Igreja, afirma que o cânon bíblico era constituído de vinte e dois livros, de acordo com as vinte e duas letras do alfabeto hebraico. Mais do que isso, ele também condena vigorosamente qualquer acréscimo de livros a esta quantia, o que deveria ser uma ameaça a quem segue o cânon romano dos dias atuais: 
 
“Receba o número e nome dos livros sagrados. Primeiro os doze livros históricos em ordem: primeiro é Gênesis, então Êxodo, Levítico, Números e o testamento da lei repetido de novo; Josué, Juízes e Rute a moabita seguem estes; depois disto os famosos feitos dos Reis possuem o nono e décimo lugar; as Crônicas veem no décimo primeiro lugar e Esdras é o último. Há também cinco livros proféticos, primeiro dos quais é Jó, o próximo é o do Rei Davi, e três de Salomão, a saber, Eclesiastes, Provérbios e seu Cântico. Depois deste vem cinco livros dos santos profetas, dos quais doze estão contidos em um volume: Oseias... Malaquias, estes estão no primeiro livro; o segundo contém Isaías. Depois destes está Jeremias, chamado do ventre de sua mãe, então Ezequiel, força do Senhor e Daniel por último. Estes vinte e dois livros do Velho Testamentosão contados de acordo com as vinte e duas letras dos judeus... Que sua mente não seja enganada sobre livros estranhos, pois várias falsas atribuições estão circulando, mas você deve manter este número legítimo de mim, querido leitor (Carmina Dogmática, Livro I, Seção I, Carmen XII. PG 37:471-474)  
 
Em primeiro lugar, cabe-se ressaltar mais uma vez, conforme eu também fiz no primeiro artigo sobre o tema, que havia união de parecer entre cristãos e judeus, quando o assunto é o cânon do Antigo Testamento. Gregório, ao invés de tentar refutar o cânon judaico e estabelecer o cânon “correto” cristão, se vale exatamente da legitimidade do cânon aceito pelos judeus como sendo o correto e usado também pela Igreja Cristã.   
 
O argumento de que os livros “são contados de acordo com as vinte e duas letras dos judeus” é mais um fator que comprova isso. Qualquer cristão poderia simplesmente ignorar este “fator judaico” ou considerá-lo insignificante, mas os Pais da Igreja citavam este fator com uma enorme constância, como já constatamos no artigo anterior e como veremos ainda muitas vezes neste. Isso demonstra que havia um enorme respeito à validade do cânon judaico, em contraste direto com o pensamento católico-romano atual.  
 
Por exemplo, se você afirmar a algum deles nos dias de hoje que você crê no cânon de 22 livros igualzinho aos judeus e porque as letras do alfabeto hebraico também fazem este número de 22, ele certamente irá debochar de você, irá zombá-lo e chamá-lo de “judaizante”, ou algo do tipo. Eles simplesmente considerariam um absurdo este argumento, pois na cabeça deles está bem firmada a ideia de uma total desassociação entre cristãos e judeus no cânon do AT.   
 
Porém, se analisarmos com atenção os escritos dos Pais, veremos que este argumento é levantado por inúmeras pessoas influentes da Igreja Cristã, tais como Orígenes, João Damasceno, Gregório Nazianzeno, Eusébio de Cesareia, Hilário de Poitiers, Basílio de Cesaréia, entre outros. Em outras palavras, embora os católicos zombem disso por considerarem algo insignificante, os Pais da Igreja tanto validavam este argumento que quase todos eles que escreveram sobre o cânon faziam menção a isso!   
 
Isso significa que, se o cânon cristão está em conformidade com o cânon judaico e o número de letras do alfabeto hebraico, só pode significar uma coisa: que eles criam da mesma forma sobre o cânon do AT! Afinal de contas, se não fosse por isso, ninguém precisaria fazer menção do cânon hebraico e do alfabeto hebraico, já que nem uma coisa nem outra teria nada a ver com os cristãos e seu cânon do AT supostamente “diferente”!  
 
O segundo ponto que eu quero levantar a partir desta citação de Gregório é o que é explicitamente expresso por ele no final do seu discurso: “Que sua mente não seja enganada sobre livros estranhos, pois várias falsas atribuições estão circulando, mas você deve manter este número legítimo de mim, querido leitor”. Gregório admite o fato de que algumas pessoas estavam circulando com “falsas atribuições” (falsas listas de livros supostamente tidos por “canônicos”) que iam além destes vinte e dois passados por ele. 
 
Ele, então, repudia vigorosamente tais acréscimos, os chama de “livros estranhos”, de “falsas atribuições”, que “enganam a mente” das pessoas. Se ele insiste em mantermos este número (22) legítimo, quer dizer que o que vai além destes vinte e dois (como é o caso dos deuterocanônicos) só pode ser considerado ilegítimo! Gregório parece se adiantar para refutar alguns romanistas que poderiam objetar dizendo que os livros apócrifos aceitos por eles deveriam fazer parte do cânon.  
 
É óbvio e evidente que ele, Gregório Nazianzeno, tinha pleno conhecimento da existência de livros como os Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Judite, Tobias, Baruque e outros mais que estavam presentes na Septuaginta e que eram muitas vezes lidos na Igreja, e que havia pessoas que confundiam o mero uso eclesiástico por pensarem que factualmente seriam Escrituras Sagradas e autoritativas, tanto quanto os canônicos que o próprio Gregório listou, e que exclui todos os apócrifos da lista.   
 
Então, ele declara que a mente do leitor não poderia se enganar sobre tais livros, que eles não faziam de modo algum parte do cânon bíblico que já havia sido citado por ele sem as adições da Igreja de Roma, e que todos deveriam manter aquele “número legítimo” que ele expôs, isto é, o de vinte e dois livros, sem a inclusão de nenhum apócrifo!   
 
Ora, isto de modo algum era uma opinião particular deste patriarca que devia ser crida somente por ele; antes, é algo que deveria ser crido por todos os que lessem a sua obra, como ele deixa clarissimamente evidente.   
 
Portanto, em resumo, Gregório Nazianzeno considerava como canônicos somente os livros aceitos pelos judeus, isto é, vinte e dois livros, excluindo todos os apócrifos, e afirma ainda que falsas atribuições [de canonicidade de outros livros] estavam circulando em seus dias, mas era para rejeitarmos tais adições e ficarmos somente com aqueles vinte e dois livros!  
 
Em outro lugar, Gregório repete exatamente a mesma lista oferecida acima, novamente excluindo todos os livros apócrifos, e afirma que, se há qualquer outro além destes vinte e dois, não é genuíno!  
 
“Além disto, é mais importante que você saiba disto também: nem tudo que se oferece como venerável Escritura deve ser considerado certo. Pois há aqueles escritos por falsos homens – como é algumas vezes feito. A respeito dos livros, há vários que são intermediários e próximos da doutrina da verdade, por assim dizer, mas há outros contudo, que são espúrios e extremamente perigosos, como selos falsos e moedas espúrias, que de fato possuem a inscrição do rei, mas que são falsificações, e feitos de material básico. Com relação a isto, então, eu devo enumerar para você os livros individuais inspirados pelo Espírito Santo e para que você saiba claramente, eu irei começar com os livros do Velho Testamento. O Pentateuco contém Gênesis, então Êxodo, Levítico, que é o livro do meio, depois disto Números e finalmente Deuteronômio. A estes adicione Josué e Juízes, depois destes Rute e os quatro livros de Reis, Paralipomenon (Crônicas) igual a um livro, seguindo estes o primeiro e segundo de Esdras. Depois eu te lembro de cinco livros: o livro de Jó, coroado pela luta contra várias calamidades, também do livro de Salmos, o remédio musical da alma, os três livros da Sabedorias de Salomão, Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Eu adiciono a estes os doze profetas, primeiro Oseias, então Amós, depois Miqueias, Joel, Abdias, Jonas, o tipo dos três dias da Paixão, depois destes não, Habacuque então o nono Sofonias, Ageu, Zacarias e o anjo com dois nomes, Malaquias. Depois destes, conheça os outros profetas, chegando a quatro: o grande e destemido Isaías, Jeremias, inclinado à misericórdia, o místico Ezequiel e Daniel, mais sábio nos acontecimentos das Últimas Coisas, e alguns adicionam Ester a estes. Tenho alistado vinte e dois livros, de acordo com as vinte e duas letras hebraicas. Se há qualquer um além destes, não são genuínos (Carta a Seleuco. ap. Gregório de Nazianzo, Carminum II.vii, PG 37.1593-1595) 
 
Ele escreve a Seleuco exatamente para instruí-lo a fim de não deixá-lo confuso em saber quais eram e quais não eram considerados como Sagrada Escritura, e afirma que há livros que estão próximos da verdade mas que não são canônicos, assim como há livros totalmente espúrios e falsos.   
 
Para protegê-lo de qualquer um destes dois grupos não-canônicos a fim de que Seleuco ficasse apenas com aquilo que é factualmente canônico, autoritativo e Escritura divinamente inspirada, ele lista os livros realmente canônicos, deixando todos os apócrifos de fora, e, para ser ainda mais claro e categórico em sua posição, afirma na sequencia que, “se há qualquer um além destes, não são genuínos”  
 
Portanto, Gregório Nazianzeno refuta a credibilidade de todos os apócrifos aceitos pelo catolicismo romano, pois não os classifica como estando no cânon e ainda afirma que tais livros não-incluídos não são genuínos, isto é, não são verdadeiros, e, portanto, não podem estabelecer doutrina e muito menos serem chamados de Escritura Sagrada.  
 
Mas eles, é claro, atropelam tudo isso e concedem canonicidade a livros que jamais eram aceitos pelos próprios Pais da Igreja que eles consideram “santos” e “doutores”, como se pregassem as mesmas coisas que a Igreja Romana prega hoje!   
 
 
-Rufino de Aquileia (340 – 410 d.C)  
 
Rufino foi um monge, historiador e teólogo, ficando conhecido por seu trabalho de tradução do grego para o latim de muitas obras dos Pais da Igreja, principalmente de Orígenes. Como teólogo, ele também não deixa passar o fato de que os livros apócrifos admitidos pelo Concílio de Trento não eram tidos como autoridade onde se possa firmar coisas da fé, mas apenas tidos como livros eclesiásticos, isto é, podiam ser lidos para a edificação do povo, mas não tidos como canônicos:  
 
“Estes são os que os Pais incluíram dentro do cânon, pelos quais as afirmações da nossa fé são firmadas; contudo, convém saber que há outros livros que não são canônicos, mas chamados, por nossos maiores, de eclesiásticos, como a Sabedoria de Salomão e a outra Sabedoria que se diz do filho de Siraque; da mesma ordem é o livro de Tobias e Judite e os Macabeus, que no máximo são lidos na igreja, mas não são tidos como autoridade por onde se possa firmar coisas da fé(NPNF2 3:558; Rufino, sive Cyp. in Explic. Symboli) 
 
Notem que Rufino faz questão de mencionar Sabedoria de Salomão, Sabedoria de Siraque (=Eclesiástico), Tobias, Judite e os dois livros dos Macabeus como exemplos de livros que não eram canônicos, mas eram considerados “eclesiásticos”. Estes livros, como atesta o próprio Rufino, eram no máximo lidos na Igreja, mas não eram tidos como autoridade por onde se podia firmar coisas da fé, isto é, não possuía autoridade de Escritura Sagrada, para fins doutrinários.  
 
Depois de afirmar os 22 livros tidos por canônicos entre os cristãos, em conformidade com o cânon judaico, ele não afirma que estes livros apócrifos acrescentados nas Bíblias católicas também possuem a mesma autoridade ou que foram supostamente acrescentados pelos cristãos como Escritura Sagrada.   
 
Ao contrário, a sua explicação liquida com as pretensões deles, pois deixa por demais claro que estes livros não eram canônicos, não possuíam autoridade de livros canônicos, não podiam regulamentar doutrina, eram no máximo lidos e, por isso, eram muitas vezes citados pelos Pais, mas não como Escritura Sagrada e inspirada. 
 
Rufino explica isso em outra ocasião, dizendo:  
 
“E então parece apropriado neste lugar enumerar, como nós temos aprendido da tradição dos Pais, os livros do Novo e do Velho Testamento, que de acordo com a tradição de nossos pais, se acredita serem inspirados pelo Espírito Santo, sendo transmitido para as igrejas de Cristo. Do Velho Testamento, então, antes de tudo foram transmitidos cinco livros de Moisés, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio; então Josué Nave, (Josué filho de Num), o Livro dos Juízes junto com Rute; então quatro livros dos Reis (Reinos), que os hebreus reconhecem como dois; o livro das Omissões, que é intitulado o Livro dos Dias (Crônicas) e dois livros de Esdras (Esdras e Neemias), que os hebreus reconhecem como um, e Ester; dos Profetas, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel; além do mais dos doze Profetas menores, um livro; Jó e também os Salmos de Davi, cada um um livro. Salomão deu três livros às igrejas, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos. Estes compõe os livros do Velho Testamento. Mas deve-se saber que há também outros livros que nossos pais chamam não de 'Canônicos', mas de 'Eclesiásticos': a saber, Sabedoria, chamada Sabedoria de Salomão, e outra Sabedoria, chamada de Sabedoria do Filho de Siraque, o último sendo chamado pelos latinos com o título geral de Eclesiástico, designando não o autor do livro, mas o caráter da obra. À mesma classe pertence o Livro de Tobias, o Livro de Judite e os Livros dos Macabeus. No Novo Testamento o pequeno livro chamado de Pastor de Hermas (e aquele) que é chamado Os Dois Caminhos, ou o Julgamento de Pedro; todos os quais podem ser lidos nas igrejas, mas não recorridos para a confirmação de doutrina. Os outros escritos eles chamam 'Apócrifos'. Estes eles não podem ler nas igrejas. Estes são tradições que os pais nos transmitiram, as quais, como eu disse, eu achei oportuno estabelecer neste lugar, para a instrução daqueles que estão sendo ensinados nos primeiros elementos da Igreja e da Fé, para que eles saibam de quais fontes da Palavra de Deus suas aspirações devem ser tomadas (NPNF2, Vol. 3, Rufino, Comentário ao Credo dos Apóstolos 36) 
 
Rufino lista novamente cada um dos vinte e dois livros tidos por canônicos pelos cristãos, e faz questão de explicar o porquê que os livros apócrifos não estão no cânon. Ele afirma sobre tais livros que: 
 
1. Não eram canônicos, mas “eclesiásticos”.
 
2. Podiam ser lidos nas igrejas, mas não recorridos para a confirmação de doutrina.  
 
Estes dois fatos são constantemente ressaltados pelos demais Pais da Igreja (não somente por Jerônimo, como eles pensam), que os sete livros incluídos pela Igreja de Roma não eram considerados canônicos pela Igreja primitiva, mas apenas “eclesiásticos”. 
 
Isso significa, como o próprio Rufino explica na sequencia, que tais livros não poderiam ser usados como fonte ou regra doutrinária. Todos eles podiam apenas ser lidos na Igreja, como de fato eram, mas não por estarem no cânon, nem por possuírem autoridade para decidir ou confirmar doutrinas.   
 
Esta distinção é extremamente precisa, pois havia livros apócrifos totalmente heréticos do início ao fim e feitos com a única utilidade de atacarem os pontos básicos da fé cristã (tais como alguns evangelhos apócrifos gnósticos), assim como existiam livros apócrifos que eram respeitados, mas não canônicos (como os sete apócrifos aprovados por Trento, e mais outros livros como 3 Macabeus, 1 Esdras, O Pastor, O Ensinamento dos Doze Apóstolos, a Epístola de Jeremias, a Epístola de Barnabé, dentre outros), e também existiam livros realmente canônicos em sua plenitude, estes sim tidos como Sagrada Escritura pelos primeiros cristãos.  
 
Diferenciar estas três classes de livros é a chave fundamental para obtermos a compreensão de tais escritos. Já vimos, anteriormente, Gregório Nazianzeno diferenciando duas classes de livros apócrifos: os que eram totalmente falsos, heréticos e espúrios, e aqueles que eram considerados “intermediários” e “próximos” da doutrina da verdade, mas ainda não canônicos.   
 
O primeiro grupo de livros apócrifos não poderiam sequer ser lidos na Igreja, e entre eles podemos incluir os evangelhos gnósticos e outras obras pseudo-cristãs que eram inteiramente e abertamente classificadas como falsas, como é o caso também da Epístola de Paulo aos Laodicenses, do Evangelho de Judas Iscariotes, do Evangelho de Tomé, do Evangelho de Maria Madalena, etc.   
 
Por outro lado, o segundo grupo de apócrifos eram considerados pelos Pais como “intermediários e próximos da verdade”. Estes livros não eram tidos como Escritura autoritativa, mas podiam ser lidos para a edificação do povo.  
 
Dando um exemplo prático dos dias atuais: o meu livro sobre “Como Vencer o Pecado” não é Sagrada Escritura divinamente inspirada, não faz parte do cânon bíblico, mas eu escrevi exatamente para ser lido na Igreja para a edificação do povo, não para estabelecer doutrinas complementares à Bíblia. Por outro lado, a Bíblia Satânica, escrita pelo satanista Anton LaVey, é um material anticristão que não serve para a edificação do povo, fazendo parte daquilo que Gregório chamou de “livros espúrios e extremamente perigosos”  
 
Portanto, o que existia na Igreja antiga não é algo muito diferente daquilo que ocorre ainda nos dias atuais. Temos as Escrituras canônicas – os 22 livros aceitos tanto pelos judeus quanto pelos cristãos – e temos também os livros apócrifos (i.e, não pertencentes ao cânon bíblico), e dentre os apócrifos temos aqueles que servem para a edificação e podem ser lidos, assim como temos aqueles que são falsos, espúrios e que devem ser suprimidos da Igreja, não lidos.   
 
Os livros apócrifos acrescentados pelos romanistas se encontram neste segundo grupo, não no primeiro. Eles leem menções dos Pais a estes livros prestando-lhes certa honra e respeito, o que não deveria ser nada a mais de se esperar acerca de livros eclesiásticos, embora não canônicos.   
 
Mas o que eles se esquecem (e não sei se o fazem deliberadamente) é de mencionar que muitos outros livros eram considerados no mesmo grau dos sete apócrifos acrescentados pela Igreja Romana, mas que nem ela os aceita nos dias de hoje! Estes livros também eram considerados “eclesiásticos”, também eram lidos para a edificação do povo, mas, assim como os sete apócrifos, não eram admitidos no cânon.   
 
Vejamos alguns deles analisados por Jerônimo:  
 
-Epístola de Barnabé:  
 
“Barnabé, o Cipriano, também chamado José, o levita, ordenado apóstolo dos gentios junto com Paulo, escreveu uma Epístola, valiosa para a edificação da Igreja, que é contada entre os escritos apócrifos” (De Viris Illustribus, 6) 
 
-O Pastor de Hermas: 
 
“Hermas, a quem o apóstolo Paulo menciona por escrito aos Romanos: ‘Saúdem Asíncrito, a Flegonte, a Hermes, a Pátrobas, a Hermas, e aos irmãos que estão com eles’ (Rm.16:14) é famoso por ser o autor do livro que é chamado de ‘O Pastor’ e que também é lido publicamente em algumas igrejas da Grécia. É, de fato, um livro útil e muitos dos antigos escritores o citam como autoridade, mas entre os latinos é quase desconhecido” (De Viris Illustribus, 10)  
 
-Filon de Alexandria: 
  
“Filon, o judeu, um alexandrino de classe sacerdotal, é contado por nós entre os escritores eclesiásticos (De Viris Illustribus, 11)  
 
-1 Clemente:  
 
“Clemente... escreveu, por parte da Igreja de Roma, uma especialmente valiosa carta à igreja de Corinto, que em alguns lugares é lida publicamente...” (De Viris Illustribus, 15)  
 
-Policarpo aos Filipenses:  
 
“Ele [Policarpo] escreveu uma muito valiosa Epístola aos Filipenses, que é lida até os dias de hoje nas reuniões na Ásia” (De Viris Illustribus, 17)  
 
-Teófilo de Antioquia: 
 
“Teófilo, sexto bispo da Igreja de Antioquia, no reinado do imperador Marcus Antonino Verus compôs um livro Contra Marcião, que ainda existe, e também três volumes para Autólico e um Contra a Heresia de Hermógenes, além de outros tratados curtos e elegantes, bem equipados para a edificação da Igreja  (De Viris Illustribus, 25)  
 
Enfim, são muitos outros os escritos e escritores considerados eclesiásticos, cujos escritos, assim como os apócrifos aprovados por eles, eram lidos publicamente na Igreja para edificação, mas não eram tidos no cânon cristão/judaico.   
 
Mais valioso que isso e que serve para confirmar tal quadro é a declaração de Rufino, que vimos anteriormente colocando os sete apócrifos de lado (excluído dos canônicos e junto aos eclesiásticos), junto a algumas destas mesmas obras que acabei de citar. Ele cita os livros apócrifos aceitos pela Igreja Romana e lista juntamente com eles e no mesmo patamar os livros do Pastor de Hermas, Os Dois Caminhos, e O Julgamento de Pedro.   
 
Ele não faz questão de diferenciar entre os livros apócrifos recém-mencionados por ele (onde ele inclui os apócrifos aceitos no catolicismo) e estes outros que ele cita logo em seguida; ao contrário, afirma que todos os quais podem ser lidos nas igrejas, mas não recorridos para a confirmação de doutrina”. 
 
Ou seja, ele coloca os sete livros apócrifos no mesmo nível dos livros recém-mencionados e afirma que todos eles – sem exceção – não podiam ser recorridos para confirmação de doutrina, mas eram somente para leitura!   
 
Em vista de tudo isso, somente alguém que quer a todo custo colocar em si mesmo um véu espiritual ou cegar-se que pode continuar com a tese infundamentada, refutadíssima, auto-destrutiva e amadora de que “os Pais da Igreja criam na canonicidade dos apócrifos”. Para alguém alegar uma coisa dessas, ou o faz pela mais cega ignorância, ou por pura desonestidade intelectual.  
 
 
Anfilóquio de Icônio (340 – 400 d.C) 
 
Outro que sugere a mesma distinção feita por Gregório Nazianzeno e seguida de perto por muitos outros Pais da Igreja, entre livros canônicos, livros intermediários e livros espúrios é Anfilóquio. Nascido entre 339-340 d.C, em Cesareia Mázaca, e primo do próprio Gregório Nazianzeno, seguiu de perto a sua doutrina, inclusive no aspecto do cânon bíblico.  
 
Em seus Jambos dedicados a Seleuco – cerca de 385 d.C – Anfilóquio estabeleceu uma lista de livros do Antigo Testamento que estão dentro do cânon cristão, onde ele cita nominalmente todos os livros presentes nas Bíblias protestantes mas exclui por completo todos os livros acrescentados pelo Concílio de Trento. Ele demonstra três categorias de livros: “asfaléis” (i.e, protocanônicos), os “pseudónymoi” (i.e, os intermediários)e os espúrios 
 
Ele classifica os "deuterocanônicos" como sendo livros da segunda categoria, ou seja, a classe pseudoepigráfica ou eclesiástica. Entender isso é fundamental para compreendermos o papel que os sete livros representavam na igreja cristã da época.   
 
Eles não estavam incluídos na categoria dos livros canônicos, inspirados pelo Espírito Santo e que fazem parte das Sagradas Escrituras (onde se pode fundamentar doutrina), mas sim em uma classe inferior denominada por eles de eclesiástica, em que tais livros podem ser lidos para edificação, mas não tidos por fonte de doutrina onde se possam fundamentar as coisas da fé.   
 
Eles não estavam na classe de livros espúrios e condenados pela Igreja para sequer serem lidos (por conterem material fortemente anticristão), mas também não eram considerados Escritura.   
 
Se os apócrifos incluídos pela Igreja de Roma estivessem no mesmo nível de autoridade, inspiração, canonicidade e sendo também Escritura Sagrada assim como os outros 66 livros (como a Igreja deles afirma dogmaticamente), então tais declarações feitas constantemente pelos Pais, de que esses livros pertenciam a uma classe inferior, pseudoepigráfica ou eclesiástica, de onde não se podia fundamentar doutrina, perdem completamente o sentido ou são totalmente enganadoras.   
 
Se eles faziam tal distinção, é porque tal distinção existia! Não é possível que eles considerassem os apócrifos como canônicos se eles insistiam em considerá-los em uma classe inferior. Sendo assim, as alegações de que tais livros tem igual autoridade dos demais é completamente infundamentada. O mesmo testemunho sobre Anfilóquio é dado por Metrófanes Critopulus, na sua “Confissão da Igreja Católica e Apostólica Oriental”. Ele escreveu:  
 
“Mas os restantes livros que alguns pretendem incluir na Sagrada Escritura, tais como Tobias, Judite, a Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Jesus filho de Sirá (Eclesiástico), Baruque e os livros dos Macabeus, não os consideramos merecedores de ser descartados, pois muitos preceitos morais, merecedores do maior louvor, se contêm neles; mas a Igreja de Cristo nunca os recebeu como canônicos e autênticos, como dão testemunho muitos outros, mas especialmente São Gregório o Teólogo, São Anfilóquio, e finalmente São João de Damasco. Portanto não nos esforçamos em estabelecer doutrinas destes, mas dos trinta e três livros canônicos e autênticos, os quais também chamamos inspirados e Sagrada Escritura (Confissão da Igreja Católica e Apostólica Oriental, citado por Westcott, The Bible in the Church, 3ª edição, 1870, p. 228-229) 
 
Portanto, Anfilóquio era citado como um exemplo daqueles que rejeitavam os sete apócrifos como Escritura, sendo, antes, respeitados por seus preceitos morais, mas não tidos por onde se possa estabelecer doutrina e não estando no grupo daqueles que eram considerados os livros canônicos e autênticos, chamados de inspirados e Sagrada Escritura. Tudo isso contradiz o ensinamento herdado pela Igreja de Roma, onde tais livros são considerados canônicos, inspirados, autoritativos, Escritura Sagrada... totalmente fora do consenso unânime dos Pais!   
 
 
-Jerônimo (347 – 419 d.C)  
 
Um dos Pais mais influentes da Igreja Cristã, que deixou um enorme legado histórico para nós nos dias de hoje, que traduziu a Bíblia do hebraico e grego para o latim e que foi o autor de inúmeras cartas, refutações e tratados é Jerônimo, contemporâneo de Agostinho de Hipona, com quem trocou cartas e não poucas vezes também discutiu sobre vários assuntos divergentes.   
 
Um dos pontos que Jerônimo mais fortemente apoiava, do início até o fim da sua vida, é o repúdio à canonicidade dos sete livros apócrifos. Ele é constantemente o mais citado pelos apologistas cristãos evangélicos contra o catolicismo romano, como não poderia ser diferente, pois as suas falas são por demais claras e objetivas.   
 
Ao traduzir a Vulgata Latina, ele primeiramente se recusou a traduzir os apócrifos, mas depois, a pedido de alguns bispos amigos, fez uma tradução rápida de Tobias e Judite, e se recusou a traduzir os demais livros, que foram acrescentados à versão de Jerônimo tal como estavam na versão Antiga Latina  
 
Mas ele não deixou de passar no prefácio dos livros da Vulgata o fato evidente de que nem ele nem a Igreja Cristã da época admitia estes livros como canônicos para a formação das doutrinas da Igreja. No prefácio dos livros de Salomão na Vulgata, ele afirma que a Igreja não recebe tais livros entre as Escrituras canônicas: 
 
"E assim da mesma maneira pela qual a igreja lê Judite, Tobias e Macabeus (no culto público) mas não os recebe entre as Escrituras canônicas, assim também sejam estes dois livros [Sabedoria e Eclesiástico] úteis para a edificação do povo, mas não para estabelecer as doutrinas da Igreja" (Prefácio dos Livros de Salomão)
 
Alguns papistas, ao se depararem com tamanha evidência, tentar disfarçar o fato alegando que mais tarde Jerônimo “mudou subitamente de opinião”, sabe-se lá como, por que ou quando, mas que teria mudado de ideia com relação à sua posição pessoal quanto aos apócrifos.   
 
Sobre esta lenda, iremos refutar mais exaustivamente no artigo que será dedicado a refutações (será o 5º da série sobre os apócrifos), mas por hora cabe apenas ressaltar o fato de que os apologistas católicos falham precisamente logo ao começarem essa afirmação, pois eles não percebem (ou não querem perceber) que Jerônimo jamais esteve relatando somente uma opinião pessoal sua, mas estava, antes de tudo, relatando aquilo que era crido por toda a Igreja de modo geral.   
 
Notem que Jerônimo não escreve: 
  
“E assim da mesma maneira pela qual eu leio Judite, Tobias e Macabeus, mas – diferentemente do restante da Igreja – eu não recebo entre as Escrituras canônicas...” 
 
Pelo contrário! Ele fala em nome de toda a Igreja, como se segue:  
 
“E assim da mesma maneira pela qual a Igreja lê Judite, Tobias e Macabeus, mas ela [a Igreja] não os recebe entre as Escrituras canônicas...”  
 
Fica muito óbvio e evidente que, diferentemente daquilo que os eles sonham, Jerônimo não estava apenas escrevendo sobre uma opinião particular sua que o distinguisse do restante da Igreja (já ouvi gente famosa dizendo inclusive que ele foi “influenciado pelos judeus” e estava em desacordo com o restante da Igreja da época!), pelo contrário, ele estava precisamente falando sobre a posição majoritária de toda a Igreja, simplesmente relatando aquilo que era um consenso geral (a igreja lê... a igreja não recebe).   
 
Não há a menor indicação de que Jerônimo estivesse dando um ponto de vista sectário. Ao contrário, ele fala como representante dos cristãos em geral. O sujeito é sempre "a Igreja", e não Jerônimo! Logo, os católicos romanos estão perdendo tempo enquanto buscam com todas as suas forças encontrarem “provas” que tiraram às pinceladas de algumas passagens isoladas em escritos posteriores de Jerônimo em que ele supostamente teria “mudado de opinião”, pois o que está em jogo aqui não é uma opinião pessoal de Jerônimo, mas um consenso geral da Igreja na época!   
 
Entender essa diferenciação é fundamental e torna praticamente insignificante as tentativas católicas de refutação, por maior que seja o esforço deles em tal tarefa. Ora, se em pleno final do século IV é nos dito que (assim como nos séculos anteriores) a Igreja continuava sem considerar como canônicos os livros apócrifos, mas apenas era permitido lê-los na Igreja, então significa que estes livros originalmente não eram considerados Escritura Sagrada e somente depois que incluíram eles no cânon.   
 
Em outras palavras, novamente a nossa tese é respaldada pelas evidências, de que originalmente os primeiros cristãos não receberam os escritos apócrifos como Escritura inspirada e autoritativa, mas posteriormente vieram a adicionar estes livros. Sendo assim, o que houve não foi uma retirada por parte dos cristãos protestantes de certos livros da Bíblia, mas sim um acréscimo por parte daqueles que seguem a Igreja de Roma.   
 
Se a Igreja não recebia estes livros como Escritura Sagrada, era porque eles não reconheciam estes livros como canônicos – simples assim! Portanto, a posição da Igreja Cristã da época, que é explicada e demonstrada por Jerônimo e por muitos outros, é a de que os sete livros apócrifos que os católicos romanos incluíram na Bíblia não eram mais coisa do que somente livros apócrifos: 
 
"Este prólogo, como vanguarda (principium) com capacete das Escrituras, pode ser aplicado a todos os Livros que traduzimos do Hebraico para o Latim, de forma que nós podemos garantir que o que não é encontrado em nossa lista deve ser colocado entre os escritos Apócrifos. Portanto, a sabedoria comumente chamada de Salomão, o livro de Jesus, filho de Siraque [Eclesiástico], e Judite e Tobiase o Pastor [supõe-se que seja o Pastor de Hermas], não fazem parte do cânon. O primeiro livro dos Macabeus eu não encontrei em hebraico, o segundo é grego, como pode ser provado de seu próprio estilo" (Prologus Galeatus)  
 
Negar a distinção aqui entre os livros canônicos e os considerados apócrifos é impossível. Jerônimo afirma que todos os livros que não faziam parte do cânon de 22 livros não eram canônicos, nem Escritura Sagrada, mas escritos apócrifos. E ele coloca Sabedoria, Eclesiástico, Judite e Tobias junto com o Pastor de Hermas! Que Jerônimo aceitava somente os 22 livros canônicos, sem a inclusão dos apócrifos, fica claro em todas as suas declarações:  
 
“E assim há também vinte e dois livros do Antigo Testamento; isto é, cinco de Moisés, oito dos profetas, nove dos hagiógrafos, embora alguns incluam Ruth e Kinoth (Lamentações) entre os hagiógrafos, e pensam que estes livros devem contar-se por separado; teríamos assim vinte e quatro livros da Antiga Lei” (Prefácio aos Livros de Samuel e Reis. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series, vol. 6, p. 489-490)  
 
“Estas instâncias têm sido tocadas por mim (os limites de uma carta proíbem um tratamento mais discursivo deles) para convencer você de que nas Escrituras Sagradas você não pode fazer progresso a menos que você tenha um guia para mostrar a você o caminho... Gênesis ... Êxodo ... Levítico ... Números ... Deuteronômio ... Jó ... Jesus o filho de Nave ... Juízes ... Rute ... Samuel ... O terceiro e quarto livros de Reis ... Os doze profetas cujos escritos estão comprimidos nos limites de um simples volume: Oseias ... Joel ... Amós ... Obadias ... Jonas ... Miquéias ... Naum ... Habacuque ... Sofonias ... Ageu ... Zacarias ... Malaquias ... Isaias, Jeremias, Ezequiel e Daniel ... Jeremias também vai quatro vezes através do alfabeto em diferentes metros (Lamentações)... Davi... canta de Cristo em sua lira; e em um saltério com dez cordas (Salmos) ... Salomão, um amante da paz e do Senhor, corrige moral, ensina natureza (Provérbios e Eclesiastes), une Cristo e a igreja, e canda uma doce canção de matrimônio para celebrar aquele santo casamento (Cântico dos Cânticos) ... Ester ... Esdras e Neemias. Eu te suplico, meu caro irmão, a viver entre estes livros, a meditar neles, a saber nada mais, não buscar nada mais (NPNF2, Volume 6, São Jerônimo, Carta LIII.6-10)
 
E sobre estes livros considerados apócrifos – e que Jerônimo faz questão de colocar os sete entre eles – ele também afirma que não eram inspirados, que não eram escritos por pessoas fidedignas e que não formavam uma doutrina segura:
 
"Para os católicos, os apócrifos são certos livros antigos, semelhantes a livros bíblicos, quer do N.T, quer do V.T, o mais das vezes atribuídos a personagens bíblicos, mas não inspirados, como os livros canônicos, e nem escritos por pessoas fidedignas nem de doutrina segura" (Introdução Geral a Vulgata Latina, p.9)  
 
Somente o fato de ter declarado que os apócrifos não eram inspirados já seria o suficiente para destruir a suposta “canonicidade” de tais livros. Mas ele ainda faz questão de dizer que eles não eram escritos por pessoas fidedignas – sinal de que não era digno de fé ou merecedor de crédito – e que não tinham doutrina segura! Ora, como é que algum cristão poderia receber um livro como “canônico”, se ele não tem doutrina segura?! Isso seria simplesmente um suicídio!   
 
Mas os católicos tanto não se incomodam com este fato que colocam tais livros entre o cânon exatamente para estabelecer doutrinas em cima deles! Isso é lastimável! Tais livros não tinham sequer qualquer autoridade para confirmação doutrinária, como o próprio Jerônimo reconhece: 
 
“Como a Igreja lê os livros de Judite e Tobite e Macabeus, mas não os recebe entre as Escrituras canônicas, assim também lê Sabedoria e Eclesiástico para a edificação do povo, não como autoridade para a confirmação da doutrina(Prefácio aos Livros de Salomão)  
 
A própria Enciclopédia Católica reconhece o fato de que Jerônimo distinguia entre livros canônicos e eclesiásticos (apócrifos), e que foi somente no Concílio de Trento que aqueles livros “eclesiásticos” (apócrifos) passaram para a categoria de “canônicos”:  
 
"Jerônimo distinguia entre livros canônicos e livros eclesiásticos (os apócrifos). Estes últimos circulavam na Igreja como boa leitura espiritual, mas não eram reconhecidos como Escritura autoritativa… A situação permaneceu obscura nos séculos seguintes… Segundo a doutrina católica, o critério do cânon bíblico é a decisão infalível da Igreja. Esta decisão não foi dada até muito tarde na história da Igreja no Concílio de Trento. Antes deste havia algumas dúvidas sobre a canonicidade de certos livros Bíblicos, i.e., sobre a sua pertença ao cânon. O Concílio de Trento definitivamente resolveu a questão do cânon do Antigo Testamento. Que isto não havia sido feito anteriormente é evidenciado pela incerteza que persistia até o tempo de Trento(New Catholic Encyclopedia, Vol. II, Bible, III (Canon), pág. 390; Cânon, Bíblico, pág. 29; Bíblia, III (Cânon), pág.  390)  
 
Como eu já afirmei, não será neste presente artigo que eu me dedicarei às refutações das ilusões romanas de que Jerônimo tenha “mudado de opinião” (o que não é o ponto principal e nem o de maior relevância, como já relatei acima), pois dedicarei um artigo inteiro para destruir essas e outras fábulas católicas. Mas, por enquanto, cabe-se ressaltar pelo menos alguns fatos documentais que mostram que Jerônimo em momento nenhum mudou de parecer.  
 
Em primeiro lugar, a alegação de que Jerônimo mudou de opinião depois dos Concílios de Hipona (393 d.C) e Cartago (397 d.C) é simplesmente descartada porque, antes de tudo, estes dois concílios foram sínodos locais, e não decisões ecunêmicas ou autoritativas para toda a Igreja. Logo, eles não têm maior autoridade do que, por exemplo, o Concílio de Laodiceia, que também foi um sínodo local e que descartou por completo todos os livros apócrifos em 390 d.C (curiosamente, na mesma época dos dois concílios africanos!).  
 
Em outras palavras, se Jerônimo teria que se dobrar diante de concílios locais africanos por eles terem aprovado os apócrifos, por que não deveria fazer o mesmo diante de outro concílio local realizado na mesma época, que reduz a nada os livros apócrifos e que ainda por cima teve os cânones confirmados pelo Concílio de Calcedônia (Art. 15, de can. 1, Labb. Conc. IV, Paris, 1671), que foi um concílio ecunêmico? É absurdamente fácil e até enfadonho refutar essas cansativas objeções amadoras propagadas há séculos pelos romanistas!  
 
Em segundo lugar, cabe-se ressaltar que a posição de Jerônimo que é expressa na Vulgata Latina era tomada pelos próprios doutores da Igreja Católica de séculos posteriores como estando em um patamar de superioridade sobre estes meros sínodos locais no norte da África. Isso é tão evidente, que levou o próprio cardeal Caetano, que escreveu um comentário sobre todos os livros do Antigo Testamento (os quais dedicou ao papa) a dizer:  
 
“Aqui fechamos nossos comentários dos livros históricos do Velho Testamento. Sobre o resto (ou seja, Judite, Tobias e os livros de Macabeus) são contados por São Jerônimo fora dos livros canônicos, e são colocados junto com os Apócrifos, junto com Sabedoria e Eclesiástico, como se deixa claro no Prologus Galeatus. Não fique perturbado, como um estudioso novato, se você encontrar em qualquer lugar, ou nos sagrados concílios ou sagrados doutores, estes livros reconhecidos como canônicos. Pois as palavras bem como os concílios bem como doutores devem ser reduzidos à correção de Jerônimo. Agora, segundo seu julgamento, na epístola aos bispos Cromácio e Heliodoro, estes livros (e qualquer outro livro igual no cânon bíblico) não são canônicos, ou seja, não possuem a natureza de uma regra para confirmar questões de fé. Ainda, eles podem ser chamados de canônicos, ou seja, na natureza de uma regra para edificação dos fiéis, como sendo recebidos e autorizados no cânon da Bíblia para este propósito. Com a ajuda desta distinção você pode ver seu caminho claramente através do que Agostinho diz, e pelo que está escrito no concílio provincial de Cartago” (Caetano, Comentário em todos os autênticos Livros Históricos do Velho Testamento, no ultimo Capítulo de Esther)  
 
Podemos notar claramente que as palavras daqueles concílios locais deveriam ser reduzidas a correção de Jerônimo, o que revela o fato óbvio de que a lista proposta por Jerônimo na Vulgata era reconhecida pelos próprios doutores da Igreja Católica como tendo maior autoridade sobre aqueles concílios sob Agostinho.  
 
Mesmo ele tendo conhecimento da existência daqueles concílios na África que aceitaram os apócrifos, ele afirma que conceder canonicidade a eles por causa disso é um ato de “estudantes novatos”, pois todos deveriam saber que a correção de Jerônimo – ao deixar os apócrifos de fora – era superior e mais autoritativa do que aqueles dois sínodos locais, de modo que são aqueles concílios que devem se submeter e se reduzir à lista de Jerônimo, e não o contrário!   
 
Portanto, como o próprio cardeal Caetano afirma (e ele é seguido de perto por muitos outros da mesma época), os livros apócrifos declarados “canônicos” pelos concílios de Hipona e Cartago são “canônicos” apenas no sentido estrito de serem usados para a edificação dos fieis, mas não são canônicos no sentido de possuir a natureza de uma regra para confirmar as questões da fé. 
 
Ou seja, ele mostra que a decisão daqueles concílios não alterou em absolutamente nada a posição alegada pelos Pais da Igreja que vieram antes daqueles concílios, que eles não tornaram os apócrifos como “canônicos” para estabelecer doutrinas da Igreja e que o cânon de Jerônimo sem os apócrifos era superior e mais autoritativo do que aqueles concílios, de forma que o cânon proposto por eles deveria ser reduzido ao de Jerônimo!   
 
Isso liquida absolutamente com as pretensões romanistas de fazerem exatamente o inverso, isto é, colocarem a decisão de Cartago e Hipona acima do cânon expresso por Jerônimo na Vulgata Latina e dizerem que o fato daqueles sínodos locais considerarem tais livros “canônicos” significa, por si só, que eles são inspirados ou autoritativos, o que o próprio cardeal Caetano faz questão de refutar com grande veemência! 
 
E, em terceiro lugar, já que eles pedem uma documentação histórica de que Jerônimo continuou a negar a canonicidade dos apócrifos mesmo depois destes dois sínodos locais do norte da África, será isso mesmo que eles vão ter. Teremos então que mostrar que, vários anos mais tarde, já em 403 d.C, ele escreveu uma carta a Laeta, sobre a educação de sua filha Paula.  
 
Ele, então, passa uma série de conselhos a ela, e não deixa de incluir a instrução nas Escrituras. Em sua carta, ele a incentiva a ler o Pentateuco, os Salmos, os Provérbios de Salomão, os Profetas, os livros dos Reis, Crônicas, Esdras, Ester e Cântico dos Cânticos. Ele passa pelos livros canônicos sem citar absolutamente nenhum dos sete livros apócrifos, e, como se não bastasse, ele escreve logo em seguida:  
 
“Que [Paula] evite todos os escritos apócrifos, e se ela for levada a lê-los não pela verdade das doutrinas que contêm mas por respeito aos milagres contidos neles, que ela entenda que não são escritos por aqueles a quem são atribuídos, que muitos elementos defeituosos se introduziram neles, e que requer uma perícia infinita achar ouro no meio da sujeira(Epístola 107:12 - Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series, vol. 6, p. 194)  
 
Isso reflete exatamente aquilo que ele havia escrito antes, na própria Vulgata. Ele havia colocado apenas os 22 livros aceitos pelos evangélicos no cânon do AT e dito que aquilo que os católicos romanos chamam de “deuterocanônicos” eram, na verdade, livros apócrifos, que não eram aceitos para estabelecer doutrina, que não eram uma fonte fidedigna, que não eram inspirados e que não possuíam autoridade como os canônicos.   
 
Muitos anos mais tarde, já bem depois dos sínodos de Hipona e Cartago (onde supostamente Jerônimo teria “mudado de opinião”), ele escreve a Laeta, reiterando o mesmo cânon e dizendo exatamente as mesmas coisas; na verdade, ele o faz com ainda mais ousadia, reafirmando que não eram escritos fidedignos (não eram escritos por aqueles a quem são atribuídos), que eram muito defeituosos e que possuíam sujeira tamanha que seria necessária uma perícia infinita para achar “ouro” (doutrina valiosa) no meio deles!  
 
Diante de tudo isso, será que Jerônimo “mudou” mesmo de opinião? Não! Absolutamente não! E não é somente aqui que Jerônimo escreve reiterando a sua posição afirmada no prefácio da Vulgata. Alguns católicos afirmam que, em 402 d.C (já depois dos concílios de Hipona e Cartago), Jerônimo teria “deixado claro” que havia “mudado de opinião” com relação aos apócrifos escrevendo Contra Rufino, II; 33.   
 
Na verdade, no artigo de Refutações irei demonstrar como que aquele texto não tem nada a ver com o cânon bíblico usado nas igrejas, mas sim à versão do texto grego usado nas igrejas, e com relação especificamente aos acréscimos ao livro de Daniel, e não a todo o Antigo Testamento! Para isso, recomendo entusiasticamente a leitura deste artigo do blog “Conhecereis a Verdade” 
 
Mas o mais interessante fica por conta do fato de que, cinco anos mais tarde (portanto, em 407 d.C, quando teoricamente Jerônimo já teria há muitos anos “mudado de opinião”...), Jerônimo escreve o seu comentário sobre Daniel e esclarece que não reconhece os acréscimos em Daniel como sendo pertencente ao texto original daquele livro: 
 
“Mas entre outras coisas, devemos reconhecer que Porfírio faz-nos esta objeção sobre o Livro de Daniel, que ele é claramente uma fraude que não deve ser considerado como pertencente às Escrituras Hebraicas mas uma invenção composta em grego. Isso ele deduz do fato de que na história de Susana, onde Daniel está a falar com os anciãos, encontramos as expressões: ‘Para dividir da árvore de aroeira(apo tou skhinou skhisai) e viu no carvalho sempre verde (kai apo tou prinou prisai), um jogo de palavras apropriadas para o grego, em vez de para o hebraico. Mas tanto Eusébio como Apolinário responderam-lhe após o mesmo teor, que as histórias de Susana e de Bel e o Dragão não estão contidas no hebraico, mas constituem uma parte da profeciade Habacuque, filho de Jesus, da tribo de Levi. Assim como encontramos no título dessa mesma história de Bel, segundo a Septuaginta:Havia um certo sacerdote chamado Daniel, filho de Abda, um íntimo do reida Babilônia’. E, no entanto, a Sagrada Escriturat estifica que Daniel e os três jovens hebraicos eram da tribo de Judá. Por esta mesma razão, quando eu traduzi Daniel muitos anos atrás, assinalei essas visões com um símbolo crítico, demonstrando que elas não estavam incluídas no hebraico. E a este respeito, estou surpreendido ao ser informado de que certos críticos reclamam que eu por minha própria iniciativa trunquei o livro. Afinal de contas, quer Orígenes, Eusébio e Apolinário e outros homens da Igreja proeminentes e doutores da Grécia reconhecem que, como eu disse, estas visões não são encontradas entre os hebreus, e que portanto eles não são obrigados a responder a Porfírio por estas partes que não exibem autoridade como Sagrada Escritura(Prólogo do Comentário sobre Daniel) 
 
Portanto, já em 407 d.C, Jerônimo explicita que as adições adotadas pela Igreja de Roma:  
 
1. São refutadas não somente por ele, mas também por Eusébio e Apolinário, que provaram que as histórias de Susana e de Bel e o Dragão não estão contidas no original hebraico.  
 
2. Estavam assinaladas por ele com um símbolo crítico, que demonstrava que elas de fato não estão incluídas no hebraico, e, portanto, não é legitimamente uma parte do livro de Daniel. 
 
3. Muitos outros proeminentes doutores da Grécia reconheceram, assim como Jerônimo, que aquelas visões acrescentadas ao livro de Daniel não eram encontradas entre os hebreus.  
 
4. Portanto, tais partes não exibiam autoridade como Sagrada Escritura.  
 
E Jerônimo, por fim, diz: 
 
“...Se, no entanto, alguém for capaz de provar que ela pertence ao cânon, então seremos obrigados aprocuraralguma respostapara esta objeção” (Prólogo do Comentário sobre Daniel)  
 
Portanto, para Jerônimo, tais acréscimos admitidos pelo catolicismo romano não exibiam autoridade como Sagrada Escritura e não pertenciam ao cânon bíblico. E isso é mais que o suficiente para liquidarmos com os sonhos, ilusões e pretensões dos apologistas católicos de plantão, que terão que arrumar outra desculpa que não seja tão pífia e ainda esperarem para serem ainda mais demolidos em meu quinto artigo da série. 
 
 
-Agostinho de Hipona (354 – 430 d.C) 
 
De todos os Pais da Igreja que podemos citar, o único que tinha uma proximidade e simpatia maior com os apócrifos era Agostinho, bispo de Hipona, o mais famoso Pai da Igreja cristã, que conviveu juntamente com Jerônimo, embora divergisse dele quando a questão era o cânon bíblico.  
 
Sendo um dos Pais da Igreja mais respeitados e de maior influência em sua época, o seu posicionamento acerca do cânon bíblico acabou influenciando fortemente como um fator determinante para a inclusão dos apócrifos nos Concílios de Hipona (393) e Cartago (397), realizados no Norte da África.   
 
Diferentemente de Jerônimo, que possuía grande bagagem teológica sobre o cânon e que conviveu de perto com rabinos, suficientemente para reconhecer o cânon judaico, Agostinho não tinha um sentido crítico bíblico como o de Jerônimo, e não sabia o hebraico, o que ajuda a explicar o porquê dele insistir na Septuaginta (versão grega) e aceitar boa parte dos livros que estavam presentes nela, pelo menos para serem lidos na Igreja. Mesmo assim, será necessário fazermos algumas considerações a respeito disso.   
 
Em primeiro lugar, o próprio Agostinho, apesar de considerar tais livros canônicos no mesmo sentido expresso pelo cardeal Caetano (de serem lidos para a edificação dos fieis, mas não para a formação de doutrina), reconhecia abertamente que tais livros não eram reconhecidos na Igreja com a mesma autoridade que os demais possuíam. Temos várias fortes evidências quanto a isso. A primeira delas é que ele próprio reconhece que o livro de Sabedoria é “não canônico”, e que não poderia ser recorrido em termos doutrinários: 
 
“O Santo, porém, prova com ótima e farta argumentação que neste mundo não faltam os perigos de pecar, mas não subsistirão depois desta vida. E aduz como testemunho as palavras do livro da Sabedoria: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar (Sb 4,11). Este argumento aduzido também por mim, nossos irmãos não aceitaram, conforme dissestes, por ter sido tomado de um livro não canônico, como se, à parte deste livro, a doutrina que quisemos ensinar não fosse bastante clara. Qual o cristão que se atreve a negar que o justo estará em descanso, quando for arrebatado pela morte? Que pessoa de fé ortodoxa pensaria o contrário de quem isto afirmasse? Do mesmo modo, se alguém disser que um justo, violando a santidade na qual perseverou por longo tempo e falecendo na impiedade, na qual viveu não digo um ano, mas um dia, não incorreria nas penas devidas aos réprobos, de nada lhe aproveitando os méritos passados (Ez 18,24), qual o fiel que se oporia a esta verdade tão evidente? Além disso, se nos perguntassem se este justo falecesse enquanto praticava a justiça, se incorreria nas penas devidas aos condenados ou encontraria o descanso, não responderíamos sem hesitação que estaria no descanso? Esta é a razão que levou alguém a dizer, seja quem for: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar” (Da Justificação dos Santos, Cap.14)  
 
Note que o próprio Agostinho reconhece que “os nossos irmãos não aceitaram... por ter sido tomado de um livro que não é canônico. Ou seja, ele admite que o livro de Sabedoria (de onde ele tirou aquela citação) não era canônico! Então, para continuar sustentando o seu argumento, ele não apela a tentar provar que o livro de Sabedoria estava no cânon (porque ele mesmo admite que não estava), mas tenta demonstrar pela lógica e por uma alusão ao livro canônico de Ezequiel que o argumento dele estaria correto, “seja de quem for”.  
 
Este “seja de quem for” mostra que Agostinho não se preocupava se aquela citação em especial partia de um livro canônico ou não-canônico, porque o que ele sustentava estava apoiado não meramente por aquela citação, mas por outras “bastante claras”. Ele rebate as declarações de que “a parte deste livro [não-canônico], a doutrina que queremos ensinar não é bastante clara [nos livros canônicos]”  
 
Ou seja, que a citação dele era “de um livro não canônico”, mas isso não invalidava o seu argumento, pois aquela doutrina era sustentada por outras passagens que partiam de livros legitimamente canônicos! Mais do que isso, vemos também a confissão de que aqueles que Agostinho chama de “nossos irmãos” também não admitiam a canonicidade do livro de Sabedoria.  
 
Estes“irmãos”, que Agostinho escreve, tratam-se de cristãos, e não judeus, pois o termo “irmãos” era constantemente aplicado aos irmãos da fé (outros cristãos) e o próprio livro que ele escrevia não era direcionado à comunidade judaica, mas à cristã. Portanto, além de termos o reconhecimento de que tal livro não pertencia ao cânon bíblico, temos também a confirmação de que Agostinho reconhecia que os cristãos não aceitavam a canonicidade dos apócrifos.  
 
A segunda evidência que temos vem do livro “A Cidade de Deus”, de sua própria autoria, onde ele escreve que os livros dos Macabeus não se encontravam nas Santas Escrituras, mas em outros escritos, que são aceitos pelos cristãos pelo uso eclesiástico deles:  
 
“Desde o tempo da restauração do templo entre os judeus já não houve reis, mas príncipes, até Aristóbulo. O cálculo do tempo destes não se encontra nas Santas Escrituras chamadas canônicas, mas em outros escritos, entre os quais estão os livros dos Macabeus (A Cidade de Deus, XVIII:36)  
 
Na continuação desta passagem vemos Agostinho afirmando que tais livros eram “recebidos pela Igreja por causa dos terríveis e admiráveis sofrimentos desses mártires” (ibid). É claro que Agostinho não estava alegando que por causa dos relatos de martírios registrados naqueles livros significa que eles faziam parte do cânon bíblico autoritativo (para formação de doutrina) no mesmo grau de igualdade dos demais livros, pois, se fosse assim, o “Livro dos Mártires” (de Foxe) deveria estar no cânon.  
 
Na verdade, o sofrimento dos mártires presentes nestes livros era um argumento para a “canonicidade” no sentido eclesiástico de tais livros (conforme concebia Agostinho), mas não em sentido inspirado ou autoritativo, pois ele próprio admitiu que eles não faziam parte do cânon (Da Justificação dos Santos, XIV). Entender essa diferença é fundamental para percebermos o posicionamento de Agostinho sobre o tema, que não era o mesmo dos católicos atuais.
 
Havia confusão acerca do termo "canônico", que em sentido estrito costumava reservar-se para os livros considerados inspirados e santos de maneira singular, mas que com frequência se referia a toda a coleção, incluindo os eclesiásticos. Foi neste último sentido que Agostinho listou os livros "canônicos", ou seja, listou todos os livros que eram lidos na igreja.
 
A pessoa que não entende essa diferenciação feita por Agostinho jamais conseguirá compreender a distinção feita pelo cardeal Caetano e nem tampouco explicar as declarações do próprio Agostinho nas vezes em que ele afirma que estes mesmos livros “não eram canônicos” ou que não possuíam qualidade autoritativa para formação de doutrina.   
 
Agostinho usou o termo "canônico" num sentido mais amplo, isto é, não apenas para referenciar os livros do cânon das Sagradas Escrituras mas  também os livros que eram lidos na igreja para edificação que não pertenciam ao cânon das Sagradas Escrituras
 
Os livros canônicos admitidos para formação de doutrina eram os 66 presentes nas Bíblias protestantes, sendo que os sete livros acrescentados pela Igreja Romana estavam no “cânon” no sentido de poderem ser lidos para uso eclesiástico, para edificação em reconhecimento do sofrimento dos mártires e usando o sentido “canônico” como sendo relacionado a toda coleção que incluía os livros eclesiásticos.  
 
Este sentido abordado por Agostinho, embora seja distinto de outros Pais que rejeitaram prontamente os apócrifos, ainda está muitíssimo longe de chegar perto do conceito que os católicos têm hoje sobre os sete livros, que são usados por eles para a formação de doutrina e em sentido autoritativo, inspirado e canônico como os outros 66 livros. Que Agostinho reconhecia isso, basta vermos algumas declarações dele sobre isso: 
 
“Não faltam obras eclesiásticas – sem contar as Escrituras canônicas, salutarmente colocadas no ápice da autoridade – por cuja leitura um homem bem dotado pode penetrar, além de seu conteúdo, no estilo das mesmas” (A Doutrina Cristã, Livro IV, Cap.4) 
 
Agostinho reconhece as Escrituras como sendo o “ápice da autoridade” na Igreja (outro sentido que se perdeu com o passar do tempo, quando a tradição não-Escriturística passou a ter igual reconhecimento ou até maior!), mas para deixar claro que como o ápice de autoridade ele reconhecia somente os escritos considerados canônicos, ele escreve “Escrituras canônicas, sendo que tal distinção seria insignificante no caso de todas as Escrituras serem consideradas canônicas por eles.   
 
Fato é que o termo “Escrituras” era usado por Agostinho em dois sentidos: no uso eclesiástico (onde abrangiam os apócrifos) e no uso canônico (onde os apócrifos não fazem parte). Isso explica o porquê que Agostinho chamava os apócrifos de “Escritura”, mas muitas vezes diferenciava e mencionava como autoridade somente as “Escrituras canônicas”, o que não incluía os apócrifos, mas os deixava de fora.   
 
Agostinho não podia considerar os apócrifos como sendo “Escritura canônica” para toda a Igreja porque nem toda a Igreja os considerava canônicos (como vimos, o próprio Agostinho reconhecia que os outros cristãos não aceitavam a canonicidade deles), e pelo critério do próprio Agostinho só podia ser considerada “Escritura canônica” aqueles livros que eram aceitos por toda a Igreja de modo majoritário:  
 
“Agora, a respeito das Escrituras canônicas, deve-se seguir o julgamento do maior número de igrejas católicas; e entre estas, é claro, um lugar de destaque deve ser dado ao que se achar digno de ser a sede de um apóstolo ou receber epístolas. Conseqüentemente, entre as Escrituras canônicas deve-se julgar de acordo com a seguinte regra: preferir aqueles que são recebidos por todas as igrejas católicas do que aqueles que alguns não recebem. Entre aqueles, novamente, que não são recebidos por todos, deve-se preferir aqueles que têm a sanção do maior número e daqueles de maior autoridade, do que aqueles que são recebidos pelo menor número e os de menos autoridade. Se, contudo, se achar que alguns livros são tidos pelo maior número de igrejas e outros pelas igrejas de maior autoridade (apesar de isto não ser algo muito provável de acontecer), eu acho que em tal caso a autoridade dos dois lados deve ser considerada igual” (NPNF1, Vol. 2, Agostinho, On Christian Doctrine, Livro II, Capítulo 8) 
 
Por isso, o máximo que Agostinho conseguiu fazer foi estabelecer o uso eclesiástico de tais livros no território que era do domínio dele como bispo (em Hipona e no norte da África de modo geral, que tinha a influência predominante de seu bispado ali), mas nunca para toda a Igreja, pois para isso deveria ter o consentimento dos bispos das outras dioceses cristãs, o que ele não tinha. 
 
Vários contemporâneos seus foram contra os apócrifos, como é o caso do próprio Jerônimo, e os doutores da Igreja que vieram depois dele preferiram dar muito mais honra a lista de Jerônimo na Vulgata do que aos dois concílios liderados por Agostinho (já vimos a declaração do cardeal Caetano e veremos dezenas de outros no próximo artigo da série).   
 
Sendo assim, a lista de Agostinho (que incluía tudo junto entre os livros considerados canônicos e os eclesiásticos) acabou sendo reduzida à lista de Jerônimo, que ganhou prioridade nos séculos seguintes, por inúmeras pessoas influentes na Igreja, tais como Gregório Magno, João Damasceno, Cassidoro, Isidoro de Sevilha, Ricardo de São Vítor, Pedro Celênsio, Rupert de Deutz, Honório de Autun, Pedro Comestor, Pedro Maurício, Adam Scotus, Hugo de Santa Cher, Filipe de Harvengt, Nicolas de Lyra, William de Ockham, Cardeal Caetano, Primásio, Gregório o Grande, O venerável Beda, Agobardo de Lion, Alcuin, Walafrid Strabo, Haymo de Halberstadt, Ambrósio de Antuérpia, Radulfo Flavicêncio, Hugo de São Vítor, Ricardo de São Vítor, João de Salisbury, Pedro Celêncio, Antonino, Alonso Tostado e muitos outros. 
 
Que a lista de Jerônimo na Vulgata – que deixava os apócrifos de fora e não os considerava como fonte doutrinária – era considerada em muito maior relevância para os próprios católicos romanos da época de Lutero do que os dois concílios africanos nos quais eles se apoiam hoje, fica muito evidente a partir da citação do cardeal Tomás de Vio (1469 - 1534), canonizado pela própria Igreja Católica, e que disse:
 
"Já que recebemos a regra de Jerônimo, não erremos na separação dos livros canônicos (pois aqueles que ele entregou como canônicos os sustentamos como tais, e aqueles que ele separou dos livros canônicos os consideramos fora do cânon)" (Caetano, Comentário sobre a Epístola aos Hebreus)
 
Portanto, os próprios doutores da Igreja Católica que antecederam Lutero não seguiam a lista de Hipona e Cartago, mas sim a de Jerônimo na Vulgata Latina, o que apenas reforça tudo aquilo que vimos que Jerônimo afirmou na Vulgata contra os apócrifos usados pela Igreja Romana.
 
Em segundo lugar, e que serve para validar o argumento acima (de que Agostinho também distinguiu entre livros canônicos e eclesiásticos, embora também usasse o termo “canônico” ao se referir a toda coleção de livros lidos, incluindo os eclesiásticos), é o fato de que a lista de Agostinho não é a mesma do Concílio de Trento e aceita pelos católicos romanos  
 
A lista proposta por Agostinho, que incluía os livros eclesiásticos, que é a mesma de Hipona e Cartago (sínodos locais liderados por ele), incluía o livro de 1ª Esdras (pela Septuaginta), que não corresponde exatamente ao Esdras-Neemias que era 1ª Esdras na Vulgata Latina de Jerônimo. Agostinho usava a versão Antiga Latina, que incluía 1ª Esdras e por isso na lista dele inclui este livro que não é aceito pela Igreja Romana atual.  
 
A decisão do Concílio de Cartago foi a seguinte:  
 
Ora, as Escrituras canônicas são: Genesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Jesus Navé[Josué],Juízes, Rute, quatro livros dos Reis, dois livros dos Paralipômenos, Job, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão (Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Sabedoria, Eclesiástico), doze livros dos profetas, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras, dois livros dos Macabeus” (Cânon 36 ou 47)  
 
Note que o Concílio de Cartago, que os católicos dizem que possui a mesma lista proposta pelo Concílio de Trento, inclui dois livros de Esdras. Na Antiga Latina (versão usada por Agostinho), o livro de 1ª Esdras era um livro apócrifo que falava sobre o retorno de Zorobabel e sobre outros assuntos retirados das Crônicas e do Esdras canônico.   
 
Os concílios de Hipona e Cartago, a exemplo de Agostinho, admitiram este livro no seu cânon. Mas, na Vulgata Latina (feita por Jerônimo e usada como referência pelo Concílio de Trento), 1ª e 2ª Esdras correspondia a Esdras e Neemias, enquanto o 1ª Esdras de Cartago encontrava-se na Vulgata como sendo 3ª Esdras. Ryle mostra as diferenças históricas nos livros de Esdras como representados na Septuaginta e na Vulgata, dizendo:  
 
“Nas listas do Velho Testamento que incluem os livros apócrifos, um elemento de confusão é causado pelo 'Esdras' apócrifo, nosso Primeiro Livro de Esdras. Na versão LXX, a Velha Latina e o Siríaco, este livro apócrifo grego foi colocado, com respeito provavelmente à cronologia, antes do Esdras hebraico, e foi chamado de Primeiro de Esdras... enquanto que nosso Esdras e Neemias apareciam como um livro, com o título de Segundo de Esdras. Em sua tradução da Vulgata, Jerônimo não reconheceu a canonicidade dos livros Apócrifos. Ele traduziu o Esdras hebraico (nosso Esdras e Neemias) como um livro com o título de Esdras; mas ele se submeteu à divisão do canônico Esdras em dois livros, pois ele fala dos livros apócrifos como terceiro e quarto de Esdras... Na Vulgata, consequentemente, Esdras e Neemias foram chamados de Primeiro e Segundo de Esdras; o apócrifo grego Esdras foi chamado de Terceiro de Esdras; a obra apocalíptica, o Quarto de Esdras... A influência da Vulgata fez os nomes aplicados aos livros naquela versão serem geralmente adotados no Oeste. No concílio de Trento, Esdras e Neemias foram chamados 'o primeiro livro de Esdras e o segundo de Esdras que é chamado de Neemias’” (Herbert Edward Ryle, Ezra and Nehemiah, Cambridge: Cambridge University, 1907, págs. 13, 14)  
 
A própria Enciclopédia Católica reconhece o fato de que existiam quatro livros atribuídos a Esdras e que o 1ª Esdras da Septuaginta e da Antiga Latina (usada no Concílio de Cartago) era um livro distinto do 1ª Esdras da Vulgata Latina de Jerônimo (usada pelo Concílio de Trento para formar os livros que os católicos atribuem canonicidade nos dias de hoje). Sobre isso, ela diz:  
 
"Não pouca confusão surge dos títulos destes livros. Esdras A [= 1 Esdras] da Septuaginta é o 3 Esdras de São Jerônimo, enquanto que o Esdras B [= 2 Esdras] grego corresponde a 1 e 2 Esdras da Vulgata, os quais estavam originalmente unidos num livro. Os escritores protestantes, de acordo com a Bíblia de Genebra, chamam 1 e 2 Esdras da Vulgata respectivamente Esdras e Neemias, e 3 e 4 Esdras da Vulgata respectivamente 1 e 2 Esdras. Seria desejável contar com uma uniformidade de títulos” (s.v. Esdras (Ezra) em The Catholic Encyclopedia, vol 5, 1909)  
 
Fernando Saraví também afirmou: 
 
“Com efeito, há que ter em conta que os bispos do norte de África usavam por aquela época a tradução da Septuaginta conhecida como a Antiga Latina, ou Ítala. E como naquele tempo os códices da Septuaginta incluíam outros livros além dos pertencentes ao cânon hebreu, não é estranho que os incluíssem entre os livros canônicos. No entanto, os dois livros de Esdras de que fala Cartago não são os mesmos a que se quis dar sanção canônica em Trento. Isto se explica por uma diferença entre as versões Antiga Latina e a Vulgata de Jerônimo... o Concílio de Trento na verdade deixou fora do seu Cânon um livro que tinha sido sancionado como canônico em Cartago. Devido a este erro, os cânones de Trento e de Cartago não são de fato iguais entre si no que ao Antigo Testamento diz respeito”  
 
Portanto, a lista de Agostinho, que é a mesma admitida nos Concílios de Hipona e de Cartago, não é a mesma aceita pelo Concílio de Trento, como os apologistas católicos inutilmente argumentam há séculos, tentando passar adiante um argumento falido e ultrapassado de que o Concílio de Trento não inovou nada, mas apenas reiterou aquilo que já era crido na época. Como estamos vendo até aqui e como veremos mais adiante, o que o Concílio de Trento mais fez foi inovar  
 
Ele contradiz todos os Pais da Igreja que sempre rejeitavam a canonicidade dos apócrifos e que no máximo os admitiam para uso eclesiástico, ele contradiz os inúmeros doutores da Igreja de séculos posteriores que adotaram a lista de Jerônimo e não a de Cartago/Hipona, e, por fim, ele contradiz até mesmo o próprio Agostinho e os próprios concílios que eles dizem que seguem, pois rejeitaram um livro que era considerado canônico por estes dois sínodos locais, por ter uma passagem fortemente contra a oração pelos mortos. 
 
Aliás, é engraçado vermos que na transcrição da decisão do III Concílio de Cartago na obra de Denzinger (#92, p. 35) se omite a menção aos dois livros de Esdras, porque eles mesmos reconheciam tal discrepância! Tal diferença aparentemente pode passar batida por leigos, mas é facilmente desmascarada pelos estudiosos da área.   
 
E, para fechar o caixão, o Concílio de Trento contradisse também o próprio papa Inocêncio I (e muitos outros) que tinham aderido à lista do Concílio de Cartago baseando-se na Septuaginta. Portanto, como bem podemos observar:  
 
1. O Concílio de Trento tanto “inovou” que não fez nada além de contradizer todos os Pais da Igreja, os Doutores da Igreja, os próprios papas e os concílios que eles dizem seguir! 
 
2. Agostinho não reconhecia os apócrifos no mesmo nível de canonicidade dos demais livros que são aceitos pelos judeus; reconhece que não faziam parte do cânon; reconhece que os irmãos (cristãos) também não reconheciam; não os admitia para formação de doutrina e fazia uma diferença entre os livros canônicos e os de uso eclesiástico, embora tal diferença muitas vezes ficasse omitida pelo fato de que o termo “canônico” era muitas vezes aplicado por Agostinho para referir-se a toda a coleção de livros que eram lidos na Igreja, seja para edificação ou para a formação de doutrina.  
 
3. Os concílios de Cartago e de Hipona, além de serem sínodos locais que eram considerados de muito menor autoridade do que a lista proposta e admitida por Jerônimo (que não contava os apócrifos), ainda por cima admite um livro que não é aceito por Trento nem pelos católicos atuais. Isso revela que Agostinho considerava “canônico” (no sentido de poder ser lido na Igreja) qualquer livro tido em alto respeito pela Septuaginta, e que, por conta dessas discrepâncias e divergências, o apelo aos concílios africanos e a Agostinho de Hipona não passa realmente de mera apelação totalmente infundamentada. 
 
 
-Os 85 Cânones Apostólicos e o Concílio de Laodiceia (375 e 390 d.C)  
 
Como os papistas adoram citar os concílios regionais de Hipona e Cartago como suposta “prova” a favor da canonicidade dos livros apócrifos (o que já foi destronado aqui e que será ainda mais esmiuçado em meu artigo de Refutações), penso que seja benéfico para eles mostrar que existiram também outros sínodos locais naquela mesma época, e que em sua grande maioria negavam a canonicidade dos apócrifos.  
 
Em outras palavras, o que irei mostrar a partir dos 85 Cânones Apostólicos e do Concílio de Laodiceia é somente o fato óbvio e que deveria já ser sabido por todos os romanistas: que a decisão de Hipona e Cartago refletiu apenas a posição predominante naquela época e naquela região no norte da África, e não algo ecunêmico que transparecesse de alguma forma o pensamento de toda a Igreja de modo geral. 
 
Isso fica ainda mais claro quando constatamos que os outros concílios (do mesmo tipo daqueles que os católicos alegam para si com base nos sínodos africanos, isto é, autoridade local e não ecunêmica) que foram feitos na segunda metade do século IV colocavam, em sua maioria, os apócrifos de fora da lista. Iremos começar com os “85 Cânones dos Apóstolos”, que é uma coleção de oito tratados cristãos do gênero das “Ordens cristãs”.  
 
O 47º capítulo do 8º livro das Constituições Apostólicas contem os “85 Cânones dos Apóstolos”, que se apresentam como provindo de um concílio em Antioquia. Tais cânones foram depois aprovados pelo Concílio Quinissexto (Concílio In Trullo) em 692 d.C. O cânone de número 85 é uma lista dos livros canônicos do Antigo Testamento, onde é deixado de fora os livros apócrifos de Tobias, Baruque, Judite, Sabedoria e Eclesiástico: 
 
“Para todos vocês, clérigos e leigos, que sejam tidos por veneráveis e sagrados os seguintes livros: Os do Antigo Testamento: Os cinco de Moisés (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio); Josué, Juízes, Rute, os quatro dos Reis, dois das Crônicas, dois de Esdras, um de Ester, três dos Macabeus, um de Jó, um dos Salmos, três de Salomão (Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos), doze dos Profetas; um de Isaías, um de Jeremias, um de Ezequiel, um de Daniel. Além destes, está permitido adicionar a Sabedoria de Siraque para ensinar aos jovens” (Os 85 Cânones dos Apóstolos)  
 
A “Sabedoria de Siraque” é colocada de lado como “permitida” somente para “ensinar aos jovens”, o que demonstra que está ali como uso eclesiástico e não como uso autoritativo. No demais, vemos todos os livros aceitos pelos judeus, deixando todos os apócrifos de fora com exceção dos Macabeus.  
 
Ainda assim, vemos que eles aceitavam três dos Macabeus”, sendo que os católicos só aceitam dois livros dos Macabeus. Em outras palavras, o cânon expresso confirma todos os livros aceitos pelos protestantes e coloca de fora Tobias, Baruque, Judite, Sabedoria e Eclesiástico, deixando apenas os Macabeus, mas incluindo 3ª Macabeus, que é rejeitado pelo Concílio de Trento! 
 
Poucos anos mais tarde, ocorreu também o Concílio de Laodiceia, que foi outro sínodo regional que reuniu aproximadamente trinta clérigos da Ásia Menor. Suas decisões entraram na Síria, em Constantinopla e no Ocidente, sendo aprovado pelo papa Leão IV (847 – 855) e adicionado no Código de Direito Canônico. Além disso, teve seus cânones confirmados pelo Concílio de Calcedônia (Art. 15, de can. 1, Labb. Conc. IV, Paris, 1671), que foi um concílio ecunêmico. Neste concílio, temos a seguinte lista de livros do Antigo Testamento: 
 
Estes são todos os livros do Antigo Testamento nomeados para serem lidos: 1, Genesis do mundo; 2, O Êxodo do Egito, 3, Levítico, 4, Números, 5, Deuteronômio, 6, Josué, filho de Num, 7, Juízes, Rute, 8, Esther, 9, Dos Reis, Primeira e Segunda, 10, dos reis, Terceira e Quarta, 11, Crônicas, Primeiro e Segundo, 12, Esdras, Primeiro e Segundo, 13, O Livro dos Salmos ; 14, Os Provérbios de Salomão, 15, Eclesiastes, 16, O Cântico dos Cânticos, 17, Jó; 18, Os Doze Profetas, 19, Isaías, 20, Jeremias e Baruque, Lamentações, 21, Ezequiel ; 22, Daniel” (Cânon 60 do Concílio de Laodiceia)  
 
O Concílio de Laodiceia lista todos os livros aceitos pelos evangélicos e deixa de fora os seguintes livros aceitos por Trento: 
 
1. 1ª Macabeus 
2. 2ª Macabeus 
3. Sabedoria 
4. Eclesiástico
5. Tobias 
6. Judite  
 
Portanto, se a vontade dos católicos é “atacar” com meros sínodos locais realizados no norte da África como se fossem válidos para toda a Igreja e como se refletissem todo o pensamento do Oriente e do Ocidente durante séculos de Cristianismo, estamos dispostos a abrir as portas para os outros concílios regionais que foram realizados por volta da mesma época e que deixaram de fora a grande maioria dos livros hoje aceitos por eles!  
 
 
-Gregório Magno (540 – 604 d.C) 
 
Outro “papa” que se posicionou contra a lista emitida no Concílio de Trento foi Gregório Magno (sim, é aquele mesmo que negou o título de pontífice universal por ser um “nome de blasfêmia” e “precursor do anticristo”), que os católicos romanos dizem ser o 64ª papa da Igreja de Roma, sendo também considerado um Doutor da Igreja e um Padre latino. 
 
Mas, como coerência é o que menos falta no catolicismo, mesmo depois de publicado o decreto de Gelásio ele preveniu os seus leitores que “não se estranhassem a citação de livros que não eram canônicos”“si ex libris licet non canonicis”– citando como exemplo um texto dos Macabeus.  
 
Gregório Magno reconhece que a aceitação dos apócrifos não era na qualidade de igualdade com os demais livros presentes originalmente na Bíblia cristã/judaica do AT (o que iria contradizer todos os Pais da Igreja que vieram antes dele), mas que foram somente outorgados para a edificação da Igreja, e não para a formação de doutrina: 
 
“Em relação a tal particular não estamos a atuar irregularmente, se dos livros, ainda que não canônicos, no entanto outorgados para a edificação da Igreja, extraímos testemunho. Assim, Eleázar na batalha feriu e derribou o elefante, mas caiu debaixo da própria besta que tinha matado [1 Macabeus 6:46]” (Library of the Fathers of the Holy Catholic Church, 2:424)  
 
Ele faz uma citação do apócrifo de 1ª Macabeus e afirma que, embora ele cite aquele livro, não o faz por ele ser canônico, mas só porque está outorgado para a edificação da Igreja, como cria boa parte dos Pais. Ele reconhece que o livro que ele estava extraindo testemunho não era canônico, algo que não seria feito no caso daquele livro ser considerado por todos os cristãos como sendo canônico e inspirado, em pé de igualdade com os demais livros.  
 
Se fosse este o caso, não precisaria de qualquer explicação, assim como não teria dito que o livro não estava no cânon e não precisaria ter falado que era somente para edificação. Para ele, citar livros que não são canônicos não era sinônimo de “atuar irregularmente”, porque, embora eles não fossem inspirados (canônicos), poderiam ser usados para edificação. Lorraine Boettner escreve sobre a posição do papa Gregório e de outros de épocas posteriores sobre este assunto:  
 
“O papa Gregório, o grande, declarou que primeiro Macabeus, um livro apócrifo, não é canônico. Nessa exata época (da Reforma) o cardeal Caetano, que se opusera a Lutero em Augsburgo, em 1518, publicou Comentário sobre todos os livros históricos fidedignos do Antigo Testamento, em 1532, omitindo os apócrifos. Antes ainda desse fato, o cardeal Ximenes havia feito distinção entre os apócrifos e o cânon do Antigo Testamento, em sua obra Poliglota com plutense (1514-1517), que por sinal foi aprovada pelo papa Leão X. Será que estes papas se enganaram? Se eles estavam certos, a decisão do Concílio de Trento estava errada. Se eles estavam errados, onde fica a infalibilidade do papa como mestre da doutrina? Tendo em mente essa concepção, os protestantes em geral rejeitaram a decisão do Concílio de Trento, que não tivera base sólida(Lorraine Boettner, in Catolicismo Romano) 
 
O que foi exposto acima é a mais dura realidade. Como estes papas rejeitaram os apócrifos que foram aprovados dogmaticamente em Trento, só podemos conjecturar duas coisas: ou o papa erra em termos de fé e doutrina (pois o cânon bíblico é assunto relacionado à fé e doutrina) e neste caso a infalibilidade papal cai ladeira abaixo, ou então o Concílio de Trento (que eles também dizem ser infalível) é que falhou.  
 
De um jeito ou de outro, vemos que duas entidades “infalíveis” entram em discordância entre si em termos de fé e doutrina, o que somente pode significar que um dos dois não é tão “infalível” assim, ou o mais provável: nenhum dos dois é infalível! Como crer que duas entidades infalíveis se contradigam tão fortemente e mesmo assim continuam “infalíveis”? Só mesmo nas imaginações dos apologistas católicos que tem credulidade suficiente para continuarem nessa ilusão.  
 
 
-João Damasceno (675 – 749 d.C)  
 
João Damasceno foi um monge árabe cristão, considerado o maior teólogo de seu século, escrevendo a “Exposição da Fé Ortodoxa”, lançando as bases daquilo que hoje chamamos de “teologia sistemática”. Ele, além de afirmar que o cânon cristão é constituído de vinte e dois livros do Antigo Testamento, declara também que a Sabedoria de Salomão e o livro de Eclesiástico não são contados e nem foram admitidos no cânon:  
 
“Observa-se, ainda, que há vinte e dois livros do Antigo Testamento, um para cada letra do alfabeto hebraico. Há vinte e dois livros, dos quais cinco são duplos, e assim eles passam a ser vinte e sete. Pois as letras Caph, Mem, Nun, Pe e Sade são duplas. E, assim, o número de livros desta forma é vinte e dois, mas são encontrados vinte e sete por causa do duplo caractere de cinco. Pois Rute se une com Juízes, o primeiro e segundo livro de Reis são contados como um livro, assim como o terceiro e quarto livro dos Reis, e também o primeiro e segundo livro das Crônicas e primeiro e segundo de Esdras. Desta forma, os livros são reunidos em quatro Pentateucos e dois outros permanecem sobre eles, para formar, assim, os livros canônicos. Cinco deles são da Lei: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Este é o código da Lei, constituindo o primeiro Pentateuco. Em seguida, vem outro Pentateuco, o chamado Grapheia, ou, como são chamados por alguns, o Hagiographa, que são os seguintes: Josué, Juízes juntamente com Rute, primeira e segunda Reis, que são um livro, terceiro e quarta Reis, que são um livro, e os dois livros das Crônicas que são um só livro. Este é o segundo Pentateuco. O terceiro Pentateuco são os livros em versos: Jó, Salmos, Provérbios de Salomão, Eclesiastes de Salomão e o Cântico dos Cânticos, de Salomão. O quarto Pentateuco são os chamados livros proféticos, a saber os doze profetas constituem um livro. Em seguida temos Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel. Depois, vêm os dois livros de Esdras como um só, e Ester. Há também a Sabedoria de Salomão e a Sabedoria de Josué [=Eclesiástico], que foi publicado em hebraico pelo pai de Siraque, e posteriormente traduzido para o grego por seu neto, Josué, o filho de Siraque. Estes são nobres e virtuosos,mas não são contados e nem foram admitidos no cânon (An Exposition of the Orthodox Faith, Livro IV, Cap.17)
 
Essa exposição de João Damasceno deveria ressoar como uma trombeta pelos ouvidos daqueles que alegam aos quatro cantos da terra que os Concílios de Hipona e Cartago que definiram o cânon do Antigo Testamento e que nas vezes em que alguém afirmava o cânon de 22 livros estava apenas a falar do cânon dos judeus. 
 
Sobre isso, a própria Nova Enciclopédia Católica reconhece o fato de que Gregório Magno (que vimos anteriormente), João Damasceno e outros nomes de prestígio na Igreja continuaram desacreditando na inspiração dos “deuterocanônicos” mesmo depois dos concílios que ocorreram no final do século IV:  
 
João de Damasco, Gregório o Grande, Walarid, Nícolas de Lira e Tostado continuaram a duvidar da canonicidade dos livros deuterocanônicos (New Catholic Encyclopedia, Vol. II, Bible, III (Canon), pág. 390; Cânon, Bíblico, pág. 29; Bíblia, III (Cânon), pág. 390) 
 
João Damasceno declara sua rejeição à canonicidade dos apócrifos mais de três séculos depois de Hipona/Cartago(!), declara categoricamente que estava a expor o cânon cristão (e não a repetir um cânon judaico ou a refutá-lo), e afirma, por fim, que os livros apócrifos de Sabedoria e Eclesiástico, embora fossem virtuosos, não foram admitidos no cânon pelos cristãos.  
 
Ou seja, eles reconheciam tais livros, mas não como fazendo parte do cânon bíblico, que todos os Pais da Igreja que conhecemos reduziam ao número de vinte e dois. Se estes livros aceitos pela Igreja de Roma “não foram admitidos” entre os cristãos daquela época, quer dizer que a porta estava fechada para eles.  
 
Mas, para a nossa alegria, o Concílio de Trento abriu a porta para eles, aceitando-os como canônicos, inspirados, autoritativos, não somente eclesiásticos, mas para formação de doutrina. E haja doutrina que formaram em cima deles! Afinal, era necessário justificar as palhaçadas que eram feitas em cima da lenda do purgatório, da venda de indulgências e de outras atrocidades na Idade Média feitas unicamente para enganar o povo incauto e enriquecer os cofres da apóstata Roma.  
 
Quando Lutero e os demais Reformadores começaram a destruir com essas aberrações à luz da Bíblia, não coube outra saída aos clérigos romanos senão o de abrir as portas para receberem estes livros que durante séculos não eram usados para formarem doutrina, mas que desde então passaram a ser a referência necessária para justificar as heresias, aberrações, atrocidades e disparates contra a Verdade – e acharam nestes sete livros uma boa oportunidade de se justificarem.
 

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Por: Lucas Banzoli.

 

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