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A AUTENTICIDADE DO NOVO TESTAMENTO
A AUTENTICIDADE DO NOVO TESTAMENTO

 

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Este artigo faz parte do livro: “As Provas da Existência de Deus”, de autoria minha e de Emmanuel Dijon. 

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Muitos céticos, ateus, agnósticos e pasme: até mesmo alguns que se dizem “cristãos” creem que a Bíblia foi corrompida pela Igreja cristã, sendo adulterada e tendo passado por muitas alterações, acréscimos e modificações com o passar dos séculos. Tais acusações gratuitas vem de pessoas que nunca estudaram um mínimo de história antiga ou não conhecem nem um pouco sobre Crítica Textual, pois, se estudassem, saberiam que não existe obra antiga mais confiável do que o Novo Testamento.

 

Primeiramente, temos que ressaltar que, ao tratarmos de Crítica Textual em textos antigos, como os livros do Novo Testamento, que datam há milênios atrás, não possuímos em mãos o manuscrito original, mas cópias dele, por pessoas que copiaram tais escritos mais tarde. O fato de não possuirmos o original em mãos não significa que as cópias não sejam autênticas, ou senão, teríamos que dizer que nenhum documento da história antiga é autêntico, pois todos eles sobrevivem através de manuscritos posteriores – sem qualquer exceção!

 

Norman Geisler e Frank Turek abordam isso nas seguintes palavras:

 

“Os céticos podem perguntar: ‘Bem, se o NT é realmente a palavra de Deus, então por que Deus não preservou o original?’. Só podemos especular aqui, mas uma possibilidade é porque sua palavra pode ser melhor protegida por meio de cópias do que por meio de documentos originais. Como assim? Porque, se o original estivesse de posse de alguma pessoa, essa pessoa poderia alterá-lo. Mas, se houvesse cópias espalhadas por todo o mundo antigo, não haveria maneira de um escriba ou sacerdote alterar a palavra de Deus. Como vimos, o processo de reconstrução permite que variantes e alterações nas cópias sejam identificadas e corrigidas de maneira bastante simples. Desse modo, ironicamente, o fato de não existirem originais pode preservar a palavra de Deus de uma maneira melhor do que se eles existissem”[1]

 

Para conseguimos remontar o texto original com total confiança, são necessárias basicamente duas coisas:

 

Possuirmos cópias bem antigas, próximas do original.

 

Possuirmos uma quantidade significativa dessas cópias.

 

Se as cópias preservadas de um original são datadas de tempo bem posterior a ele, alguém pode alegar que nesse meio-tempo houve alterações no escrito original. Portanto, é importante possuirmos cópias que são próximas à época em que o original foi feito. Da mesma forma, quanto maior é a quantidade de cópias existentes também é maior a chance do original não ter sido corrompido, pois, desta forma, um falsário teria que adulterar milhares de manuscritos por todas as partes do mundo da época e nas mais diversas línguas se quisesse se sair bem sucedido.

 

Assim sendo, a Crítica Textual trabalha dentro desses dois critérios para determinar se o original de qualquer obra (não somente do Novo Testamento) foi bem preservado ou não. A pergunta que fica é: possuímos cópias  antigas do Novo Testamento? E quantas dessas cópias possuímos? É isso o que passaremos a investigar a partir de agora.

 

 

Quantidade de cópias antigas do Novo Testamento

 

Nenhuma obra da história antiga possui cópias tão próximas ao original quanto o Novo Testamento. Isso mesmo: nenhum! O Novo Testamento ganha disparadodo segundo colocado e de textos que os próprios céticos creem que foram bem preservados. Sobre isso, Geisler e Turek discorrem:

 

“O NT não apenas desfruta de um amplo apoio dos manuscritos, como também possui manuscritos que foram escritos logo depois dos originais. O mais antigo e incontestável manuscrito é um segmento de João 18.31-33,37,38, conhecido como fragmento John Rylands (porque está na Biblioteca John Rylands, em Manchester, Inglaterra). Os estudiosos datam esse documento como tendo sido escrito entre 117 e 138 d.C, mas alguns dizem que ele é ainda mais antigo. O fragmento foi encontrado no Egito próximo ao mar Mediterrâneo, e seu provável local de composição foi a Ásia Menor – demonstrando que o evangelho de João foi copiado e levado a lugares distantes logo no início do século 11”[2]

 

Quantas cópias antigas do Novo Testamento em grego nós possuímos? A resposta é nada a menos que 5.664! Esse número é assustadoramente grande ao se tratar de história antiga. Para se ter uma noção e usar como parâmetro, de todas as obras antigas aquela que aparece em segundo lugar é a Ilíada de Homero, com apenas 643 manuscritos que sobreviveram até hoje. Ou seja: só de textos em grego, nós possuímos nove vezes mais cópias do Novo Testamento a mais do que a segunda obra antiga mais bem colocada em qualquer idioma.

 

Mas não para por aqui. O Novo Testamento também foi copiado nos primeiros séculos em muitos outros idiomas. Existem pelo menos 9.300antigas versões em outras línguas, e mais 10.000 manuscritos antigos da Vulgata Latina de Jerônimo. No total (juntando o número de cópias antigas do Novo Testamento nos mais diversos idiomas) nós possuímos aproximadamente 25.000 manuscritos de livros inteiros do Novo Testamento, isso sem contar outras 24.000 cópias de porções (trechos) desses livros. Isso significa 39 vezes mais do que a Ilíada de Homero, que é a segunda colocada em número de cópias em todos os documentos antigos da história da humanidade!

 

A tabela a seguir detalha o número de manuscritos do Novo Testamento:

 

Gregos Unciais

306

Minúsculas

2.764

Lecionários

2.143

Papiros

88

Achados recentes

47

Vulgata Latina

Mais de 10.000

Etiópico

Mais de 2.000

Eslavônico

4.101

Armênio

2.587

Versão Siríaca (Peshita)

Mais de 350

Copta

100

Árabe

75

Versão Velha Latina

50

Anglo-Saxônico

7

Gótico

6

Sogdiano

3

Siríaco Antigo

2

Medo-Persa

2

Frâncico

1

 

A conclusão é óbvia: o Novo Testamento é o documento antigo mais bem preservado da história da humanidade. Discorrer contra isso é lutar contra os fatos, movido pura e simplesmente pelo preconceito de se aceitar algo histórico se está ligado à religião, como fazem os céticos e ateus. Esses números são tão impressionantes quando postos em comparação com os outros documentos da antiguidade que John Warwick Montgomery declarou:

 

“Ter uma atitude cética quanto ao texto disponível dos livros do Novo Testamento é permitir que toda a antigüidade clássica se torne desconhecida, pois nenhum documento da história antiga é tão bem confirmado bibliograficamente como o Novo Testamento”[3]

 

A evidência para a autenticidade do Novo Testamento é tão esmagadora que seria necessário juntar as dez melhores e mais bem preservadas obras da literatura antiga se quiséssemos chegar a algo próximo daquilo que o Novo Testamento nos oferece:

 

“Embora os documentos originais do NT não tenham sobrevivido ou ainda não tenham sido encontrados, temos muitas cópias precisas dos documentos originais – muito mais do que as dez melhores peças da literatura antiga combinadas”[4]

 

Esse enorme número de cópias do Novo Testamento também nos ajuda a refutar aqueles que pensam que a Bíblia foi adulterada. Muitos afirmam que os escribas poderiam errar por desatenção, incluindo uma coisa aqui ou ali que não estava no original, errando uma ou outra palavra ou deixando de escrever uma ou outra coisa. Isso ocorre em todas as cópias, é algo comum.

 

E é aí que entra em cena a importância de se ter muitos manuscritos. Porque se tivéssemos apenas um único e esse escriba tivesse errado em alguns pontos, teríamos uma Bíblia incompleta e adulterada em mãos. Mas, se temos muitos escribas e muitos manuscritos, essa possibilidade cai exponencialmente. Imagine, por exemplo, uma sala de aula com 100 alunos. A professora enche o quadro negro de matéria. Os alunos têm que copiar palavra por palavra, linha por linha de tudo aquilo que foi escrito. Os 100 alunos copiam tudo o que a professora escreveu. Mas Joãozinho chega tarde, perde a primeira aula e a professora já apagou o que tinha escrito no quadro negro.

 

Então, ele se vê na obrigação de consultar seus colegas que copiaram tudo o que foi escrito. Se Joãozinho copiasse de apenas um único colega em somente uma única fonte, ele pode incorrer nos mesmos erros ocasionais que esse colega pode ter errado na cópia. Mas se Joãozinho consultar todos os seus 100 colegas que copiaram o que foi escrito, certamente esse problema seria resolvido sem maiores dúvidas. Para o exemplo ficar mais prático, suponhamos que Joãozinho esteja copiando um texto de um aluno onde diz:

 

“Porque Deus o mundo de tal maneira que deu unigênito para que todo aquele que não pereça, mas tenha a vida eterna”

 

Joãozinho lê esse verso da cópia de um único aluno e percebe que nele está faltando alguma coisa. O texto não está fazendo sentido. “Deus o mundo”, “deu unigênito”, “para que todo aquele que não pereça”... alguma coisa está errada. Talvez esse aluno estivesse com sono quando copiou, estivesse com muita pressa ou muito desatento. Para confirmar a tradução correta, Joãozinho consulta um outro aluno ao seu lado, que copiou da seguinte forma:

 

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”

 

Agora as coisas começam a fazer sentido. O que um aluno errou na transcrição, o outro acertou. Mas, para confirmar, ele consulta todos os seus outros 99 colegas (Joãozinho era faminto por uma boa tradução!), e todos os 99 confirmam a seguinte transcrição:

 

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”

 

Qual seria a conclusão de Joãozinho? Que o texto original perdeu-se e já não se pode saber o conteúdo primordial, pois foi tudo adulterado? É claro que não. Ele concluirá facilmente que aquele “copista” que ele viu anteriormente havia vertido o texto erroneamente por desatenção, mas o que ele errou foi concertado por muitos outros que transcreveram certo. Então, como é praticamente impossível que 99 alunos tenham reproduzido errado e só um tenha copiado certo, é lógico que a tradução correta é a que foi traduzida pelos 99 alunos.

 

O mesmo ocorre com o conteúdo do Novo Testamento, com a diferença de que não possuímos apenas 100 copistas ou 100 cópias para comparar as traduções, mas 25 mil cópias, o que obviamente abaixa para virtualmente zero as possibilidades de que todos tenham copiado errado um mesmo texto. É por isso que a Crítica Textual não trabalha dentro de apenas um único manuscrito, por mais valioso que seja, mas pela comparação entre vários manuscritos. Então, por mais que um ou outro copista se equivoque na tradução ou transcrição de um ou outro verso, a comparação com os mais diversos manuscritos bíblicos antigos nos leva inevitavelmente ao original, com precisão.

 

Geisler e Turek resumem a questão da seguinte maneira:

 

“Uma reconstrução praticamente perfeita dos originais pode ser realizada ao comparar-se as milhares de cópias manuscritas que sobreviveram. Descobrimos fragmentos de manuscritos tão antigos quanto o material da segunda metade do século I. Não existem obras do mundo antigo que sequer cheguem perto do NT em termos de apoio de manuscritos (...) De fato, os documentos do NT possuem mais manuscritos, manuscritos mais antigos e manuscritos mais abundantemente apoiados do que as dez melhores peças da literatura clássica combinadas”[5]

 

 

Tempo entre a cópia e o original

 

O outro quesito em que o Novo Testamento se destaca em comparação a qualquer outra obra escrita de toda a história antiga é no tempo entre o original e a cópia mais próxima. Frederic G. Kenyon, que foi diretor do Museu Britânico e é reconhecido como uma das maiores autoridades em manuscritos, disse:

 

“Além da quantidade, os manuscritos do Novo Testamento diferem das obras dos autores clássicos em outro aspecto, e mais uma vez a diferença é bem clara. Os livros do Novo Testamento foram escritos na última parte do século primeiro; com exceção de fragmentos muitos pequenos, os manuscritos mais antigos existentes são do quarto século – cerca de 250 a 300 anos depois”[6]

 

E ele prossegue, dizendo:

 

“Isso pode parecer um intervalo considerável, mas não é nada em comparação com o tempo transcorrido entre os grandes escritores clássicos e seus mais antigos manuscritos. Cremos que, em todos os pontos essenciais, temos um texto bastante fiel das sete peças remanescentes de Sófocles; no entanto, o manuscrito mais antigo e substancioso de Sófocles foi copiado mais de 1400 anos depois de sua morte”[7]

 

Em seu livro “A Bíblia e a Arquelogia”, Kenyon acrescenta:

 

“De modo que o intervalo entre as datas da composição do original e os mais antigos manuscritos existentes se torna tão pequeno a ponto de, na prática, ser insignificante. Assim, já não há base para qualquer dúvida de que as Escrituras tenham chegado até nós tal como foram escritas. Pode-se considerar que finalmente estão comprovadas tanto a autenticidade como a integridade geral dos livros do Novo Testamento”[8]

 

Geisler e Turek acrescentam que possuímos manuscritos de livros completos do Novo Testamento que datam do século III d.C:

 

“Qual é a idade do mais antigo manuscrito de um livro completo do NT? Manuscritos que formam livros inteiros do NT sobreviveram a partir do ano 200 d.C. E quanto aos mais antigos manuscritos do NT completo? A maioria dos manuscritos do NT, incluindo os quatro evangelhos, sobrevive desde o ano 250, e um manuscrito do NT (incluindo um Antigo Testamento em grego), chamado Códice Vaticano, sobrevive desde o ano 325. Vários outros manuscritos completos sobrevivem desde aquele século. Esses manuscritos possuem ortografia e pontuação características que sugerem ser parte de uma família de manuscritos que pode ter sua origem entre 100 e 150 d.C”[9]

 

Para F. J. A. Hort, “na variedade e multiplicidade de provas sobre as quais repousa, o texto do Novo Testamento destaca-se de um modo absoluto e inigualável entre os textos em prosa da antigüidade”[10]. J. Harold Greenlee segue essa mesma linha e afirma que “os mais antigos manuscritos existentes do Novo Testamento foram escritos numa data muito mais próxima da composição do texto original do que no caso de qualquer outro texto da literatura antiga”[11]. Para termos uma noção, elaboramos uma tabela onde o Novo Testamento é comparado às demais obras antigas:

 

         Autor

        Data do               Original

    Cópia mais           Antiga

      Intervalo           em Anos

       Número           de Cópias

César

100-44 a.C

900 d.C

1000

10

Platão (Tetralogias)

427-347 a.C

900 d.C

1200

7

Tácito (Anais)

60-100 d.C

900 d.C

800

1

Plínio, o Jovem

61-113 d.C

850 d.C

750

7

Tucídedes

460-400 a.C

900 d.C

1300

8

Suetônio

75-100 d.C

950 d.C

800

8

Heródoto

480-425 a.C

900 d.C

1300

8

Sófocles

496-406 a.C

1000 d.C

1400

193

Lucrécio

75-160 d.C

1200 d.C

1100

2

Cátulo

54 a.C

1550 d.C

1600

3

Eurípides

480-406 a.C

1100 d.C

1300

200

Desmóstoles

383-322 a.C

1100 d.C

1300

200

Aristóteles

384-322 a.C

1100 d.C

1400

49

Aristófanes

450-385 a.C

900 d.C

1200

10

 

Compare todos esses autores antigos, que tem milênios de distância entre a obra original e a cópia mais antiga preservada, com os livros do Novo Testamento escritos por Mateus, Marcos, Lucas, João, Paulo, Tiago, Pedro e Judas, em que temos 25 mil cópias antigas com uma diferença mínima inferior a 200 anos entre a cópia completa mais bem preservada e o original, e décadas entre o original e o fragmento mais antigo.

 

O erudito F. F. Bruce expôs esse mesmo quadro comparativo entre as obras seculares antigas e os documentos do Novo Testamento e chegou à conclusão:

 

“Talvez possamos avaliar melhor quão rico é o Novo Testamento em matéria de evidência manuscrita, se compararmos o material textual subsistente com outras obras históricas da antigüidade... Os manuscritos remanescentes das obras menores de Tácito provêm todos de um códice do século décimo. Conhecemos a história de Tucídedes (cerca de 460-400 a.C.) a partir de oito manuscritos, dos quais o mais antigo data de 900 d.C, e de uns poucos fragmentos de papiros, escritos aproximadamente no início da era cristã. O mesmo se dá com a História de Heródoto (cerca de 480-425 a.C.). No entanto, nenhum conhecedor profundo dos clássicos daria ouvidos à tese de que a autenticidade de Heródoto ou Tucídedes é questionável porque os mais antigos manuscritos de suas obras foram escritos mais de 1300 anos depois dos originais”[12]

 

Se os críticos não consideram corrompidas as obras de Heródoto, Platão, Aristóteles ou Homero, mesmo tendo apenas alguns manuscritos sobreviventes de muitos séculos posterior ao original, então o que os levaria a pensar que o Novo Testamento, que possui mais cópias antigas do que qualquer outra obra antiga que já existiu, e com muito mais proximidade ao original, deveria ser questionado? Como diz Greenlee:

 

“Os mais antigos e conhecidos dos manuscritos da maioria dos autores gregos clássicos foram escritos pelo menos mil anos depois da morte do seu autor... Todavia, no caso NT, dois dos mais importantes manuscritos foram escritos em prazo não superior a 300 anos após o NT estar completo, e manuscritos virtualmente completos, de alguns livros do NT, bem como manuscritos incompletos, mas longos, de muitas partes do NT, foram copiados em datas tão remotas quanto um século após serem originalmente escritos”[13]

 

E ele conclui:

 

“Uma vez que os estudiosos aceitam que os escritos dos antigos clássicos são em geral fidedignos, muito embora os mais antigos manuscritos tenham sido escritos tanto tempo depois da redação original e o número de manuscritos remanescentes seja, em muitos casos, tão pequeno, está claro que, da mesma forma, fica assegurada a credibilidade no texto do Novo Testamento”[14]

 

Bruce Metzger, em seu livro: “The Text of the New Testament”, acentua a forma como as obras dos autores antigas eram preservadas, e compara com o Novo Testamento:

 

“As obras de inúmeros autores antigos foram preservadas pela mais tênue linha de transmissão possível. Por exemplo, o compêndio de história de Roma, por Veléio Patérculo, sobreviveu até a era moderna através de um único e incompleto manuscrito, a partir do qual se preparou a primeira edição impressa – e perdeu-se esse manuscrito solitário após ser copiado pelo beato Rhenanus em Amerbach. Mesmo em relação aos Anais do famoso historiador Tácito, no que diz respeito aos seis primeiros livros dessa obra, ela só sobreviveu devido a um único manuscrito, do século nono. Em 1870 o único manuscrito conhecido da Epístola a Diogneto, um texto cristão bem antigo que os compiladores geralmente incluem entre os escritos dos Pais Apostólicos, perdeu-se num incêndio na biblioteca municipal de Estrasburgo. Em contraste com esses dados estatísticos, o crítico textual do Novo Testamento fica perplexo diante da riqueza de material disponível”[15]

 

A única conclusão a que se pode chegar, após a análise minuciosa dos fatos, é aquela que F. F. Bruce expõe:

 

“No mundo não há qualquer corpo de literatura antiga que, à semelhança do Novo Testamento, desfrute uma tão grande riqueza de confirmação textual”[16]

 

 

Os Pais da Igreja

 

Além de possuir muito mais cópias antigas do que qualquer outra obra antiga da história da humanidade e o menor espaço entre o original e a cópia mais antiga preservada, outro dado que nos ajuda a concluir pela autenticidade do Novo Testamento é a patrística, que consiste no estudo dos Pais da Igreja. Esses Pais da Igreja foram bispos, teólogos, clérigos e doutores cristãos que existiram nos primeiros séculos da Igreja. Existiram dezenas de Pais da Igreja que escreveram, ao todo, milhares de obras cristãs primitivas. E desde aquela época era costume dos Pais citarem as Escrituras abundantemente.

 

Cada um desses Pais da Igreja nos deixou um enorme legado não apenas de ensinos morais e doutrinários, mas da própria Escritura, pois eles costumavam frequentemente citar passagens bíblicas. O resultado disso é que, se juntássemos todas as passagens bíblicas que os Pais da Igreja escreveram nos primeiros séculos, teríamos uma Bíblia praticamente completa, excetuando apenas onze versos que não foram citados nenhuma vez! Norman Geisler e Frank Turek também discorrem sobre isso, dizendo:

 

“Os Pais da Igreja primitiva – homens dos séculos 11 e 111 como Justino Mártir, Ireneu, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano e outros – fizeram tantas citações do NT (36.289 vezes, para ser exato) que todos os versículos do NT, com exceção de apenas 11, poderiam ser reconstituídos simplesmente de suas citações.  Em outras palavras, você poderia ir até a biblioteca pública, analisar as obras dos Pais da Igreja primitiva e ler praticamente todo o NT simplesmente com base nas citações que eles fizeram! Desse modo, nós não apenas temos milhares de manuscritos, mas milhares de citações desses manuscritos. Isso torna a reconstrução do texto original praticamente precisa”[17]

 

O detalhe é que todas essas 36.289 citações bíblicas feitas pelos Pais da Igreja computadas por Geisler são de antes do Concílio de Niceia. Em outras palavras, a Bíblia já era citada tão frequentemente que mesmo antes da existência de Constantino e de Niceia poderíamos remontá-la inteiramente apenas com as citações dos Pais que viveram antes do século IV d.C! Norman Geisler e William Nix discorrem sobre esse número no livro: “Introdução Bíblica”, e dizem:

 

“A esta altura, um rápido apanhado estatístico mostrará a existência de umas 32.000 citações do Novo Testamento feitas até a época do Concilio de Niceia (325 d.C). Essas 32.000 são apenas um número parcial, e nem mesmo incluem os escritores do século quarto. Apenas acrescentando-se as citações feitas por um outro escritor, Eusébio, que escreveu prolificamente num período que vai até o Concilio de Niceia, teremos o total de citações do Novo Testamento aumentado para mais de 36.000”[18]

 

Até mesmo os Pais da Igreja do primeiro século citavam as Escrituras e reconheciam como sendo Sagrada Escritura. Policarpo (69-155 d.C), por exemplo, escreveu aos filipenses citando um trecho da epístola de Paulo aos efésios (Ef.4:26) e o chama de “Escrituras” e “Sagradas Letras”:

 

“Creio que sois bem versados nas Sagradas Letras e que não ignorais nada; o que, porém, não me foi concedido. Nessas Escrituras está dito: ‘Encolerizai-vos e não pequeis, e que o sol não se ponha sobre vossa cólera’. Feliz quem se lembrar disso. Acredito que é assim convosco”[19]

 

Clemente de Roma (35-97 d.C) escreveu em 95 d.C uma carta aos coríntios e fez menção às palavras de Jesus ditas em Mateus 21:23 e em Marcos 10:6 e o chama de “Escritura”:

 

“Portanto, irmãos, se fazemos a vontade de Deus, nosso Pai, pertenceremos à primeira Igreja, que é espiritual, que foi criada antes do sol e da lua; porém, se não fazemos a vontade do Senhor, seremos como a Escritura, que diz: Minha casa se transformou em covil de ladrões. Logo, prefiramos ser a Igreja da vida, para que sejamos salvos. E não creio que ignoreis que a Igreja viva ‘é o corpo de Cristo’, porque a Escritura diz: Deus fez o homem, varão e mulher. O varão é Cristo; a mulher é a Igreja. E os livros e os apóstolos declaram de modo inequívoco que a Igreja não apenas existe agora, pela primeira vez, como assim desde o princípio, porque era espiritual, como nosso Jesus também era espiritual; porém, foi manifestada nos últimos dias para que Ele possa nos salvar”[20]

 

Em outro momento, ele cita as palavras de Cristo registradas em Mateus 9:13 como fazendo parte da Sagrada Escritura:

 

“Novamente diz a Escritura em outro lugar: eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”[21]

 

A tabela a seguir mostra três Pais da Igreja que escreveram ainda no primeiro século e fizeram menção a vários livros do Novo Testamento:

 

                    DOCUMENTOS DO NOVO TESTAMENTO CITADOS POR:

Clemente

de Roma (35-97  d.C)

Inácio de Antioquia

(35-107 d.C)

Policarpo (69-155 d.C)

Mateus

Mateus

Mateus

Marcos

Marcos

Marcos

Lucas

Lucas

Lucas

Romanos

João

João

1ª Coríntios

Atos

Atos

Efésios

Romanos

Romanos

1ª Timóteo

1ª Coríntios

1ª Coríntios

Tito

2ª Coríntios

2ª Coríntios

Hebreus

Gálatas

Gálatas

Tiago

Efésios

Efésios

1ª Pedro

Filipenses

Filipenses

 

Colossenses

Colossenses

 

1ª Tessalonicenses

2ª Tessalonicenses

 

1ª Timóteo

1ª Timóteo

 

2ª Timóteo

2ª Timóteo

 

Tito

Hebreus

 

Filemom

1ª Pedro

 

Hebreus

1ª João

 

Tiago

 
 

1ª Pedro

 
 

2ª Pedro

 
 

1ª João

 
 

3ª João

 
 

Apocalipse

 

 

O mesmo é feito por outros vários autores do primeiro século e início do segundo, como Teófilo, Justino, Hermas, Aristides, Atenágoras, Papias e muitos outros. Isso nos mostra que desde o primeiro século os cristãos já conheciam a Escritura e a reconheciam como sendo a Palavra de Deus, como sendo Escritura Sagrada, antes que qualquer Concílio (como o de Niceia, Cartago, Hipona, Trento ou qualquer outro) anunciasse quais livros eram oficialmente “canônicos”. E, por esses mesmos Pais da Igreja, podemos reconstruir o Novo Testamento praticamente em sua totalidade.

 

A tabela a seguir mostra como que sete Pais da Igreja – sozinhos – citaram passagens bíblicas mais de 32 mil vezes, antes do Concílio de Niceia. Isso sem considerar o testemunho de mais dezenas de Pais da Igreja que também citaram as Escrituras antes e depois de Niceia.

 

    Escritor

Evangelhos

    Atos

 Epístolas    Paulinas

 Epístolas    Gerais

Apocalipse

    Total

Justino

268

10

43

6

3

330

Irineu

1038

194

499

23

65

1819

Clemente[22]

1017

44

1127

207

11

2406

Orígenes

9231

349

7778

399

165

17992

Tertuliano

3822

502

2609

120

205

7258

Hipólito

734

42

387

27

188

1378

Eusébio

3258

211

1592

88

27

5176

Totais

19368

1352

14035

870

664

36289

 

Como afirma a Enciclopédia Britânica, esse testemunho patrístico não pode ser desconsiderado:

 

“Após ter examinado os manuscritos e versões, o crítico textual ainda assim não esgotou o estudo das provas em favor do texto do Novo Testamento. Frequentemente os escritos dos primeiros Pais da Igreja refletem uma forma de texto diferente da de um ou outro manuscrito... os testemunhos que dão do texto, especialmente quando corroboram leituras oriundas de outras fontes, são algo que o crítico textual deve consultar antes de formar juízo a respeito”

 

Esse número de 36 mil citações bíblicas pelos Pais da Igreja antes de Niceia oferecem um forte testemunho acerca da autenticidade do texto neotestamentário, mas a força desse testemunho cresce ainda mais quando consideramos também os Pais que escreveram após Niceia, ou seja, todos os Pais da Igreja cristã primitiva. O número de citações do Novo Testamento pelos Pais da Igreja consiste em 16 espessos volumes que se encontram no Museu Britânico, contendo 86.489 citações!

 

Todas essas mais de 86 mil citações, que unidas perfazem praticamente todo o Novo Testamento, se juntam aos mais de 25 mil manuscritos antigos neotestamentários de livros completos do Novo Testamento e a outros 24 mil fragmentos de livros. Um total para cético nenhum botar defeito. De fato, após uma prolongada investigação, Darlymple admitiu:

 

“Veja aqueles livros. Você se lembra da pergunta que me fez sobre o Novo Testamento e os Pais? Aquela pergunta despertou a minha curiosidade, e, como eu conhecia todas as obras existentes dos Pais do segundo e terceiro séculos, comecei a pesquisar e, até agora, já encontrei todo o Novo Testamento, com exceção de onze versículos”

 

Mas o cético poderia perguntar: e os evangelhos apócrifos? Estude história. Tais evangelhos foram escritos a partir do século II d.C – não foram escritos pelos verdadeiros discípulos de Cristo que foram testemunhas oculares de tudo o que ocorreu – e por um grupo anticristão conhecido por “gnósticos”, que tinha uma fé completamente oposta à cristã, mas queriam ser chamados por este nome. Mas tinha um problema: o Novo Testamento era completamente oposto às crenças deles, que incluía a doutrina da reencarnação e o ensino de que Jesus não veio em carne, que ele não ressuscitou dos mortos, que não existe ressurreição física nem justificação pela fé, e que o corpo é uma prisão da alma e é mal em si mesmo.

 

Então, qual foi a solução encontrada por eles, para fazerem com que as suas crenças heréticas fossem bem aceitas? Simples: eles decidiram por si mesmos escreverem pseudo-evangelhos falsamente atribuídos a Pedro, a Paulo, a João, a Judas, a Tomé, e por aí vai, onde esses ensinos não-bíblicos eram claramente ensinados, para concorrer com o Novo Testamento. Isso ocorreu a partir do século II d.C, e pode ser conferido em obras da época, como o livro “Contra as Heresias”, de Irineu de Lyon.

 

A Igreja, porém, nunca aceitou esses apócrifos como inspirados. Desde os primórdios ela soube reconhecer aquilo que tinha origem antiga e que remetia aos apóstolos e aquilo que era plágio e falsificação posterior. Além disso, nós possuímos pouco ou nada de evidências concretas e conclusivas sobre esses livros. A grande maioria deles possuem pouquíssimas cópias que sobreviveram, de modo que é impossível resgatar o original com precisão. Sua autenticidade é diametralmente oposta a do Novo Testamento.

 

Marcelo Berti expôs a tática tendenciosa de críticos como Bart Ehrman, que tentam fazer os leigos crerem que tais evangelhos apócrifos são confiáveis:

 

“Há alguns anos atrás nos tínhamos um pedaço do Evangelho de Pedro que não sabíamos bem o que significava. Era um fragmento do tamanho de um cartão de crédito. No século passado foi descoberta uma cópia maior, com páginas do texto. Eles compararam aquilo que tinha naquele evangelho com aquilo que foi encontrado recentemente, e Ehrman diz em seu livro: ‘ficou claro que o Evangelho de Pedro foi bem preservado’. Temos duas cópias, uma do tamanho de um cartão de crédito e outra com algumas páginas. Ou seja: para Ehrman, o Evangelho de Pedro foi bem preservado – com poucas evidências – mas o Novo Testamento, repleto de evidências (mais de 5 mil), foi ‘mal guardado’!”[23]

 

 

Respondendo aos Céticos

 

Tudo o que já foi apresentado até aqui já deveria ser mais que o suficiente para convencer as pessoas mais sinceras e honestas de que a Bíblia não foi adulterada e que podemos confiar na autenticidade do Novo Testamento, ou seja: no evangelho cristão. Mas não para os críticos agnósticos e ateus. Enquanto Deus não descer dos céus com uma poderosa legião de anjos ao seu redor e com uma Bíblia gigante de ouro na mão dizendo que o Cristianismo é verdadeiro, eles não vão se convencer. Na verdade, duvidamos que mesmo se isso ocorresse eles iriam se dar por vencidos.

 

Não importa a multidão de argumentos: se se trata de religião, eles descartam a priori qualquer evidência, para colocarem no lugar qualquer argumento supérfluo, fraco e superficial oferecido pelos céticos. E dentre eles se destaca um nome: Bart Ehrman. Ele se tornou muito famoso nos Estados Unidos por defender aquilo que os céticos e anticristãos deste mundo mais desejam: a corrupção da Bíblia e o fim do Cristianismo.

 

Foi várias vezes convidado para depoimentos em documentários na NBC, CNN, History Channel e muitos outros canais que quase nunca dão espaço a cristãos (não importando os argumentos), mas se um agnóstico nega tudo o que o Cristianismo ensina e escreve um livro sobre isso vira popstar da noite para o dia e seus livros verdadeiros best-sellers. Em seus livros, ele ataca a veracidade do Novo Testamento com argumentos fracassados já há muito conhecidos e não poucas vezes refutados, mas vale a pena refutar mais uma vez para quem ainda não os reconhece.

 

Para Ehrman e outros críticos como ele, os manuscritos do Novo Testamento possuem 400 mil “erros”, divergindo entre si. Qualquer leigo no assunto, que não entende absolutamente nada de Crítica Textual (e é exatamente para tais pessoas que Ehrman escreve), logo irá pensar que essa é a maior e mais extraordinariamente fantástica prova irrefutável de que a Bíblia é uma farsa e que o Novo Testamento foi corrompido. Mas tais argumentos não têm qualquer valor em um debate inteligente, entre eruditos que entendem de Crítica Textual.

 

Mas o que teria de errado esse argumento dos críticos?

 

Simplesmente que não se trata de erros nos manuscritos, mas de variantes. Por exemplo, suponhamos que um manuscrito traga o texto de 1ª Coríntios 15:19 da seguinte forma:

 

“Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”

 

E que outro manuscrito transcreva assim:

 

“Se esperamos em Jesus apenas nesta vida, nós somos os mais miseráveis de todos os homens”

 

Para qualquer pessoa minimamente inteligente e honesta, não há qualquer “erro” ou adulteração entre uma passagem e outra. A diferença é mínima e o sentido é exatamente o mesmo. Um traz “Cristo”, o outro traz “Jesus”. Um traduz por “só”, o outro por “apenas”. Um coloca o pronome “nós” no texto, o outro deixa o pronome implícito. Para os eruditos bíblicos sérios, essas são apenas variantes textuais. Mas para Ehrman e companhia, são três “erros bíblicos” que provam que a Bíblia foi adulterada!

 

Geisler e Turek também abordam isso, nas seguintes palavras:

 

“Alguns já chegaram a estimar que existam cerca de 200 mil erros nos manuscritos do NT. Primeiro de tudo, eles não são ‘erros’, mas leituras variantes, a maioria das quais de natureza estritamente gramatical (i.e., pontuação e ortografia). Segundo, essas leituras estão espalhadas por cerca de 5.700 manuscritos, de modo que a variação na ortografia de uma letra de uma palavra em um versículo em 2 mil manuscritos é considerada 2 mil ‘erros’”[24]

 

Isso por si só já é suficiente para demonstrar o quão desonestos são os críticos do Novo Testamento em formularem argumentos que apenas tem a força de enganar leigos, mas que nunca convenceram qualquer erudito ou exegeta. Mas Daniel Wallace foi além. Ele pegou uma frase simples no grego: “Jesus ama Paulo”. Depois, mostrou 16 variantes diferentes que esse único verso simples poderia ser transcrito no grego, sem alterar nada do significado textual:

 

1. ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ Παῦλον

2. ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον

3. ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ Παῦλον

4. ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον

5. Παῦλον ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ

6. τὸν Παῦλον ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ

7. Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ

8. τὸν Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ

9. ἀγαπᾷ ᾿Ιησοῦς Παῦλον

10. ἀγαπᾷ ᾿Ιησοῦς τὸν Παῦλον

11. ἀγαπᾷ ὁ ᾿Ιησοῦς Παῦλον

12. ἀγαπᾷ ὁ ᾿Ιησοῦς τὸν Παῦλον

13. ἀγαπᾷ Παῦλον ᾿Ιησοῦς

14. ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον ᾿Ιησοῦς

15. ἀγαπᾷ Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς

16. ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς

 

E ele adiciona:

 

“Estas variações representam apenas uma pequena fração das possibilidades. Se a sentença usar φιλεῖ ao invés de ἀγαπᾷ, por exemplo, ou se ela começar com uma conjunção tal qual δεv, καιv, ou μέν, as potenciais variações crescerão exponencialmente. Fatore em sinônimos (tais quais κύριος por ᾿Ιησοῦς), diferenças de escrita, e palavras adicionais (tais quais Χριστός, ou ἅγιος com Παῦλος) e a lista de potenciais variantes que não afetam a essência da declaração cresce às centenas. Se uma simples sentença como ‘Jesus ama Paulo’ pode ter tantas variações insignificantes, meros 400.000 variantes entre os manuscritos do Novo Testamento parece quase uma quantidade insignificante”[25]

 

Marcelo Berti trabalhou em cima desse mesmo exemplo de Daniel Wallace (“Jesus ama Paulo”) e mostrou como um texto simples como esse poderia oferecer milhares de variantes sem alterar em nada o significado textual:

 

“Nós sabemos que existem palavras diferentes em grego para descrever ‘amor’. Por exemplo: em vez de usar ágape como amor, ele poderia ter usado fileo, o que não faria diferença nenhuma. Mas, assim, nós teríamos 32 leituras diferentes (variantes). E se um copista desatento não tivesse ouvido ‘Paulo’, e tivesse escrito ‘Saulo’?[26] Nós já teríamos 128 possibilidades em uma sentença só. E se ele tivesse trocado ‘Jesus’ por ‘Cristo’? 256! E se ‘Cristo’ fosse transcrito como ‘Senhor’? 512! E se ele tivesse colocado ‘Senhor Jesus Cristo’? 1024!”[27]

 

Mas, de todas essas 400 mil variantes textuais, quantas afetariam alguma doutrina da fé cristã? A resposta a essa pergunta é simples e objetiva: nenhuma. Westcott e Hort analisaram os manuscritos gregos antigos do Novo Testamento e concluíram que apenas 1,67% dessas variantes textuais nos diferentes manuscritos antigos são minimamente relevantes[28]. Philip Schaff calculou que apenas 50 eram de todas essas 400 mil eram relevantes e que nem uma única sequer afetava “um artigo de fé ou um preceito de obrigação que não seja abundantemente apoiado por outras passagens indubitáveis ou pelo sentido geral do ensinamento das Escrituras”[29].

 

Nos cálculos do grande estudioso do Novo Testamento e professor da Universidade de Princeton, Bruce Metzger, apenas 0,5% dessas variantes poderiam mudar o sentido de algum texto, e que nenhum desses 0,5% afetava qualquer doutrina da fé cristã[30]. Frederic Kenyou, autoridade em manuscritos antigos, afirmou:

 

“O número de manuscritos do NT, de traduções antigas dele e de suas citações pelos antigos autores da Igreja é tão grande que é praticamente certo que a verdadeira leitura de toda passagem dúbia esteja preservada em uma ou outra dessas autoridades antigas. Não se pode dizer isso em relação a nenhum outro livro antigo do mundo”[31]

 

Bejamin Warfield conclui:

 

“Se compararmos a situação atual do texto do Novo Testamento com a de qualquer outro escrito antigo, precisaremos declarar que o texto é maravilhosamente correto, tão grande é o cuidado com que o Novo Testamento tem sido copiado - um cuidado que, sem dúvida alguma, é fruto de uma verdadeira reverência para com suas santas palavras - tão grande tem sido a providência de Deus em preservar para a sua igreja em todas as épocas um texto suficientemente exato, que o Novo Testamento não tem rival entre os escritos antigos, não apenas em termos de pureza de texto pela maneira como foi transmitido e mantido em uso, como também em termos de abundância de testemunhos, os quais chegaram até nós para corrigir falhas relativamente esporádicas”

 

Portanto, não há qualquer corrupção bíblica por causa das variantes textuais, que são plenamente compreensíveis e ocorrem com qualquer transcrição ou tradução. Se qualquer leitor abrir uma Bíblia João Ferreira de Almeida em um versículo qualquer e depois abrir o mesmo verso em uma Nova Versão Internacional, também notará muitas dessas variantes. As versões bíblicas traduzem de modo ligeiramente diferente entre si, mas isso não significa que uma ou outra decidiu deliberadamente “adulterar” algum texto. Elas apenas optaram por traduzir de forma diferente – porém plausível – diferentes passagens.

 

Por exemplo, a Nova Versão Internacional traduz Gênesis 1:1 da seguinte maneira:

 

“No princípio Deus criou os céus e a terra” (Gênesis 1:1)

 

Enquanto que a Almeida Corrigida, Revisada e Fiel traduz esse mesmo verso assim:

 

“No princípio criou Deus o céu e a terra” (Gênesis 1:1)

 

Há duas variantes entre os textos: o céu em um e os céus em outro, e a inversão na ordem das palavras - “Deus criou” em um, e “criou Deus” em outro. Mas nada que mude o sentido do texto ou que afete qualquer ponto de fé. Com os manuscritos gregos antigos é a mesma coisa. Há diferenças, mas não erros. Há variantes, mas não corrupção textual. Como já dissemos, apenas 1% dessas variantes podem alterar o sentido de um texto em particular, mas mesmo essas não afetam qualquer doutrina. Os críticos como Ehrman citam algumas delas. Iremos citar também.

 

 

Hebreus 2:9

 

O texto de Hebreus 2:9 diz que, “pela graça de Deus, ele [Jesus] experimentou a morte da parte de todos”. Na variante textual que Ehrman expôs, o texto não estaria dizendo “pela graça de Deus”, mas “sem Deus”. Assim, o autor teria dito que “Jesus morreu sem Deus”, ou seja, abandonado por Ele. Contudo, em primeiro lugar, há apenas três manuscritos que vertem o texto desta forma, e todos eles datam do século décimo ou posterior. Todos os manuscritos mais antigos e confiáveis vertem por “pela graça de Deus”.

 

Em segundo lugar, o copista que transcreveu por “sem Deus” não o fez de forma intencional para adulterar o texto bíblico, mas simplesmente incorreu em um erro ortográfico muito comum em grego. Notem a semelhança entre “graça de Deus” e “sem Deus”, no original grego, onde se lê:

 

                         Graça de Deus

                         Sem Deus

                 carij qeou CARIS

               cwrij qeou CWRIS

 

Mudam-se apenas duas palavras entre uma sentença e outra. É, portanto, um erro ortográfico comum, e não uma corrupção proposital. Como já dissemos aqui, a Crítica Textual não trabalha em cima de apenas um único manuscrito antigo, mas no conjunto de todos os manuscritos. Manuscritos isolados, como os três do século décimo que Ehrman apontou, podem incorrer em erros ortográficos, mas esses erros são corrigidos pelo conjunto, isto é, pelos outros manuscritos mais antigos, mais confiáveis e em maior quantidade. E o conjunto aponta indiscutivelmente pela tradução de “pela graça de Deus”.

 

Finalmente, em terceiro e último lugar, ainda que a tradução correta do verso fosse “sem Deus”, que doutrina vital do Cristianismo estaria sendo atacada ou colocada em Xeque? Não foi exatamente isso que o próprio Senhor Jesus disse em Mateus 27:46, quando exclamou na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt.27:46). Portanto, mesmo se a tradução correta fosse aquilo que Ehrman deseja, isso em nada incorreria em “adulteração bíblica”, pois o autor de Hebreus poderia meramente estar fazendo uma alusão ao que Jesus expressou na cruz, registrado no evangelho de Mateus.

 

O significado deste “desamparo” é outro assunto, é questão de interpretação e não de tradução. A tradução, em si, seja de um modo ou de outro, não arremete a nenhuma adulteração textual. Quando muito, o mais provável é que tenha sido um erro acidental de um escriba desatento, que errou na ortografia de duas letras, e mesmo assim não afetou nenhum artigo de fé do Cristianismo nem contradisse o restante das Escrituras.

 

 

Marcos 1:41

 

Marcos 1:41 diz que “Jesus, movido de grande compaixão, estendeu a mão, e tocou-o, e disse-lhe: Quero, sê limpo”. Porém, a resposta de Jesus ao pedido do leproso é outra de acordo com Ehrman. Cristo teria, conforme variantes textuais, ficado nervoso ou indignado, e a tradução correta seria: “Jesus, indignado, estendeu a mão...”. Mesmo se assumíssemos que “indignado” seja a leitura correta, em que isso afetaria a credibilidade dos evangelhos? Em nada. Isso porque Jesus é descrito por Marcos como estando indignado em diversas ocasiões. Em Marcos 3:4-5, por exemplo, há o seguinte relato:

 

“E perguntou-lhes: É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal? Salvar a vida, ou matar? E eles calaram-se. E, olhando para eles em redor com indignação, condoendo-se da dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu, e foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra” (Marcos 3:4-5)

 

Todos os manuscritos gregos antigos vertem por “indignação”, esse texto não é alvo de dúvidas ou polêmicas. Se um falsário quisesse adulterar um texto bíblico de Marcos para esconder ou omitir o fato de que Jesus ficou nervoso ou irritado em certa ocasião, por que ele teria deixado intacta outra passagem do mesmo evangelho em que Jesus é relatado como estando nervoso? É óbvio, então, que a irritação de Jesus não tem absolutamente nada a ver com corrupção textual.

 

Vale ressaltar, porém, que a maioria dos manuscritos antigos verte por “compaixão” (σπλαγχνισθει), que parece mesmo ser o sentido diante do contexto, e não por “indignação” (ὀργισθείς), que mesmo se fosse a tradução correta de modo algum incorreria em algum ataque a qualquer doutrina bíblica que seja, já que Jesus não raramente era relatado com nervosismo por diferentes situações, em diferentes ocasiões (ex: Mc.3:5; Mc.10:14; Mt.21:12).

 

 

Mateus 24:36

 

Em Mateus 24:36 vemos Jesus dizendo sobre a Sua volta que “daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do Céu, mas unicamente meu Pai”. Se o texto diz claramente unicamente o Pai, então é óbvio que o Filho não conhecia esse dia em sua natureza humana na terra. O texto deixa isso implícito, sem precisar fazer esforço. Mas como Bart Ehrman gosta de uma boa polêmica, ele argumenta que alguns manuscritos antigos trazem nem o Filho, ficando assim: “nem os anjos, nem o Filho, senão unicamente o Pai”.

 

Essa descoberta bombástica e extraordinária de Ehrman surge para confirmar a força de seus argumentos e sua qualidade como crítico bíblico, que resume-se a isso: nada. O que é que a inclusão ou a exclusão de οὁ ὐδὲ υἱός (“nem o Filho”) mudaria no sentido da passagem? Absolutamente nada! O mais provável é que pela expressão “unicamente o Pai” estivesse tão óbvio que o Filho não estivesse incluído que algum copista pensou nem ser necessária a inclusão neste texto. Ou o inverso: pelo fato de ser “unicamente o Pai”, algum copista tenha acrescentado “nem o Filho”, para deixar explícito aquilo que já estava implícito no texto.

 

De qualquer forma, de um jeito ou de outro, o fato é que a inclusão ou exclusão de οὁ ὐδὲ υἱός não muda absolutamente nada do sentido da própria passagem, pois ele está ali implícita ou explicitamente. Além disso, em Marcos 13:32 a expressão nem o Filhoestá explícita nessa passagem, e não há sequer uma única variante em nem um único manuscrito que a omita. Marcos 13:32 diz que “daquele dia ou hora ninguém sabe, nem os anjos no Céu, nem o Filho, senão somente o Pai”.

 

Portanto, não há qualquer dúvida de que Jesus incluía a si mesmo entre aqueles que não saberiam o dia de sua vinda por ocasião daquela solenidade. Se algum copista quisesse adulterar o texto bíblico por não crer que Jesus não soubesse o dia de Sua vinda teria obviamente tirado também a parte que diz “unicamente o Pai”, e substituído por algo como “o Pai e o Filho”. Além disso, teria também aproveitado a oportunidade para fazer a mesma modificação no texto paralelo de Marcos 13:32, que não possui nenhuma variante. Mas nem uma coisa nem outra procedem. Tudo o que ocorreu foi erro de copista, sem alterar em absolutamente nada o sentido da passagem.

 

Daniel Wallace conclui:

 

“Ehrman não menciona Marcos 13:32 nenhuma vez em Misquoting Jesus, apesar de que ele explicitamente discute Mateus 24:3... mesmo que Mateus 24:36 originalmente faltasse ‘nem o Filho’, o fato de que o Pai sozinho (εἰ μὴ ὁ πατὴρ μόνος) tem este conhecimento certamente implica na ignorância do Filho (e o ‘sozinho’ é somente encontrado em Mateus 24:36, não em Marcos 13:32). Novamente, este detalhe importante não é mencionado em Misquoting Jesus, nem mesmo em Orthodox Corruption of Scripture [dois livros de Ehrman]”[32]

 

 

João 1:18

 

João 1:18 na ARA (Almeida Revista e Atualizada) diz que Jesus é o Deus unigênito, que está no seio do Pai”. Mas esse mesmo texto na versão Almeida Corrigida, Revisada e Fiel é traduzido por Filho unigênito, que está no seio do Pai”. Isso ocorre por causa das variantes textuais de diferentes manuscritos. Porém, nesse caso específico a tradução correta mais provável é de “Filho”, pois apenas sete dos mais de 5 mil manuscritos gregos antigos vertem por “Deus”, a saber: P66, P67, Aleph, Aleph-1, Vaticanus, C e L.

 

Como já dissemos anteriormente, a tradução correta deve ser aquela que é embasada pela maior quantidade de manuscritos, e neste caso apenas 0,1% do total de manuscritos gregos vertem por “Deus”. Esse não deveria ser um caso de dúvida ou polêmica. É um caso que muda o sentido do texto caso a variante esteja correta, mas não é de difícil identificação do original como muitos pensam. Seria difícil se 50% dissesse uma coisa e 50% dissesse outra, mas não quando 99,9% dizem uma coisa e apenas 0,1% diz outra. Mais uma vez, podemos neste texto chegar ao conteúdo original sem maiores dificuldades.

 

Mas Ehrman vai além. Ele diz que esses copistas que transcreveram esses sete manuscritos o adulteraram propositalmente. Mas será isso verdade? A resposta para isso se encontra apenas 17 versos antes, logo no primeiro versículo do evangelho de João. Ele diz que Jesus era o Verbo que estava com Deus e que era Deus. A declaração “e o Verbo era Deus” (kai theos en ho logos) é um depoimento categórico da divindade de Cristo, porque “se João tivesse a intenção de dar à frase um sentido adjetivo (que o Verbo era ‘semelhante a um deus’) ele teria à disposição um adjetivo (theios) pronto, a mão, que poderia ser perfeitamente utilizado. Mas, ao contrário, João diz que o Verbo é Deus (theos)”[33].

 

Portanto, os copistas que optaram pela tradução de “Deus” no lugar de “Filho” no fim do prólogo o fizeram possivelmente para dar ligação ao que o apóstolo disse no início do prólogo sobre a divindade de Cristo, ou seja, para que o prólogo terminasse da mesma forma que ele iniciou: com uma afirmação da divindade de Jesus. Não foi para incluir no texto bíblico uma “doutrina não-bíblica”, pois essa doutrina havia acabado de ter sido proclamada poucos versos antes e é confirmada por todos os manuscritos antigos.

 

Sendo assim, o fato de a transcrição correta de João 1:18 ser “Filho” de modo algum ataca qualquer doutrina vital do Cristianismo, pois a divindade de Cristo já está provada poucos versos antes, naquele mesmo evangelho. Além disso, ela é reafirmada com clareza alguns capítulos adiante no mesmo livro, quando Tomé reconhece Jesus como “Senhor meu e Deus meu” (Jo.20:28) - ho kurios mou kai ho theos mou – e sem variantes.

 

 

Marcos 16:9-20; João 8:1-11; 1ª João 5:7-8

 

Finalmente, chegamos ao nossos 1% de variantes no Novo Testamento que são minimamente relevantes, por de fato não estarem no original, mas serem frequentemente incluídas na maioria das versões bíblicas de nossos dias. Trata-se de três textos: a parte final de Marcos 16 (Mc.16:9-20), a fórmula trinitariana de 1ª João 5:7-8 e o relato da mulher adúltera de João 8:1-11. Este último nem ao menos deve ser considerado uma variante, já que ele não está presente em nenhum daqueles mais de 5 mil manuscritos gregos antigos. Ele apenas aparece em manuscritos gregos a partir do século doze.

 

Portanto, na contagem e análise de manuscritos para a Crítica Textual, esse texto nem mesmo é alvo de dúvidas. A evidência é de 100% contra 0%. Ele provavelmente foi um comentário de algum copista à margem do texto explicando o texto bíblico, que tardiamente algum outro copista desatento incluiu pensando que fosse parte do próprio texto sagrado. Ehrman faz muito barulho com textos como esse, como se tivesse descoberto a pólvora, quando, na verdade, há séculos os eruditos e estudiosos já sabem disso e continuam cristãos, pois este texto não representa nenhum problema em Crítica Textual. Nenhuma dificuldade em se achar o que foi dito originalmente.

 

O mesmo deve ser dito em relação aos outros dois textos. O relato da mulher adúltera possui ainda menos base que o de 1ª João 5:7-8. Ele despontou como uma tradição oral daquilo que teria sido pregado por Jesus, e algum escriba achou por bem incluir essa história nos relatos de Jesus no evangelho. Por isso, alguns manuscritos incluem essa história em João 8:1-11, enquanto outros o incluem em Lucas 21:38. Foi uma forma de tentar incluir nos evangelhos – em algum lugar – um relato bem possivelmente real sobre Jesus que teria sobrevivido apenas por meio da tradição oral. Quem o fez o fez com boas intenções, mas não fez certo. Tal passagem não está originalmente no evangelho de João.

 

Podemos, então, discorrer sobre a plausibilidade deste relato tendo por base a tradição, mas não tendo por base a Escritura. Ou seja: o fato de aquele relato não fazer parte do original de João não significa que a história não seja verdadeira nem significa que alguém tenha agido fraudulentamente, como se estivesse inventando uma estória irreal sobre Jesus, mas não é certo dizer que aquilo faz parte da Sagrada Escritura. Mais uma vez, a Crítica Textual não tem qualquer problema com esse texto. É unanimidade entre os eruditos cristãos que esse texto é um acréscimo posterior em poucos manuscritos.

 

O caso da parte final do relato de Marcos é similar, porém por outra razão: o final do relato original de Marcos se perdeu, ou o próprio Marcos deixou de dar um final definitivo ao seu próprio evangelho. Ele originalmente termina seu evangelho no verso 8 do capítulo 16, dizendo:

 

“Tremendo e assustadas, as mulheres saíram e fugiram do sepulcro. E não disseram nada a ninguém, porque estavam amedrontadas” (Marcos 16:8)

 

Esse “final inesperado” levou alguns copistas a colocarem algum “fim” na história, e no século V pelo menos quatro finais diferentes foram encontrados. O que ficou mais famoso foi esse “final longo”, que foi proposto por Ariston, o presbítero mencionado por Papias[34] e conhecido como um dos fundadores da Igreja cristã. É por isso que os Pais da Igreja nunca citaram os últimos 12 versos de Marcos, mas sempre paravam no verso 8. Eles sabiam que o evangelho de Marcos terminava abruptamente.

 

O mais importante que temos que mencionar é que essas três adições que estão no Novo Testamento nas versões vernáculas não são nenhum problema para a Crítica Textual, pois, como já foi demonstrado anteriormente neste capítulo, a Crítica Textual trabalha tendo por base o conjunto de manuscritos, e não alguns deles, isoladamente. E como possuímos uma multidão de 5 mil manuscritos gregos antigos (além de outros 20 mil em outros idiomas), fica relativamente fácil perceber se um texto faz parte do original ou não.

 

Se tivéssemos apenas dois ou três manuscritos antigos do Novo Testamento (um tanto comum para as obras seculares daquela época), os estudiosos estariam quebrando a cabeça para descobrirem o que faz parte do original e o pode ter sido adicionado por algum escriba por qualquer razão. Mas como possuímos literalmente milhares de manuscritos, é virtualmente impossível que não possamos remontar o original com precisão.

 

Entre os acadêmicos e estudiosos, esses três relatos (Mc.16:9-20; Jo.8:1-11; 1Jo.5:7-8) não representam qualquer problema na reconstrução do original. Podemos ter plena segurança da autenticidade do Novo Testamento conforme foi originalmente escrito, se estivermos dispostos a olharmos além daquilo que as versões vernáculas nos mostram.

 

Finalmente, devemos perguntar: qual destes textos (ou qualquer outro proposto por Ehrman) muda qualquer doutrina central das Escrituras? Nenhum. A fórmula trinitariana de 1ª João 5:7-8 é uma explicação de um ensino provado nas Escrituras. O texto de Mateus 28:19 diz basicamente o mesmo e não é alvo de qualquer debate na Crítica Textual, pois está presente em todos os manuscritos antigos, sem exceção. A Escritura deixa claro que o Pai é Deus, que Jesus é Deus, que o Espírito Santo é Deus e que Deus é um. Assim sendo, ainda que a trindade possa ser pouco entendida, ela certamente é bíblica. Os Pais da Igreja criam nela desde os primeiros séculos, tendo por base as Escrituras.[35]

 

O relato de João 8:1-11 é emocionante, indubitavelmente. Mas, se ele não é parte integrante do original das Escrituras, isso muda algo em termos de doutrina? Não. Nada. Tudo o que Jesus teria feito seria demonstrar compaixão, algo que ele demonstrou da mesma forma em diversas outras ocasiões. Ele inclusive chorou antes de ressuscitar Lázaro (Jo.11:35), ele era tomado por íntima compaixão (Lc.7:13), ele deu a vida por sua livre e espontânea vontade (Jo.10:18), aceitando a tortura, a crucificação e a morte – tudo fruto do amor. João 8:1-11 não contradiz nenhum ensino Escriturístico. A ausência dele também não nos deixa desamparados em nenhuma doutrina.

 

Da mesma forma, o final adicionado em Marcos 16:9-20 é um final tomado dos outros evangelhos, de forma sintetizada. Tudo o que ali está escrito, seja sobre ter aparecido a Maria Madalena (v.9), seja sobre a aparição de Jesus aos dois homens de Emaús (v.12), seja sobre a incredulidade dos discípulos (v.14), seja sobre pregar o evangelho (v.15), seja sobre falar em línguas (v.17), seja sobre expulsar demônios (v.17), seja sobre cura (v.18) ou sobre sua ascensão ao Céu (v.19) é relatado nos outros evangelhos ou nas epístolas. Até mesmo os pontos mais ousados de Marcos 16:9-20, como o fato de Deus ter poder para curar alguém que é picado por serpentes (v.18), tem paralelo bíblico (At.28:5).

 

Portanto, podemos ter plena certeza da autenticidade do Novo Testamento através da Crítica Textual, pela quantidade de manuscritos antigos que superam qualquer outra obra da história antiga e nos proporcionam capacidade de comparar os diferentes manuscritos e solucionar as dúvidas existentes em algumas variantes, que também não oferecem qualquer risco a qualquer doutrina cristã. Como Daniel Wallace acentua, “nós precisamos enfatizar que estes textos não mudam nenhuma doutrina fundamental, nenhuma doutrina central. Estudiosos evangélicos os abandonaram há mais de um século sem mudar um pingo da ortodoxia”[36].

 

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Por: Lucas Banzoli. 

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[1] TUREK, Frank; GEISLER, Norman. Não tenho fé suficiente para ser ateu. Editora Vida: 2006.

[2] ibid.

[3] MONTGOMERY, History and Christianity (A História e o Cristianismo). Downers Grove: Inter-Varsity, 1971.

[4] TUREK, Frank; GEISLER, Norman. Não tenho fé suficiente para ser ateu. Editora Vida: 2006.

[5] ibid.

[6] KENYON, Frederic G. - Our Bible and the Ancient Manuscripts (Nossa Bíblia e os manuscritos Antigos). Nova Iorque: Harper &Brothers, 1941.

[7] ibid.

[8] KENYON, Frederic G. The Bibie and Archaeology (A Bíblia e a Arqueologia) Nova Iorque: Harper & Row, 1940.

[9] TUREK, Frank; GEISLER, Norman. Não tenho fé suficiente para ser ateu. Editora Vida: 2006.

[10] HORT, Fenton John Anthony & WESTCOTT, Brooke Foss. The NewTestament in the Original Greek (O Novo Testamento no Original Grego). Nova Iorque: McMillan, 1881. vol. 1.

[11] GREENLEE, J. Harold. Introduction to New Testament Textual Criticism (Introdução à Crítica Textual do Novo Testamento) Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1964.

[12] BRUCE, F.F. Merece Confiança o Novo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 1965.

[13] GREENLEE, J. Harold. Introduction to New Testament Textual Criticism (Introdução à Crítica Textual do Novo Testamento) Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1964.

[14] ibid.

[15] METZGER, Bruce. The Text of the New Testament (O Texto do Novo Testamento). Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1968.

[16] BRUCE, F.F. The Books and the Parchments (Os Livros e os Pergaminhos). Edição revista. Westwood: Fleming H. Revê 11,1963.

[17] TUREK, Frank; GEISLER, Norman. Não tenho fé suficiente para ser ateu. Editora Vida: 2006.

[18] GEISLER, Norman. NIX, William. Introdução Bíblica. Editora Vida: 1997.

[19] Policarpo aos Filipenses, 12:1.

[20] 2ª Clemente, 14:2.

[21] 2ª Clemente, 2:4.

[22] Clemente de Alexandria. Não confundir com o outro Clemente, o romano.

[23] BERTI, Marcelo. O que Ehrman disse? O que Ehrman não disse? Disponível em: <http://vimeo.com/9831765>. Acesso em: 04/11/2013.

[24] TUREK, Frank; GEISLER, Norman. Não tenho fé suficiente para ser ateu. Editora Vida: 2006.

[25] WALLACE, Daniel Baird. The Gospel according to Bart. Disponível em: <https://bible.org/article/gospel-according-bart>. Acesso em: 04/11/2013.

[26] Saulo é o outro nome de Paulo nas Escrituras (Atos 13:9).

[27] BERTI, Marcelo. O que Ehrman disse? O que Ehrman não disse? Disponível em: <http://vimeo.com/9831765>. Acesso em: 04/11/2013.

[28] Mais detalhes sobre as fontes em GEISLER, Enciclopédia de apologética, p. 641.

[29] A Companion to the Greek Testament and the English Version, 3.ed. New York: Hamper, 1883, p. 177.

[30] Mais detalhes sobre as fontes em GEISLER, Enciclopédia de apologética, p. 641.

[31] ibid.

[32] WALLACE, Daniel Baird. The Gospel according to Bart. Disponível em: <https://bible.org/article/gospel-according-bart>. Acesso em: 04/11/2013.

[33] GEISLER, Norman; RHODES, Ron. Resposta às Seitas. CPAD: 2ª Edição, 2001, p. 262.

[34] Eusébio de Cesareia, HE, Livro III, 39:15.

[35] Algumas citações dos Pais da Igreja sobre a doutrina da trindade antes do Concílio de Niceia podem ser conferidas aqui: <http://marceloberti.wordpress.com/2010/05/21/doutrina-da-trindade-antes-de-niceia/>.

[36] WALLACE, Daniel Baird. The Gospel according to Bart. Disponível em: <https://bible.org/article/gospel-according-bart>. Acesso em: 04/11/2013.

 

 

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