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DIÁLOGO SOBRE O CÂNON BÍBLICO
DIÁLOGO SOBRE O CÂNON BÍBLICO

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Certo dia um evangélico se encontrou com um amigo de infância, que era seu companheiro de todos os Domingos na missa da catedral Nossa Senhora de Alguma Coisa. Tendo se convertido ao verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, estava se dirigindo ao culto, de Bíblia na mão, quando se deparou com esse amigo católico, que continuava nas trevas do catolicismo romano, embora tivesse deixado de frequentar a missa e se tornado um católico de IBGE. 
 
Então, o evangélico disse:
 
Evangélico – Você por aqui, quanto tempo! Como vai, meu irmão? Está indo à missa?
 
Católico – Vou bem, meu amigo! Não, não estou indo mais na missa já faz vinte anos, desde antes da época do padre Marcelo Rossi gravar seu primeiro CD e do padre Jonas ensinar o povo a falar em línguas estranhas no YouTube.
 
Evangélico – Que bênção! Foi meio difícil de perceber, já que de qualquer jeito você não estaria com a Bíblia. Mas me diga, você se converteu?
 
Católico – Eu nunca vou me converter ao Protestantismo! Lutero e seus seguidores são hereges apóstatas! 
 
Evangélico – Mas eu não disse para se converter ao Protestantismo, disse pra se converter a Jesus Cristo! 
 
Católico – E abandonar as cinquenta e cinco imagens de escultura que eu comprei para decorar minha casa? Não, obrigado. Gastei muito dinheiro com elas. Posso não frequentar a missa, mas não perco o meu dinheiro. Além disso, a minha fé vai muito bem, obrigado. Rezo o Pai-Nosso duas vezes por dia e o Ave-Maria vinte e oito vezes, e uma vez por ano subo as escadarias do Senhor do Bonfim. Melhor impossível! Além disso, eu fui batizado quando bebê, que mais preciso fazer pra ser salvo? A Igreja Católica é a única Igreja de Cristo, é a única Igreja de Cristo, é a única Igreja de Cristo!
 
Evangélico – Eu sei que você deve estar se sentindo “decolando” com tanta busca a Deus assim, só falta me dizer que também faz o sinal da cruz, aí vai virar o Supra Sumo da espiritualidade!
 
Católico – Quer saber? Eu não gosto de vocês, protestantes, porque vocês retiraram sete livros da Bíblia!  
 
Evangélico – Com que base você afirma isso?
 
Católico – Foi Lutero, aquele bêbado, quem retirou sete livros da Bíblia porque não eram do seu gosto! 
 
Evangélico – Então, quer dizer que antes de Lutero estes livros eram aceitos por toda a Igreja Católica? 
 
Católico – Com certeza! Foi Lutero quem os retirou! 
 
Evangélico – Como, então, você explica o fato de que dezoito Pais da Igreja eram contra a canonicidade dos apócrifos? 
 
Católico – Duvido! Você está mentindo! Os Pais da Igreja eram católicos romanos! Prove o que você está dizendo. 
 
Evangélico – Como será cansativo passar todas as referências, comecemos com Atanásio, que listou o cânon cristão em igualdade com o judaico (com 22 livros), e em seguida disse: 
 
“Mas para maior exatidão eu adiciono isto também, escrevendo por necessidade, que há outros livros além destes que não estão incluídos no Cânon, mas apontados pelos Pais para leitura por aqueles que acabaram de se juntar a nós, e que desejam instrução na palavra celestial. A Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Siraque, Ester, Judite, Tobias, aquele que é chamado de o Ensino dos Apóstolos e o Pastor. Mas os primeiros, meus irmãos, são incluídos no Cânon, sendo os últimos meramente para leitura (Epístola 39, Cap.7) 
 
Veja, caro amigo católico, que os livros que vocês consideram “canônicos” não estavam incluídos no cânon na opinião dos Pais da Igreja – e não somente na de Lutero – mas eram meramente para leitura! 
 
Católico – Bem... mas pode ser que Atanásio estivesse enganado! E, afinal de contas, se aqueles livros eram lidos eles poderiam ser Sagrada Escritura, mesmo com Atanásio dizendo que eles não estavam incluídos no cânon.
 
Evangélico – Sobre Atanásio estar enganado, o mais notável é que outros dezessete Pais da Igreja disseram as mesmas coisas que ele! Será que todos eles estavam “enganados”?
 
Católico – Se isso for verdade, então estavam. 
 
Evangélico – Então, não foi Lutero quem retirou livros da Bíblia, mas ele somente preservou aquilo que era crido por estes Pais da Igreja. 
 
Católico – Perdoa-me. Creio que eles não estavam enganados, pois continuo sustentando a tese de que foi Lutero quem retirou aqueles livros da Bíblia. 
 
Evangélico – Então, se Atanásio e os demais Pais não erraram, logicamente devemos validar aquela declaração. Mas, me diga, caro amigo católico: você considera a Didaquê e o Pastor de Hermas como sendo Escritura Sagrada? 
 
Católico – Certamente que não. 
 
Evangélico – Você considera que estes dois livros eram canônicos? 
 
Católico – Claro que não! 
 
Evangélico –Você acha que são inspirados? 
 
Católico – Mas por que continua perguntando? Eu já disse que não!
 
Evangélico – Então, a sua alegação de que tais livros “eclesiásticos” (aceitos para a leitura na Igreja) eram Escritura Sagrada cai por terra, visto que o autor que estamos falando cita o Pastor de Hermas e a Didaquê também como livros “eclesiásticos”. Logo, se por livro eclesiástico significa que seja Sagrada Escritura (mesmo com Atanásio tendo dito que tais livros não estavam no cânon), então deveríamos considerar “Escritura” também estes dois livros que são mencionados na mesma classe dos livros apócrifos que você possui na sua Bíblia. 
 
Católico – Eu já não disse que Atanásio estava falando bobagem? Além disso, tenho certeza que os outros autores não classificavam os deuterocanônicos como sendo meramente eclesiásticos! Aposto que eles eram considerados canônicos deste aquela época, e que Lutero que os tirou do cânon!
 
Evangélico – Infelizmente, caro amigo, a sua alegação não tem qualquer fundamento, visto que todos os Pais da Igreja classificavam os apócrifos como sendo livros eclesiásticos, meramente para leitura, e não canônicos. 
 
Católico – Prove! 
 
Evangélico – Diga o nome de um Pai da Igreja. 
 
Católico – Hmm... {vou falar um bem difícil que ele não vai saber!} Rufino!
 
Evangélico – Então que Rufino lhe responda: 
 
“Estes são os que os Pais incluíram dentro do cânon, pelos quais as afirmações da nossa fé são firmadas; contudo, convém saber que há outros livros que não são canônicos, mas chamados, por nossos maiores, de eclesiásticos, como a Sabedoria de Salomão e a outra Sabedoria que se diz do filho de Siraque; da mesma ordem é o livro de Tobias e Judite e os Macabeus, que no máximo são lidos na igreja, mas não são tidos como autoridade por onde se possa firmar coisas da fé(NPNF2 3:558; Rufino, sive Cyp. in Explic. Symboli) 
 
Católico – Rufino é outro enganador! Duvido que você prove com um Pai da Igreja de grande renome histórico, como Jerônimo! 
 
Evangélico – Então que Jerônimo lhe responda:
 
"E assim da mesma maneira pela qual a igreja lê Judite, Tobias e Macabeus (no culto público) mas não os recebe entre as Escrituras canônicas, assim também sejam estes dois livros [Sabedoria e Eclesiástico] úteis para a edificação do povo, mas não para estabelecer as doutrinas da Igreja" (Prefácio dos Livros de Salomão) 
 
Católico – Deixa essa cara pra lá! Agora eu vou pegar você! Quero, vejamos... o papa Gregório Magno! Agora que é um papa, você não vai conseguir! 
 
Evangélico – Então que Gregório lhe responda:
 
“Em relação a tal particular não estamos a atuar irregularmente, se dos livros, ainda que não canônicos, no entanto outorgados para a edificação da Igreja, extraímos testemunho. Assim, Eleázar na batalha feriu e derribou o elefante, mas caiu debaixo da própria besta que tinha matado [1 Macabeus 6:46]” (Library of the Fathers of the Holy Catholic Church, 2:424)
 
Católico – Já estou perdendo a paciência! Agora eu vou apelar pra santo Agostinho!
 
Evangélico – Então que Agostinho lhe responda: 
 
“O Santo, porém, prova com ótima e farta argumentação que neste mundo não faltam os perigos de pecar, mas não subsistirão depois desta vida. E aduz como testemunho as palavras do livro da Sabedoria: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar (Sb 4,11). Este argumento aduzido também por mim, nossos irmãos não aceitaram, conforme dissestes, por ter sido tomado de um livro não canônico, como se, à parte deste livro, a doutrina que quisemos ensinar não fosse bastante clara(Da Justificação dos Santos, Cap.14) 
 
Católico – Agora já é demais! Mas a esperança é a última que morre! Vou de Atanásio! 
 
Evangélico – E ntão que Atanásio lhe responda:
 
“Mas para maior exatidão eu adiciono isto também, escrevendo por necessidade, que há outros livros além destes que não estão incluídos no Cânon, mas apontados pelos Pais para leitura por aqueles que acabaram de se juntar a nós, e que desejam instrução na palavra celestial. A Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Siraque, Ester, Judite, Tobias, aquele que é chamado de o Ensino dos Apóstolos e o Pastor. Mas os primeiros, meus irmãos, são incluídos no Cânon, sendo os últimos meramente para leitura (Epístola 39, Cap.7) 
 
Católico – Eu disse Atanásio? Estava me confundindo! Eu quis dizer: “Hilário”!
 
Evangélico – Isso sim que é realmente hilário! Mas que Hilário lhe responda:
 
Em vinte e dois livros está julgada a lei do Antigo Testamento, para que corresponda ao número das letras... confesso que alguns querem acrescentar Tobias e Judite, mas o outro parecer está mais conforme a tradição(Hilario in Prolog. Psal. explanat. Veronae 1730)
 
Católico – Chega, desisto! Admito que os deuterocanônicos eram considerados eclesiásticos e não canônicos, e que, como você mostrou que havia outros livros eclesiásticos que nós, católicos, não consideramos Escritura, então os eclesiásticos não são Escritura Sagrada. Mas não pense que só por isso eu já concordo com você! Os Pais da Igreja citaram os deuterocanônicos várias vezes! Te peguei nessa!
 
Evangélico – Certamente, mas o que o fato de citar um livro tem a ver com este livro ser necessariamente Escritura Sagrada? 
 
Católico – Ora, se eles citavam estes livros, deve ser porque eles são inspirados!
 
Evangélico – E o apóstolo Paulo, que citou escritores pagãos, como Menandro, Epiménides ou Arato, será que concordava que tais escritos pagãos era Escritura Sagrada? 
 
Católico – Não, mas... 
 
Evangélico – E Judas, que citou o apócrifo da Assunção de Moisés (Jd 9) e o apócrifo de Enoque (Jd 14), será que considerava esses livros como Escritura? 
 
Católico – Creio que não...
 
Evangélico – Então não há qualquer problema em fazer alusões aos apócrifos, visto que os Pais citavam com frequência outros livros eclesiásticos, tais como o Pastor de Hermas, a Epístola de Clemente aos Coríntios, a Epístola de Barnabé, assim como outros escritos que, embora não fossem canônicos, eram citados com frequência para edificação. 
 
Católico – Mas o meu argumento não termina aqui. Os Pais da Igreja citavam os deuterocanônicos como sendo Escritura Sagrada! Leia os escritos de Tertuliano, de Justino, da epístola de Barnabé e outros que citavam os deuterocanônicos como sendo Escritura Sagrada! 
 
Evangélico – Você está simplesmente equivocado, caro amigo católico. A Epístola de Barnabé (6.7) e Tertuliano Contra Marcião (3.22.5), não citam Sabedoria 2.12, e sim Isaías 3.10, e Tertuliano, De anima (15), não cita Sabedoria 1.6, e sim Salmos 139.23, como a comparação entre as passagens demonstra. Da mesma forma, Justino Mártir, Diálogo com Trifão (129), claramente não cita Sabedoria, e sim Provérbios 8.21-25. Portanto, o seu erro aqui está em crer cegamente que qualquer citação que parece estar num apócrifo não esteja presente de forma mais clara nas Escrituras canônicas. 
 
Católico – Quer dizer, então, que os catequistas me ensinaram tudo errado? 
 
Evangélico – É provável, amigo.
 
Católico – Não posso acreditar nessa heresia! A Igreja Católica é a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! (...)
 
Evangélico – Você só sabe repetir essa frase ou sabe também argumentar em favor dela?
 
Católico – Não interessa! O que importa é que o cânon correto é o cânon alexandrino, e não o cânon palestino!
 
Evangélico – Você poderia, fazendo um favor, me dizer com que base que afirma tão categoricamente que existia um tal de “cânon alexandrino”? 
 
Católico – Como você é ignorante! Já deveria saber que a versão grega Septuaginta continha os livros deuterocanônicos, então existia sim um cânon alexandrino! Como ousas dizer o contrário? 
 
Evangélico – Calma, vamos fazer como Jack o Estripador faria: vamos por partes. Primeiramente você afirma que existia um “cânon alexandrino” diferente do cânon judaico tradicional por causa da Septuaginta, que continha mais livros que o “cânon palestino”, certo?
 
Católico – É isso aí!
 
Evangélico – Mas, então, como você explica o fato de que o famoso escritor judeu Filão, em pleno século I, fez enormes citações bíblicas com grande frequência, citando as Escrituras aproximadamente mil vezes, não tenha citado sequer uma única vez qualquer livro apócrifo? Por que ele não cita absolutamente nunca estes livros que supostamente fariam parte de um “cânon alexandrino”?
 
Católico – Vai ver ele não conhecia Alexandria...
 
Evangélico – Como, se ele era exatamente de Alexandria?! 
 
Católico – {silêncio... pensativo... meditando...} 
 
Evangélico – Ainda mais sabendo que o livro da Sabedoria de Salomão e Eclesiástico favoreceriam em muito a sua própria tese da compatibilidade entre a filosofia grega e a revelação bíblica, seria muito óbvio que ele os usaria, caso realmente existisse esse tal “cânon alexandrino”. O fato de Filão jamais ter usado estes livros – apesar de lhe serem bem conhecidos – demonstra mais uma vez que Alexandria não tinha um cânon particular diferente dos livros da Palestina. 
 
Católico – Mas, então, como é que você explica o fato da Septuaginta ter mais livros que o total do cânon judaico?
 
Evangélico – Eu que lhe pergunto: por que é que as primeiras versões da Bíblia protestante continham os apócrifos, mesmo eles não sendo considerados canônicos por eles?
 
Católico – Talvez para lê-los, mesmo sem os considerar canônicos...
 
Evangélico – A mesma coisa é que ocorre com o tal “cânon alexandrino”. Eles não tinham um consenso diferenciado dos judeus da Palestina; os acréscimos de livros não se dão por terem um “cânon” diferente, mas somente por considerá-los úteis para a leitura. Além disso, nem Filão, nem Josefo, nem qualquer outro autor judeu que conviveu naquela época teve qualquer conhecimento de um “cânon” alexandrino. Será que você sabe mais de história judaica do que os judeus? Eles conheciam a tradução dos Setenta, mas nunca entenderam que eles fizeram um “cânon diferente”. Se fosse este o caso, Josefo não teria tido hesitação em mostrar a existência deste tal “cânon”, mas, ao contrário, ele afirma:
 
“Não há pois entre nós milhares de livros em desacordo e em mútua contradição, mas há sim, apenas vinte e dois livros que contêm a relação de todo o tempo e que com justiça são considerados divinos. Destes, cinco são de Moisés, e compreendem as leis e a tradição da criação do homem até a morte de Moisés. Este período abarca quase três mil anos. Desde a morte de Moisés até a de Artaxerxes, rei dos persas depois de Xerxes, os profetas posteriores a Moisés escreveram os fatos de suas épocas em treze livros. Os outros quatro contêm hinos em honra a Deus e regras de vida para os homens. Desde Artaxerxes (sucessor de Xerxes) até nossos dias, tudo tem sido registrado, mas não tem sido considerado digno de tanto crédito quanto aquilo que precedeu a esta época, visto que a sucessão dos profetas cessou. Mas a fé que depositamos em nossos próprios escritos é percebida através de nossa conduta; pois, apesar de ter-se passado tanto tempo, ninguém jamais ousou acrescentar coisa alguma a eles, nem tirar deles coisa alguma, nem alterar neles qualquer coisa que seja(Flávio Josefo, Contra Apião, 1:41) 
 
Católico – Continuo sem concordar com você.
 
Evangélico – Por quê? Quais são os seus contra-argumentos? 
 
Católico – Meu contra-argumento é que a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! (...)
 
Evangélico – Já acabou? 
 
Católico – Não, tem mais. Você está dizendo que os judeus tinham um só cânon, mas este cânon só foi criado em 90 d.C, no Concílio de Jâmnia!
 
Evangélico – Não há nada mais desinformado do que essa afirmação. O Concílio de Jâmnia não criou cânon nenhum; ele apenas reconheceu e confirmou o cânon já existente! Estude história. Não houve qualquer alteração no cânon judaico antes e depois do Concílio de Jâmnia. Ele nem sequer discutiu a inclusão de livros no cânon, mas somente a continuação de alguns livros, como Ester, Provérbios e Ezequiel. No fim das contas, o mesmo cânon que já vigorava antes continuou em vigência, não foi feita qualquer alteração, os que estavam dentro continuaram dentro e os apócrifos continuaram das portas pra fora da comunidade judaica!
 
Católico – Quer dizer que antes de Jâmnia os judeus já tinham uma lista definida de livros aceitos e rejeitados? 
 
Evangélico – Com certeza, amigo católico. O judeu Flávio Josefo, como vimos acima, fez menção ao cânon de 22 livros décadas antes de Jâmnia e com os mesmos livros presentes; Jesus Cristo e os apóstolos fizeram diversas vezes menção às Escrituras muitas décadas antes de Jâmnia, e como é que eles iriam fazer citações das Escrituras se não houve cânon nem lista de livros aprovados antes de 90 d.C?
 
Católico – Tem razão. Vou ter que rever este meu argumento.
 
Evangélico – Seria melhor você rever tudo, amigo!
 
Católico – Mesmo assim, eu não confio neste cânon judaico. Eu sou cristão, não judeu. Os judeus crucificaram Jesus! Como é que você ousa confiar os oráculos de Deus a eles, se eles crucificaram o Senhor Jesus?!
 
Evangélico – O fato dos judeus serem detentores dos oráculos (ou palavra) de Deus em seu encargo no tempo do AT é confirmado não por mim, mas pelo próprio apóstolo Paulo, que, mesmo sabendo que os judeus crucificaram Jesus, disse isso aqui: 
 
“Que vantagem, pois, tem o judeu? Ou qual é a utilidade da circuncisão? Muita, de toda a maneira. Principalmente porque, na verdade, lhes foram confiados os oráculos de Deus. Que importa se alguns deles foram infiéis? A sua infidelidade anulará a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma! Seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso. Como está escrito: ‘De modo que são justas as tuas palavras e prevaleces quando julgas’” (Romanos 5:1-4) 
 
Veja, caro amigo católico, que Paulo afirma que os oráculos de Deus foram confiados aos judeus, e nem mesmo o fato deles terem crucificado o Senhor Jesus muda isso, pois o próprio Paulo diz: “Que importa se alguns deles foram infiéis? A sua infidelidade anulará a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma!” (v.3). Em outras palavras, o fato de que eles foram infiéis ao crucificarem o Senhor Jesus não muda “de maneira nenhuma” (v.4) o fato de que os oráculos de Deus foram confiados a eles, não aos cristãos!
 
Católico – Como assim? Quer dizer que os cristãos não têm autoridade sobre o Antigo Testamento?
 
Evangélico – Quer dizer que os cristãos têm que respeitar e reconhecer a autoridade judaica sobre o cânon do AT, assim como eles tem que reconhecer a autoridade da Igreja sobre o cânon do NT. Da mesma forma que Deus concedeu à Igreja o papel de reconhecer o cânon correto do NT, Ele concedeu aos judeus o papel de reconhecer os Seus oráculos no tempo do AT. Portanto, a direção correta quanto ao cânon veterotestamentário está em domínio deles, não nosso. Coube à Igreja da época reconhecer o mesmo cânon de 22 livros, como eles com frequência faziam. 
 
Católico – Eu ainda hesito em crer da mesma forma que você. Pra mim, a Igreja corrigiu o erro dos judeus e intitulou um cânon bíblico do AT mais abrangente. Os primeiros cristãos devem ter corrigido o erro da tradição judaica e estabelecido a sua própria tradição e parecer no lugar. 
 
Evangélico – Isso não está de acordo com os fatos, caro apologista católico. Os Pais da Igreja nunca entraram em desacordo quanto ao cânon de 22 livros em favor de um cânon “maior”. Pelo contrário, eles defendiam exatamente este mesmo cânon de 22 livros! Havia uma união de parecer entre cristãos e judeus quando o assunto em questão era o cânon do Antigo Testamento. 
 
Católico – Quero ver provas!!! Cadê?! 
 
Evangélico – Quantas você quer?
 
Católico – Umas cinco, pelo menos! 
 
Evangélico – Como eu sou muito bonzinho e misericordioso, vou te passar onze (se quiser mais é só pedir!): 
 
Orígenes:
 
“Ao explicar o salmo primeiro, ele [Orígenes] faz uma exposição do catálogo das Sagradas Escrituras do Antigo Testamento, escrevendo textualmente como segue: ‘Não se pode ignorar que os livros testamentários, tal como os transmi­tiram os hebreus, são vinte e dois, tantos como o número de letras que há entre eles’" (História Eclesiástica, Livro VI, 25:1,2) 
 
Eusébio: 
 
“Não há pois entre nós milhares de livros em desacordo e em mútua contradição, mas há sim, apenas vinte e dois livros que contêm a relação de todo o tempo e que com justiça são considerados divinos(História Eclesiástica, Livro III, 10:1-6) 
 
Atanásio: 
 
“Há, portanto, 22 Livros do Antigo Testamento, número que, pelo que ouvi, nos foram transmitidos, sendo este o número citado nas cartas entre os hebreus” (Epístola 39, Cap.4)
 
Hilário:
 
“A lei do Velho Testamento é reconhecida em vinte e dois livros, de forma que eles se enquadram no número de letras hebraicas(Sancti Hilarii Pictaviensis Episcopi Tractatus Super Psalmos, Prologue 15, Testamenti Veteris libri XXII, aut 24. Tres linguae praecipuae. PL 9:241)
 
Cirilo de Jerusalém:
 
“Leia as Divinas Escrituras, os vinte e dois livros do Velho Testamento, estes que foram traduzidos pelos setenta e dois intérpretes... Destes leia os vinte e dois livros, mas não tenha nada com os livros apócrifos. Estude seriamente estes apenas, os quais nós lemos abertamente na Igreja (Catechetical Lectures IV.33-36) 
 
Basílio:
 
“Nem devemos falhar em observar que não é sem razão que os livros canônicos são vinte e dois, de acordo com a tradição hebraica, o mesmo número das letras do alfabeto hebraico. Pois como as vinte e duas letras podem ser consideradas uma introdução à sabedoria e às divinas doutrinas dadas aos homens naquelas letras, assim os vinte e dois livros inspirados são o alfabeto da sabedoria de Deus e uma introdução ao conhecimento das realidades (Philocalia, Cap.3) 
 
Gregório Nazianzeno: 
 
“Estes vinte e dois livros do Velho Testamento são contados de acordo com as vinte e duas letras dos judeus... Que sua mente não seja enganada sobre livros estranhos, pois várias falsas atribuições estão circulando, mas você deve manter este número legítimo de mim, querido leitor (Carmina Dogmática, Livro I, Seção I, Carmen XII. PG 37:471-474) 
 
Tenho alistado vinte e dois livros, de acordo com as vinte e duas letras hebraicas. Se há qualquer um além destes, não são genuínos (Carta a Seleuco. ap. Gregório de Nazianzo, CarminumII.vii, PG 37.1593-1595) 
 
Rufino: 
 
“E então parece apropriado neste lugar enumerar, como nós temos aprendido da tradição dos Pais, os livros do Novo e do Velho Testamento, que de acordo com a tradição de nossos pais, se acredita serem inspirados pelo Espírito Santo, sendo transmitido para as igrejas de Cristo...” {citando os 22 livros de acordo com a tradição judaica} (NPNF2, Vol. 3, Rufino, Comentário ao Credo dos Apóstolos 36) 
 
Jerônimo: 
 
“E assim há também vinte e dois livros do Antigo Testamento; isto é, cinco de Moisés, oito dos profetas, nove dos hagiógrafos, embora alguns incluam Ruth e Kinoth (Lamentações) entre os hagiógrafos, e pensam que estes livros devem contar-se por separado; teríamos assim vinte e quatro livros da Antiga Lei” (Prefácio aos Livros de Samuel e Reis. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series, vol. 6, p. 489-490) 
 
Concílio de Laodiceia: 
 
Estes são todos os livros do Antigo Testamento nomeados para serem lidos: 1, Genesis do mundo; 2, O Êxodo do Egito, 3, Levítico, 4, Números, 5, Deuteronômio, 6, Josué, filho de Num, 7, Juízes, Rute, 8, Esther, 9, Dos Reis, Primeira e Segunda, 10, dos reis, Terceira e Quarta, 11, Crônicas, Primeiro e Segundo, 12, Esdras, Primeiro e Segundo, 13, O Livro dos Salmos ; 14, Os Provérbios de Salomão, 15, Eclesiastes, 16, O Cântico dos Cânticos, 17, Jó; 18, Os Doze Profetas, 19, Isaías, 20, Jeremias e Baruque, Lamentações, 21, Ezequiel ; 22, Daniel” (Cânon 60 do Concílio de Laodiceia) 
 
João Damasceno:
 
“Observa-se, ainda, que há vinte e dois livros do Antigo Testamento, um para cada letra do alfabeto hebraico (An Exposition of the Orthodox Faith, Livro IV, Cap.17) 
 
Depois de ler todas essas passagens e declarações feitas, me responda honestamente: os cristãos estavam em acordo ou em desacordo com o cânon judaico de 22 livros do AT?
 
Católico – Por mais que eu seja católico, nessa eu terei que ser honesto: estavam em acordo. 
 
Evangélico – Portanto, os cristãos não mudaram ou corrigiram nada do parecer da comunidade judaica; ao contrário, eles reconheceram que a eles (os judeus) foi confiada a Palavra de Deus (AT da época), e simplesmente reconheceram a autoridade de tal cânon ao invés de tentar mudá-lo. Mais do que isso, ao invés de refutarem a tradição hebraica, eles se apoiaram nessa própria tradição para reconhecer o cânon cristão do AT, como disse Basílio de Cesaréia: 
 
“Nem devemos falhar em observar que não é sem razão que os livros canônicos são vinte e dois, de acordo com a tradição hebraica, o mesmo número das letras do alfabeto hebraico(Philocalia, Cap.3)
 
Ou seja, eles se apoiavam em cima da tradição hebraica quanto ao cânon do AT, o que demonstra claramente que eles não eram divergentes com relação a isso.
 
Católico – Pera aí que eu vou procurar mais argumentos na internet... 
 
(Duas horas depois...) 
 
Católico – Veja só o que eu achei! É agora que eu vou acabar com você! 
 
Evangélico – Estamos vendo como realmente os argumentos católicos são “fortes” quando postos a prova! 
 
Católico – Eu li que os apóstolos e Pais da Igreja usavam a Septuaginta, certo? 
 
Evangélico – Muitas vezes. 
 
Católico – E, na Septuaginta, tinha os deuterocanônicos, certo? 
 
Evangélico – Correto, amigo. Eeee.... daí?
 
Católico – Daí que os apóstolos e Pais da Igreja criam na canonicidade dos deuterocanônicos! Fim de papo! Ganhei o debate! Viva a Igreja Católica! Viva o papa!!! 
 
Evangélico – Não tão cedo, amigo. Você está mesmo querendo dizer que pelo fato de um livro estar presente na Septuaginta, significa que ele é canônico? 
 
Católico – Com certeza!
 
Evangélico – Me diga: você considera 3ª Macabeus canônico? 
 
Católico – Não. 
 
Evangélico – Considera 4ª Macabeus canônico? 
 
Católico – Não. 
 
Evangélico – Considera o Pastor de Hermas canônico? 
 
Católico – Nem conheço o Pastor de Hermas. Além disso, não gosto de pastor. 
 
Evangélico – Considera 1ª Esdras canônico? 
 
Católico – Se o papa diz que não, então não... 
 
Evangélico – Considera 1ª e 2ª Clemente, os Salmos de Salomão e a Epístola de Barnabé como canônicos? 
 
Católico – Mas por que você está me perguntando isso? Não creio em nenhum destes livros! 
 
Evangélico – Mas deveria, já que eles também estão inseridos na Septuaginta! 
 
Católico – Como assim?! Pensei que o meu argumento era imbatível-inabalável-irrefutável! 
 
Evangélico – Infelizmente... mas não para por aqui, não. Muitos destes livros apócrifos que você tem consigo na sua Bíblia não estavam presentes nos códices mais antigos da Septuaginta. 
 
Católico – Como assim?  
 
Evangélico – Explico. O Códice Alexandrino (A) inclui 1ª Esdras, 3ª e 4ª Macabeus, 1ª e 2ª Clemente e os Salmos de Salomão. 
 
Católico – Nunca gostei deste Códice Alexandrino mesmo. A minha praia é com o Códice Vaticano!  
 
Evangélico – Isso não ameniza muito a sua situação, amigo. O Códice Vaticano (B) inclui o apócrifo de 1ª Esdras e exclui os livros de 1ª e 2ª Macabeus! Agora só sobrou pra você o Códice Sinático...
 
Católico – Sempre disse que o Códice Sinático era meu favorito! 
 
Evangélico – Se sim ou se não, o fato é que o Códice Sinático (Alef) inclui 4ª Macabeus, a Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas, mas deixa de fora Baruque e 2ª Macabeus! De qualquer jeito, este “argumento da Septuaginta” já era! 
 
Católico – Droga! Agora vou ter que descer de nível pra procurar em outro site da internet! Vou procurar respostas no site do Rafael Rodrigues! 
 
Evangélico – Mas precisa descer de nível tanto assim? Você confia mesmo nessa gente? 
 
Católico – Não, mas foi o único lugar que eu encontrei alguma coisa.
 
Evangélico – Então vejamos o que esse sujeito escreveu... 
 
Católico – Ele disse que: (A) Jerônimo mudou de opinião com relação aos apócrifos e (B) que quando os Pais da Igreja diziam que os deuterocanônicos não estavam no cânon é porque não eram lidos na missa deles. 
 
Evangélico – Missa? Na Igreja primitiva? 
 
[risos] 
 
[gargalhadas] 
 
Evangélico – Com qual dos dois argumentos você acha menos ridículo de refutar? 
 
Católico – Pode começar com o argumento da missa. 
 
Evangélico – Rafael argumentou que os “deuterocanônicos” eram chamados de não-canônicos porque não eram utilizados na liturgia da Igreja (para leitura aberta na Igreja), mas que isso não muda o fato de que aqueles livros eram inspirados e usados como regra de fé e doutrina. No entanto, o que vemos é exatamente o contrário: os próprios Pais da Igreja afirmavam que os apócrifos não podiam ser usados para fundamentar doutrina nenhuma! 
 
Católico – O que você está afirmando é muito sério. Não posso conceber que um livro que seja considerado Escritura Sagrada não possa ser usado para o ensino doutrinário! Afinal, Paulo fala que a toda Escritura é “inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e plenamente preparado para toda boa obra (2Tm.3:16,17).  
 
Se a toda Escritura é útil para o ensino e para que o homem esteja plenamente preparado, então toda Escritura tem que ter possibilidade de ser usada no aspecto doutrinário; de outra forma, como é que um homem pode ser perfeito e plenamente preparado sem a doutrina? Como é que a Escritura Sagrada não pode ser usada para a doutrina, se Paulo diz o contrário? O que você está afirmando é muito sério, fundamente as suas argumentações!
 
Evangélico – Vamos lá, meu caro. Penso que seja útil passar as declarações de alguns Pais da Igreja que rejeitavam que os apócrifos pudessem ser usados como regra doutrinária. Vejamos: 
 
Atanásio: 
 
“Além destes, porém, há outros do mesmo Velho Testamento, que não são canônicos, que somente se lê na Igreja, como a Sabedoria de Salomão (Athanas. in Synopsis, et in Lit. Festiv. – Dupin, t. 1. Pag. 180)
 
Atanásio afirma que eles eram “lidos na Igreja” (o que deixa por terra a falácia de que não eram canônicos por não estarem no cânon da liturgia!), e também afirma: 

"Mas para maior exatidão eu adiciono isto também, escrevendo por necessidade, que há outros livros além destes que não estão incluídos no Cânon, mas apontados pelos Pais para leitura por aqueles que acabaram de se juntar a nós, e que desejam instrução na palavra celestial. A Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Siraque, Ester, Judite, Tobias, aquele que é chamado de o Ensino dos Apóstolos e o Pastor. Mas os primeiros, meus irmãos, são incluídos no Cânon, sendo os últimos meramente para leitura(Epístola 39, Cap.7) 

 

Se eles são “meramente para a leitura”, então não podem ser usados para basear doutrina em cima deles; doutro modo, o “meramente” perde totalmente o sentido! 

 

Epifânio: 

 

“Há também além destes dois outros livros duvidosos, a Sabedoria de Salomão e o Eclesiástico... estes são úteis e proveitosos, mas não estão admitidos no número dos aceitos (Epiphan. adv. Haeres. pags. 18, 19. Colon. 1682, et Epiph) 

 

Se eram “duvidosos”, então a estorinha da missa não cola aqui, pois a razão de Epifânio deixá-los fora do cânon não foi por não serem usados na liturgia, mas porque eram livros duvidosos e que por isso não eram aceitos pelos cristãos! 

 

Cirilo de Jerusalém: 

 

“Agora estas divinamente inspiradas Escrituras do Velho e Novo Testamento nos ensinam... Aprenda também diligentemente, e da Igreja, quais são os livros do Velho Testamento, e quais aqueles do Novo... Leia as Divinas Escrituras, os vinte e dois livros do Velho Testamento, estes que foram traduzidos pelos setenta e dois intérpretes... Destes leia os vinte e dois livros, mas não tenha nada com os livros apócrifos. Estude seriamente estes apenas, os quais nós lemos abertamente na Igreja” (NPNF2, Vol. 7, Cirilo de Jerusalém, Catechetical Lectures IV.33-36) 

 

Cirilo não iria dizer para estudar somente os 22 livros (na lista que exclui os apócrifos) se os apócrifos também fossem Escritura Sagrada! Como é que alguém ousaria impedir que seus leitores estudassem livros que fossem Escritura Sagrada e inspirada?!

 

Gregório Nazianzeno:

 

“Além disto, é mais importante que você saiba disto também: nem tudo que se oferece como venerável Escritura deve ser considerado certo. Pois há aqueles escritos por falsos homens – como é algumas vezes feito. A respeito dos livros, há vários que são intermediários e próximos da doutrina da verdade, por assim dizer, mas há outros contudo, que são espúrios e extremamente perigosos, como selos falsos e moedas espúrias, que de fato possuem a inscrição do rei, mas que são falsificações, e feitos de material básico. Com relação a isto, então, eu devo enumerar para você os livros individuais inspirados pelo Espírito Santo e para que você saiba claramente, eu irei começar com os livros do Velho Testamento. O Pentateuco contém Gênesis, então Êxodo, Levítico, que é o livro do meio, depois disto Números e finalmente Deuteronômio. A estes adicione Josué e Juízes, depois destes Rute e os quatro livros de Reis, Paralipomenon (Crônicas) igual a um livro, seguindo estes o primeiro e segundo de Esdras. Depois eu te lembro de cinco livros: o livro de Jó, coroado pela luta contra várias calamidades, também do livro de Salmos, o remédio musical da alma, os três livros da Sabedorias de Salomão, Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Eu adiciono a estes os doze profetas, primeiro Oseias, então Amós, depois Miqueias, Joel, Abdias, Jonas, o tipo dos três dias da Paixão, depois destes não, Habacuque então o nono Sofonias, Ageu, Zacarias e o anjo com dois nomes, Malaquias. Depois destes, conheça os outros profetas, chegando a quatro: o grande e destemido Isaías, Jeremias, inclinado à misericórdia, o místico Ezequiel e Daniel, mais sábio nos acontecimentos das Últimas Coisas, e alguns adicionam Ester a estes. Tenho alistado vinte e dois livros, de acordo com as vinte e duas letras hebraicas. Se há qualquer um além destes, não são genuínos (Carta a Seleuco. ap. Gregório de Nazianzo, Carminum II.vii, PG 37.1593-1595)

 

Gregório lista apenas os 22 livros como canônicos – deixa os apócrifos católicos de fora – e afirma que eles não estavam no cânon exatamente por serem “intermediários” (como disse também Anfilóquio), e não por não serem lidos na missa!

 

Rufino:

 

“Estes são os que os Pais incluíram dentro do cânon, pelos quais as afirmações da nossa fé são firmadas; contudo, convém saber que há outros livros que não são canônicos, mas chamados, por nossos maiores, de eclesiásticos, como a Sabedoria de Salomão e a outra Sabedoria que se diz do filho de Siraque; da mesma ordem é o livro de Tobias e Judite e os Macabeus, que no máximo são lidos na igreja, mas não são tidos como autoridade por onde se possa firmar coisas da fé (NPNF2 3:558; Rufino, sive Cyp. in Explic. Symboli)

 

Rufino diz que eles não eram tidos como autoridade por onde se possa firmar as coisas da fé!!! Como é que um livro que é divinamente inspirado e sendo Escritura Sagrada e autoritativa não pode ser usado para firmas coisas da fé, se a Escritura foi dada por Deus exatamente para este fim?!?

 

“Estes compõe os livros do Velho Testamento. Mas deve-se saber que há também outros livros que nossos pais chamam não de 'Canônicos', mas de 'Eclesiásticos': a saber, Sabedoria, chamada Sabedoria de Salomão, e outra Sabedoria, chamada de Sabedoria do Filho de Siraque, o último sendo chamado pelos latinos com o título geral de Eclesiástico, designando não o autor do livro, mas o caráter da obra. À mesma classe pertence o Livro de Tobias, o Livro de Judite e os Livros dos Macabeus. No Novo Testamento o pequeno livro chamado de Pastor de Hermas (e aquele) que é chamado Os Dois Caminhos, ou o Julgamento de Pedro; todos os quais podem ser lidos nas igrejas, mas não recorridos para a confirmação de doutrina. Os outros escritos eles chamam 'Apócrifos'. Estes eles não podem ler nas igrejas. Estes são tradições que os pais nos transmitiram, as quais, como eu disse, eu achei oportuno estabelecer neste lugar, para a instrução daqueles que estão sendo ensinados nos primeiros elementos da Igreja e da Fé, para que eles saibam de quais fontes da Palavra de Deus suas aspirações devem ser tomadas” (NPNF2, Vol. 3, Rufino, Comentário ao Credo dos Apóstolos 36)

 

Rufino afirma que aqueles livros não eram canônicos porque não tinham autoridade suficiente para serem recorridos para a confirmação de doutrina! Não tem nada a ver com a estorinha da missa!!

 

Jerômimo:

 

"E assim da mesma maneira pela qual a igreja lê Judite, Tobias e Macabeus (no culto público) mas não os recebe entre as Escrituras canônicas, assim também sejam estes dois livros [Sabedoria e Eclesiástico] úteis para a edificação do povo, mas não para estabelecer as doutrinas da Igreja" (Prefácio dos Livros de Salomão)

 

Jerônimo CANSOU de dizer a mesma coisa!

 

"Para os católicos, os apócrifos são certos livros antigos, semelhantes a livros bíblicos, quer do N.T, quer do V.T, o mais das vezes atribuídos a personagens bíblicos, mas não inspirados, como os livros canônicos, e nem escritos por pessoas fidedignas nem de doutrina segura" (Introdução Geral a Vulgata Latina, p.9)

 

Os Pais da Igreja dizendo na cara dura que os livros apócrifos não são inspirados e não estão cânon, e eles colocam no cânon e ainda insistem que são inspirados!

 

Portanto, caro amigo católico, a “explicação” do Rafael Rodrigues não passa de um delírio – o que também não chega a ser nenhuma surpresa.

 

Católico – Bravo! Mas ainda falta refutar as objeções sobre Jerônimo!

 

Evangélico – Elas já foram refutadas. Leia o meu segundo artigo da série contra os apócrifos, em que eu falo sobre Jerônimo. A única coisa que eu gostaria de saber é exatamente quando que Jerônimo mudou de opinião!

 

Católico – Dizem que ele mudou depois dos Concílios de Hipona e Cartago.

 

Evangélico – Hipona e Cartago não passaram de sínodos locais no norte da África, que não refletem a decisão de toda a Igreja de modo geral e ecunêmico. Chega a ser uma piada afirmar que dois sínodos locais realizados no norte da África fossem válidos para toda a Igreja como se refletissem todo o pensamento do Oriente e do Ocidente durante séculos de Cristianismo! Prova disso é que muitos Pais da Igreja que vieram depois destes concílios continuaram negando a canonicidade deles, o próprio papa Gregório Magno rejeitou a canonicidade de 1ª Macabeus ao dizer:

 

“Em relação a tal particular não estamos a atuar irregularmente, se dos livros, ainda que não canônicos, no entanto outorgados para a edificação da Igreja, extraímos testemunho. Assim, Eleázar na batalha feriu e derribou o elefante, mas caiu debaixo da própria besta que tinha matado [1 Macabeus 6:46]” (Library of the Fathers of the Holy Catholic Church, 2:424)

 

E três séculos depois destes dois concílios, João Damasceno continuou rejeitando os acréscimos católicos, dizendo:

 

“Observa-se, ainda, que há vinte e dois livros do Antigo Testamento, um para cada letra do alfabeto hebraico... há também a Sabedoria de Salomão e a Sabedoria de Josué [=Eclesiástico], que foi publicado em hebraico pelo pai de Siraque, e posteriormente traduzido para o grego por seu neto, Josué, o filho de Siraque. Estes são nobres e virtuosos, mas não são contados e nem foram admitidos no cânon (An Exposition of the Orthodox Faith, Livro IV, Cap.17)

 

Depois disso, dezenas de dezenas de Doutores da Igreja durante séculos acumularam montões de declarações de que estavam do lado da lista de Jerônimo e não da dos concílios africanos, como o fez, por exemplo, o cardeal Caetano:

 

“Aqui fechamos nossos comentários dos livros históricos do Velho Testamento. Sobre o resto (ou seja, Judite, Tobias e os livros de Macabeus) são contados por São Jerônimo fora dos livros canônicos, e são colocados junto com os Apócrifos, junto com Sabedoria e Eclesiástico, como se deixa claro no Prologus Galeatus. Não fique perturbado, como um estudioso novato, se você encontrar em qualquer lugar, ou nos sagrados concílios ou sagrados doutores, estes livros reconhecidos como canônicos. Pois as palavras bem como os concílios bem como doutores devem ser reduzidos à correção de Jerônimo. Agora, segundo seu julgamento, na epístola aos bispos Cromácio e Heliodoro, estes livros (e qualquer outro livro igual no cânon bíblico) não são canônicos, ou seja, não possuem a natureza de uma regra para confirmar questões de fé. Ainda, eles podem ser chamados de canônicos, ou seja, na natureza de uma regra para edificação dos fiéis, como sendo recebidos e autorizados no cânon da Bíblia para este propósito. Com a ajuda desta distinçãovocê pode ver seu caminho claramente através do que Agostinho diz, e pelo que está escrito no concílio provincial de Cartago” (Caetano, Comentário em todos os autênticos Livros Históricos do Velho Testamento, no ultimo Capítulo de Esther)

 

"Já que recebemos a regra de Jerônimo, não erremos na separação dos livros canônicos (pois aqueles que ele entregou como canônicos os sustentamos como tais, e aqueles que ele separou dos livros canônicos os consideramos fora do cânon)" (Caetano, Comentário sobre a Epístola aos Hebreus)

 

Além disso, Jerônimo reafirmou sua posição de rejeição aos apócrifos muitos anos mais tarde, escrevendo sobre a educação de Paula, e dizendo, já em 403 d.C, que:

 

“Que [Paula] evite todos os escritos apócrifos, e se ela for levada a lê-los não pela verdade das doutrinas que contêm mas por respeito aos milagres contidos neles, que ela entenda que não são escritos por aqueles a quem são atribuídos, que muitos elementos defeituosos se introduziram neles, e que requer uma perícia infinita achar ouro no meio da sujeira” (Epístola 107:12 - Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series, vol. 6, p. 194)

 

E, como se não bastasse, ele também escreve em 407 d.C um Comentário sobre Daniel ele reafirma a sua rejeição aos acréscimos apócrifos ao livro de Daniel, e ainda diz que aquelas partes não eram autênticas nem tinham autoridade de Escritura Sagrada!

 

“Mas entre outras coisas, devemos reconhecer que Porfírio faz-nos esta objeção sobre o Livro de Daniel, que ele é claramente uma fraude que não deve ser considerado como pertencente às Escrituras Hebraicas mas uma invenção composta em grego. Isso ele deduz do fato de que na história de Susana, onde Daniel está a falar com os anciãos, encontramos as expressões: ‘Para dividir da árvore de aroeira’ (apo tou skhinou skhisai) e viu no carvalho sempre verde (kai apo tou prinou prisai), um jogo de palavras apropriadas para o grego, em vez de para o hebraico. Mas tanto Eusébio como Apolinário responderam-lhe após o mesmo teor, que as histórias de Susana e de Bel e o Dragão não estão contidas no hebraico, mas constituem uma parte da profeciade Habacuque, filho de Jesus, da tribo de Levi. Assim como encontramos no título dessa mesma história de Bel, segundo a Septuaginta: ‘Havia um certo sacerdote chamado Daniel, filho de Abda, um íntimo do reida Babilônia’. E, no entanto, a Sagrada Escriturat estifica que Daniel e os três jovens hebraicos eram da tribo de Judá. Por esta mesma razão, quando eu traduzi Daniel muitos anos atrás, assinalei essas visões com um símbolo crítico, demonstrando que elas não estavam incluídas no hebraico. E a este respeito, estou surpreendido ao ser informado de que certos críticos reclamam que eu por minha própria iniciativa trunquei o livro. Afinal de contas, quer Orígenes, Eusébio e Apolinário e outros homens da Igreja proeminentes e doutores da Grécia reconhecem que, como eu disse, estas visões não são encontradas entre os hebreus, e que portanto eles não são obrigados a responder a Porfírio por estas partes que não exibem autoridade como Sagrada Escritura (Prólogo do Comentário sobre Daniel)

 

Portanto, por mais que sonhem os “apologistas católicos”, as suas tentativas não passam mesmo de sonhos. 

 

Católico – Ok, vamos deixar os argumentos do Rafael Rodrigues de lado e voltarmos a tratar com argumentos de verdade. Você afirmou que os concílios de Hipona e Cartago não foram ecunêmicos, mas apenas sínodos locais. No entanto, as decisões de Cartago passaram pela aprovação de Roma, e foram confirmadas no Concílio de Florença e no Concílio de Trento. E aí, como é que fica? Não está aí a prova evidente de que Trento apenas reafirmou uma decisão que já era crida na Igreja há séculos?

 

Evangélico – Há muitas falhas neste argumento, irmão católico. Em primeiro lugar, para você afirmar que Trento apenas reafirmou algo que já era crido na Igreja antes disso, então só pode crer que o cânon de Hipona e Cartago era o mesmo cânon de Trento, certo?

 

Católico – Sim, é nisso que eu creio.

 

Evangélico –Porém, há um problema nessa teoria.

 

Católico – Qual?

 

Evangélico – Os concílios de Cartago e Hipona aprovaram um livro apócrifo que foi rejeitado pelo Concílio de Trento!

 

Católico – Como assim? Eu acabei de dar uma lida no Concílio de Cartago, comparei com o de Trento e vi que é tudo a mesma coisa!

 

Evangélico – A primeira vista, sim, o que engana muitos leigos. Mas, para os estudiosos, há uma falha grotesca: o livro de 1ª Esdras! Você está lembrado que Agostinho fazia uso da Antiga Latina?

 

Católico – Certamente.

 

Evangélico – As comunidades cristãs da África, a exemplo de seu bispo maior, Agostinho, usavam como referência essa versão, a Antiga Latina, que era uma tradução para latim da Septuaginta. Nela, o livro de 1ª Esdras é um livro apócrifo, que não existe na Bíblia católica dos dias de hoje. Os concílios de Hipona e Cartago admitiram dois livros de Esdras no cânon. Um era esse, e o segundo é o Esdras-Neemias que temos hoje em separado nas Bíblias protestantes, ou como 1ª e 2ª Esdras nas Bíblias católicas.

 

Católico – Mas como é que houve essa confusão de livros?

 

Evangélico – Porque o Concílio de Trento usou como referência a Vulgata Latina, de Jerônimo, que foi o primeiro a fazer essa diferença entre os “Esdras”, e jogou esse 1ª Esdras presente na Septuaginta como um apêndice na Vulgata com o nome de “3ª Esdras”, fazendo assim com que Esdras e Neemias fossem 1ª e 2ª Esdras. O Concílio de Trento, então, ao afirmar canonicidade à 1ª e 2ª Esdras, está se referindo a Esdras e Neemias, enquanto que o Concílio de Cartago, ao afirmar canonicidade à 1ª e 2ª Esdras, baseando-se na Antiga Latina, está declarando canonicidade a este livro apócrifo de 1ª Esdras e também aos livros de Esdras e Neemias, que eram reconhecidos como sendo um só livro, com o título de “2ª Esdras”. 

 

Católico – Puxa vida, que confusão! Mas o que é que você quer provar com tudo isso?

 

Evangélico – Simplesmente o fato de que o Concílio de Trento não “reafirmou” nada; pelo contrário: ele inovou! Ele excluiu um livro presente como canônico nos concílios de Cartago e de Hipona, por causa de uma passagem que se opunha fortemente à oração pelos mortos, e isso faz com que a apelação católica aos concílios de Hipona e Cartago perca completamente o sentido, visto que há discrepâncias entre eles e Trento! Trento não reafirmou, Trento inovou!

 

Católico – Bom, depois dessa verdadeira aula sobre a formação do cânon, creio que agora eu devo ir embora, mas não pense que é por falta de argumentos! Afinal, é porque eu estou com sono, é claro, já são quase oito horas da noite e eu não posso perder o jogo clássico entre Nigéria e Porto Rico no Ping-Pong feminino pelas Olimpíadas logo de manhã cedo. Então, tenho que ir dormir.

 

Evangélico – Não, eu realmente não vou achar que você está fugindo pela tangente. Mas, diante de tudo aquilo que foi exposto, por que você e os demais católicos que acompanharam a nossa conversa vão continuar crendo cegamente em suas teses já totalmente derrubadas, refutadas e ultrapassadas? Por que, diante da Verdade, você prefere continuar seguindo uma Instituição religiosa, ao invés de seguir a verdade de Cristo?

 

Católico – Porque... a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! É a única Igreja de Cristo! (...)

 

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Por: Lucas Banzoli.
 
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