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CELIBATO E PEDOFILIA
CELIBATO E PEDOFILIA

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Que a pedofilia alcança níveis epidêmicos na Igreja Romana, é fato tão notório e manifesto que se torna assunto batido e até desmotiva que um blogueiro como eu volte a explanar o mesmo assunto tão universalmente conhecido. Se por acaso alguém esteve em Marte nas últimas décadas e não ficou sabendo dos acontecimentos, vou explicar: muitos, muitos padres abusam de criancinhas. É isso. Antes que alguém venha alegar que “pedofilia existe em todo lugar”, vamos aos dados:

 

• Em relação apenas aos Estados Unidos, um estudo-relatório de 2004 elaborado por professores da Faculdade John Jay de Justiça Criminal revelou entre no período entre 1952 e 2002, mais de dez mil crianças foram abusadas por padres (10.667, para ser preciso).

 

• Este está longe de ser o número total de casos em que uma criança foi abusada por um padre, mas diz respeito somente aos casos em que os pais de fato processaram os líderes da Igreja Católica. Qualquer criatura do mundo sabe que a esmagadora maioria destes casos nem sequer são descobertos. Se mais de dez mil é o que está na “ponta do iceberg”, imagine o quanto está embaixo d’água!

 

• As dioceses católicas, tentando proteger os padres pedófilos (é claro), estão dispostas a admitir “apenas” 6.700 destes casos (o que ainda continua sendo um número alarmante!). Muitas vezes a Igreja Católica transfere os padres pedófilos de uma para outra diocese para não serem pegos pela Justiça. E lembre-se: isso é somente o número de casos descobertos e reconhecidos pela Igreja em um único país e dentro apenas dos últimos anos. Um relatório mais amplo e abrangente seria ainda mais abominável. O SNAP (Survivors Network of Those Abused by Priest) argumentou que estes números, embora grandes, foram muito pequenos se comparados com as suas descobertas.

 

Como a Igreja Católica explica ou rebate a pedofilia epidêmica em seu próprio clero? Basicamente, fazendo a mesma coisa que o PT sempre faz em relação à corrupção. Quando você fala sobre corrupção a um petista de carteirinha, citando casos como o mensalão ou o petrolhão, ele tem uma resposta-padrão pronta, na manga, para responder ao oponente: “Os outros partidos também roubam!”. Então, se os outros partidos também roubam, está “ok” o PT roubar também. Afinal, “corrupção existe em todo lugar”, então vamos ficar quietos e bola pra frente.

 

A Igreja Católica faz exatamente a mesma coisa, mas em relação à pedofilia. Alguns padres desonestos, como o embusteiro Paulo Ricardo, em seus contorcionismos para tentar camuflar a pedofilia epidêmica do clero, manipula os dados sem a menor vergonha na cara (omitindo os casos dos EUA e mostrando apenas os da Itália, por exemplo), e então compara com o tanto de abusos cometidos por professores de Educação Física na Itália, que supostamente teria sido maior do que a quantidade de abusos cometidos por padres naquele mesmo país. Também compara com os abusos cometidos por soldados da missão de paz no Congo em 2006, que naquele período teriam abusado de mais criancinhas do que a média dos padres. Então você já percebe que o nível moral dos caras é realmente uma lástima, uma podridão, nivelado por baixo, na lama. Comparam com aquilo que há de pior, para depois se passarem por “santos”. Qualquer ser humano com massa encefálica consegue desmascarar o truque desses charlatões.

 

Mas se a pedofilia na Igreja Romana é algo real, e não uma fantasia inventada pela mídia golpista-conspiracionista-anticatólica para acabar com a “Igreja de Cristo”, então ela precisa de explicação. Não é possível que não haja resposta para o porquê que tantos padres estão sempre tão dispostos a abusar de criancinhas, como se isso fosse uma doutrina oficial da Igreja ou quase um pré-requisito para ser padre. A explicação não pode ser um vácuo ou uma lacuna, tem que ser algo consistente. E eu me recuso a lançar essa explicação para as costas do diabo, com saídas simples do tipo: “essa religião é do diabo, então...”. Ainda mais porque existem muitas outras “religiões do diabo”, e seus líderes não possuem tantos escândalos de pedofilia como ocorre na #ICAR. Então a explicação precisa ser outra, mais racional. O “diabo” apenas não serve.

 

Se a minha opinião vale, os escândalos epidêmicos de pedofilia no Vaticano estão diretamente relacionados com o celibato obrigatório do clero. A Igreja Romana é a única igreja do planeta que coloca o celibato como um requisito prévio para ser papa – nas igrejas evangélicas e nas ortodoxas, o celibato é opcional. De que modo que ele acaba contribuindo para o aumento nos casos de pedofilia? É simples. À luz da Bíblia, existem pessoas chamadas para o celibato e existem pessoas chamadas ao sacerdócio, mas são dois grupos distintos, ou seja, há muitas pessoas chamadas para o sacerdócio e que não foram chamadas para o celibato, e também há muitas pessoas chamadas para o celibato e que não foram chamadas para o sacerdócio (embora em alguns casos haja pessoas que possuam ambos os chamados, mas é exceção à regra geral).

 

Deixe-me explicar isso, começando pelo sacerdócio. Indiscutivelmente, há pessoas que tem o dom da palavra, que foram chamadas ao ministério sacerdotal. No entanto, à luz das Escrituras, essas pessoas não necessariamente foram também chamadas ao celibato, isto é, elas não possuem ao mesmo tempo este outro “dom”. Vemos isso por toda parte na Bíblia. Pedro era com certeza vocacionado ao ministério, mas ele tinha sogra (Mt.8:14), o que presume que ele tinha esposa. Além disso, Paulo em 1ª Coríntios 9:5 diz que não apenas Pedro, mas também os outros apóstolos e irmãos de Jesus em geral tinham uma esposa e a levavam em suas viagens no ministério.

 

Clemente de Alexandria (150-215 d.C) confirmou este fato histórico dizendo:

 

“Clemente, cujas palavras acabamos de ler, em seguida ao que foi dito anteriormente e por causa dos que rechaçam o matrimônio, dá-nos uma lista dos apóstolos que comprovadamente foram casados e diz: ‘Ou também vão desaprovar os apóstolos? Porque Pedro e Filipe criaram filhos; e mais, Filipe deu maridos a suas filhas”[1]

 

Como vemos, Clemente também cita como exemplo o caso do evangelista Filipe, que era casado e tinha “quatro filhas virgens, que profetizavam” (At.21:9). Clemente cita ainda que Pedro estava junto com sua esposa quando ela foi martirizada (o que também prova que a esposa de Pedro ainda vivia quando este já era cristão, e continuou com ele por boa parte da vida):

 

"Conta-se pois que o bem-aventurado Pedro, quando viu que sua própria mulher era conduzida ao suplício, alegrou-se por seu chamamento e seu retorno para casa, e gritou forte para animá-la e consolá-la, chamando-a por seu nome e dizendo: ‘Oh, tu, lembra-te do Senhor!’. Assim era o matrimônio dos bem-aventurados e a perfeita disposição dos mais queridos”[2]

 

Como vemos, os apóstolos tinham matrimônio, e isso não era visto como se fosse algum problema na Igreja primitiva. Quando Paulo mandou Timóteo estabelecer bispos na Igreja, ele não fez nenhuma questão de dar preferência aos que não tinham mulher. Ao contrário: disse que poderiam ter “uma só mulher”, e tinham que cuidar bem dos seus filhos:

 

“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?), não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo” (1ª Timóteo 3:1-7)

 

Fica claro, portanto, que o chamado ao ministério não está atrelado ou vinculado com a necessidade de ser celibatário, sob uma perspectiva bíblica.

 

Há também o segundo grupo, daqueles que tem um chamado para o celibato. Paulo fala sobre eles em 1ª Coríntios 7, e parece se incluir neste grupo também (embora alguns digam que Paulo era viúvo, o que é discutível). De qualquer forma, ele diz:

 

“Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio. Digo isso como concessão, e não como mandamento. Gostaria que todos os homens fossem como eu; mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas: é bom que permaneçam como eu. Mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se, pois é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo” (1ª Coríntios 7:5-9)

 

Paulo diz que cada um tem seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, e outro de outro. No contexto está claro que ele se refere à questão do matrimônio. O texto sugere que alguns têm o “dom” ou o chamado para o celibato, e isso significa que essas pessoas não têm o desejo natural de se casar, de ter uma esposa, filhos ou mesmo pelo próprio sexo em si. As pessoas que tem este tipo de dom simplesmente não sentem necessidade disso, e conseguem viver perfeitamente bem sozinhas. Paulo sugere que gostaria que todos tivessem esse tipo de dom, mas então faz um adendo:

 

“...mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se, pois é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo” (v.9)

 

Isso faz coro ao que ele já havia afirmado no início do capítulo:

 

“Quanto aos assuntos sobre os quais vocês escreveram, é bom que o homem não toque em mulher, mas, por causa da imoralidade, cada um deve ter sua esposa, e cada mulher o seu próprio marido (1ª Coríntios 7:1-2)

 

Está perfeitamente claro que não são todos que tem o chamado ou vocação ao celibato. A grande maioria das pessoas simplesmente não tem este dom, e não adianta nada tentar forçá-las na marra a serem celibatárias quando elas não foram vocacionadas a isso. Tentar forçar alguém a ser celibatário quando este alguém não tem esse chamado é como tentar transformar água em vinho, ou como tentar fazer com que um estudante de humanas comece a gostar muito de exatas e se torne craque em matemática. Simplesmente não funciona. Não dá certo. Nem tente.

 

Paulo sabia disso perfeitamente bem. Ele sabia que a esmagadora maioria das pessoas que estavam lendo sua carta não tinha vocação nenhuma ao celibato. Tais pessoas tinham naturalmente o desejo carnal por sexo, e é por isso que ele diz que por causa da imoralidade cada um deveria ter sua própria esposa (v.2), que deveriam cumprir os “deveres conjugais” (v.3), que não deveriam se recusar sexualmente um ao outro (v.5), e ressalta que isso era uma concessão necessária (v.6) para não cair na imoralidade, porque “é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo” (v.9). Em outras palavras, a saída para quem não tem o chamado ao celibato é o sexo natural com a esposa, dentro do contexto matrimonial e sob a bênção de Deus. Esta é a forma pela qual o desejo sexual é satisfeito sem estar incorrendo em pecado de imoralidade.

 

Se alguém não tem o chamado ao celibato, mas vive forçosamente em celibato assim mesmo (i.e, proibido de ter uma esposa e ter uma vida conjugal com ela), acontece exatamente aquilo que o apóstolo Paulo mais temia: a imoralidade. Em outras palavras, como aquelas pessoas têm um enorme desejo sexual, mas não podem satisfazer este desejo de forma saudável e correta dentro do casamento, elas acabam procurando outros meios de satisfazer este desejo interno, e é aí que começa o problema.

 

Há poucos anos o TorrentFreak rastreou todos os maiores pontos de acesso à pornografia do mundo e chegou a um lugar bastante “improvável”: o Vaticano. De acordo com a CBS News:

 

“A maioria dos arquivos baixados no Vaticano era de filmes pornográficos. Filmes como ‘Os Vizinhos’, ‘Toque’ e ‘Lea Lexis and Krissy Lynn’ aparecem tendo sido baixados pela ‘Holy See - Vatican City State’ (Santa Sé - Vaticano). A maioria desses filmes tem como tema os fetiches sexuais de submissão, dominação, sadismo e masoquismo”[3]

 

Entretanto, chega uma hora em que os padres não se contentam apenas com a pornografia, e é aí que a pedofilia entra em cena.

 

O padre sem o dom do celibato tem o mesmo desejo sexual que qualquer ser humano da face da terra, com a diferença de que ele não pode satisfazer este desejo pelos meios lícitos, porque a Igreja o proíbe de ter uma esposa. Então ele vai procurar um atalho para satisfazer este desejo. É claro que ele não vai procurar dar em cima de uma mulher ou homem adulto, porque assim seria muito facilmente desmascarado. Então ele vai procurar alguma pessoa mais inocente, mais pura, mais ingênua, que não vá “dedurar” o padre. É aí que ele começa a satisfazer seu desejo sexual reprimido em cima de criancinhas. Um coroinha, por exemplo. É isso o que explica o nível tão mais alarmante de pedofilia entre o clero católico-romano em relação às lideranças de qualquer outra igreja ou religião do mundo.

 

A solução para acabar com este problema é simples: exterminar de uma vez por todas essa ridícula, patética, antibíblica e escabrosa regra de que o padre não pode se casar. Isso iria acabar de uma vez com todos os casos de pedofilia? É claro que não. Mas iria abaixar muito, levando-o ao mesmo patamar proporcional dos evangélicos e ortodoxos. Essa é uma medida simples, que teoricamente seria fácil de se tomar. Então por que a Igreja não faz isso? É aí que entra um outro problema: infalibilidade papal. A Igreja Romana é a única instituição da face da terra, desde que o homem existe no planeta, que é suficientemente arrogante o bastante para proclamar a infalibilidade para si própria. Isso tem um lado positivo, é verdade. Significa que o que está certo não vai mudar (por exemplo, o fato de o homossexualismo ser considerado pecado, ou o aborto ser condenado). Mas também tem um lado negativo muito maior: significa que o que está errado também não vai ser mudado.

 

Então tire da cabeça que a Igreja Romana irá um dia repensar a sua condenação aos preservativos, ou que irá rever seus dogmas heréticos, inventados ex nihilo e sem base bíblica nenhuma, ou que irá voltar atrás na questão do celibato obrigatório, que estamos tratando aqui. Ela não vai. Se ela mudasse, estaria transmitindo a mensagem de que ela é falha, e que pôde ter falhado sistematicamente ao longo dos últimos séculos em algo tão importante. Pior ainda: ela estaria atestando que os evangélicos – esses hereges rebelados do capeta – estavam certos este tempo todo, e ela mesma, a “infalível Igreja de Cristo”, governada ao longo de séculos por papas escolhidos a dedo pelo Espírito Santo e dotados de infalibilidade ex cathedra, estava errada. Quando é que ela será suficientemente humilde para reconhecer que esteve errada esse tempo todo? Nunca. Reconhecer os erros e mudar é para os “fracos”, não para uma instituição tão poderosa, infalível e extraordinária como a #ICAR.

 

O problema é muito maior do que se pensa. Enquanto o próprio dogma da infalibilidade (e consigo muita coisa que foi por meio dele acrescentado ao longo da história) não for aniquilado, poderemos esperar por anos, décadas, séculos, que os noticiários irão continuar a mesma coisa: "Papa pede perdão por pedofilia na Igreja Católica", sem fazer absolutamente nada a respeito.

 

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

 

Por Cristo e por Seu Reino,

Lucas Banzoli.

 



[1] Conservado na “História Eclesiástica” de Eusébio de Cesareia (265-339), Livro III, 30:1.

[2] ibid, v.2.

[3] Disponível em:http://www.cbsnews.com/news/porn-piracy-tracked-to-computers-in-vatican-city/

 

 

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